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Aos 75 anos, ex-médico abandonou carreira e vive há 25 anos em pequeno sítio de 4 hectares onde cultiva 500 pés de mirtilo e produz os próprios remédios
Ex-cirurgião abandonou a carreira e há 25 anos vive em sítio de 4 hectares com 500 pés de mirtilo.
Depois de décadas abrindo tórax na madrugada, Roberto trocou o hospital por um sítio de quatro hectares, decidindo ser um ex-médico cirurgião. Aos 75 anos, cultiva 500 pés de mirtilo, mas ainda usa o próprio conhecimento de medicina para preparar remédios caseiros com o que colhe. Só que produzir remédio caseiro no Brasil, mesmo com diploma de médico, esbarra na fiscalização da Anvisa. A história é fictícia, mas ilustra um limite que pega muita gente de surpresa.
Como um cirurgião respeitado virou produtor de remédios no sítio?
Roberto largou os plantões de 24 horas depois de uma vida inteira na urgência. Comprou o terreno, plantou mirtilo pé por pé e foi juntando o conhecimento de medicina com o que a terra dava. O engenho é real: ele estuda plantas, testa preparos e anota cada resultado num caderno.
O que ele preparava começou como chá para dor nas costas e foi virando frascos com nome e dosagem. Vizinhos começaram a pedir. Foi aí que a atividade cruzou uma linha que a Anvisa vigia de perto.

O que aconteceu quando os frascos saíram do sítio?
Voltando aos preparos de Roberto, o problema não estava no chá que ele tomava sozinho. Foi quando os frascos passaram a circular pela vizinhança que a situação mudou de figura.
Uma denúncia levou a vigilância sanitária até o sítio. Os fiscais recolheram os produtos e explicaram que fabricar e distribuir medicamento, mesmo sem cobrar, é atividade que depende de autorização. O conhecimento médico de Roberto não substituía o registro que a lei exige.
Mas afinal, o que a lei brasileira diz sobre produzir remédio caseiro?
E se nem um médico pode fazer isso livremente, a pergunta é por quê. A resposta está na Lei 6.360/1976, que submete todo medicamento a registro prévio na Anvisa antes de ser fabricado ou distribuído.
A lógica é simples: nenhum remédio pode chegar a outra pessoa sem passar por controle de qualidade, dose e segurança. Preparar um chá para si é uso pessoal. Produzir frascos com dosagem e repassar a terceiros é o que a lei chama de fabricação, e isso exige autorização formal.

Quais são as exigências e os riscos previstos em lei?
No caso de Roberto, o que parecia um gesto de cuidado esbarrou em regras que valem para qualquer laboratório do país. A norma não faz distinção entre uma multinacional e um sítio no interior.
Os pontos que a legislação impõe são estes:
As normas existem para atrapalhar quem quer cuidar da saúde?
Diante dessas exigências, fica a dúvida: por que travar alguém com décadas de medicina de preparar um remédio? A regra sobre falsificar ou fabricar produto sem registro está inclusive no art. 273 do Código Penal, e não nasceu por acaso.
Ela existe porque, ao longo dos anos, gente morreu ou ficou doente por remédio sem controle, dose errada ou substância contaminada. A sociedade preferiu exigir um selo de segurança a confiar na boa intenção de quem fabrica, por mais qualificado que seja.
O que muda quando comparamos o preparo de Roberto com o caminho legal?
A diferença entre os frascos que Roberto preparava e um fitoterápico legalizado não está no conhecimento dele nem na qualidade da planta, mas no processo que garante segurança a quem vai usar. Faltou o selo, não faltou saber.
A comparação entre o caminho que Roberto seguiu e o que a lei pede fica clara na tabela:
| Etapa | O que Roberto fez | O que a lei exige |
|---|---|---|
| Preparo do produto Como o remédio foi feito | Formulou por conta própria com base na experiência | Sem registro |
| Estrutura de produção Onde e como fabricar | Usou a própria cozinha do sítio | Exige licença |
| Destino dos frascos Uso próprio ou terceiros | Repassou preparos para vizinhos | Só via canal aprovado |
O que se aprende com a história de Roberto?
Roberto passou a vida cuidando de gente e levou esse cuidado para o sítio aos 75 anos. O conhecimento dele nunca foi o problema, e a lei não está contra quem quer curar: ela só exige que qualquer remédio que chegue a outra pessoa tenha passado por controle de segurança.
Quem realmente quer transformar um preparo caseiro em remédio precisa seguir esse roteiro: procurar a Anvisa para entender a via de registro de fitoterápico, apoiar-se em farmácia de manipulação licenciada, trabalhar com prescrição e acompanhamento profissional, e manter para uso estritamente pessoal aquilo que não tem autorização, para que uma vida de cuidado não termine numa apreensão.