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As “ruas que cantam” são parte do encanto desta cidade histórica do Vale do Café que intriga viajantes
A pequena cidade do Vale do Café.
Em Conservatória, distrito de Valença, cada fachada pode esconder uma música esperando para ser tocada. Os moradores escolhem uma canção e colocam na frente de casa uma pequena placa metálica com o título e os autores. Nas noites de sexta e sábado, os seresteiros percorrem as ruas de pedra, param diante das residências e executam justamente a composição indicada. São 403 músicas espalhadas pelo casario colonial, resultado de uma tradição iniciada em 1960 pelos irmãos José Borges e Joubert e encerrada em 2003 com a instalação da última placa. A 148 km do Rio de Janeiro, Valença transformou esse costume em uma das experiências culturais mais peculiares do interior fluminense.
Como o café transformou Valença em cidade histórica?
Muito antes das serenatas de Conservatória, a riqueza do café mudou completamente a trajetória de Valença. Fundada oficialmente em 1823, a cidade surgiu a partir de um aldeamento dos índios Coroados e cresceu durante o século XIX com a expansão das lavouras. Os barões do café acumularam fortunas e ergueram casarões, igrejas e outras construções que ainda ajudam a contar a história daquele período.
Com o fim da escravidão e o desgaste das terras, a produção cafeeira perdeu força e muitas propriedades passaram a se dedicar à pecuária. A economia mudou, mas boa parte do patrimônio permaneceu. Em 2019, o INEPAC reconheceu o conjunto histórico como patrimônio cultural fluminense, enquanto algumas propriedades rurais começaram a retomar o cultivo do café. Na Fazenda Florença, por exemplo, o visitante encontra justamente essa tentativa de conectar o passado cafeeiro à nova fase turística do Vale do Café.

Quais lugares contam a história de Valença?
Valença reúne atrações espalhadas pelo centro histórico e por distritos como Conservatória, onde a música e o patrimônio colonial se misturam. Para aproveitar melhor a região, vale reservar pelo menos dois dias, alternando entre construções históricas, antigas fazendas e os espaços que preservam a tradição das serestas.
- Conservatória: conhecida como Cidade das Serestas, mantém casario colonial, ruas de pedra, serenatas nas noites de sexta e sábado a partir das 23h, chorinho na praça aos sábados pela manhã e a Solarata aos domingos.
- Túnel que Chora: passagem de 95 metros aberta na rocha por pessoas escravizadas no século XIX para a antiga ferrovia. Uma nascente no alto faz a água escorrer continuamente, criando a aparência que deu origem ao nome.
- Museu da Seresta e Serenata: funciona na Casa de Cultura e reúne músicos e um dos maiores acervos relacionados à seresta no país. Nas proximidades também estão os museus dedicados a Vicente Celestino, Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves e Guilherme de Brito.
- Fazenda Florença: propriedade de arquitetura neoclássica construída em 1852, com saraus históricos, apresentações caracterizadas e degustação de café. O local também serviu de cenário para produções da TV Globo.
- Morro do Cruzeiro: a 800 metros de altitude, apresenta um perfil comparado ao Pão de Açúcar. No alto, um cruzeiro de 1803 marca o ponto associado à primeira missa da região e proporciona vista da zona rural.
- Ponte dos Arcos: estrutura histórica com 100 metros de extensão e 12 metros de altura, construída com pedra, cal e óleo de baleia. Foi inaugurada em 1884 durante visita de Dom Pedro II.
- Catedral de Nossa Senhora da Glória: principal templo católico de Valença, destaca-se pela fachada com elementos de inspiração renascentista.
Quais sabores representam a cozinha de Valença?
A mesa de Valença carrega a influência das antigas fazendas, dos tropeiros e da vida rural do Vale do Café. Conhecida como capital do queijo no Rio de Janeiro, a região também reúne propriedades que produzem queijos artesanais premiados em competições internacionais e mantêm receitas tradicionais preparadas no fogão a lenha.
- Queijos artesanais: produzidos em fazendas da região, aparecem em versões frescas e curadas e podem ser encontrados em estabelecimentos do centro e nas próprias propriedades rurais.
- Feijão tropeiro: combinação de feijão, farinha de mandioca, linguiça, couve e ovos, tradicionalmente servida em panela de barro nos restaurantes de Valença e Conservatória.
- Frango caipira ao molho pardo: preparo típico da cozinha de fogão a lenha, presente principalmente nos restaurantes instalados em fazendas históricas.
- Café do Vale: cultivado novamente por propriedades que retomaram a produção cafeeira, pode ser experimentado em degustações acompanhadas nas fazendas.

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Quando o clima da serra favorece fazendas e serestas?
Valença tem clima tropical de altitude, com verões quentes e invernos secos. A melhor época vai de abril a setembro, quando as chuvas diminuem e as noites ficam frescas para caminhar sob as serenatas. Em julho, o Festival Vale do Café leva apresentações musicais a igrejas e fazendas de toda a região.
Temperaturas aproximadas. Consulte a previsão atualizada no Climatempo. Condições podem variar.

Qual é o caminho para chegar a Valença?
O acesso desde o Rio de Janeiro percorre cerca de 148 km pela Rodovia Presidente Dutra (BR-116), com saída em Piraí e continuação pela RJ-145, passando por Barra do Piraí. Em condições normais, a viagem de carro leva aproximadamente 2h30. Já Conservatória fica a 34 km da sede municipal, com acesso pela RJ-137.
Para quem não pretende dirigir, ônibus da Útil partem da Rodoviária Novo Rio em direção à região. Informações sobre atrativos, fazendas, cachoeiras e programação podem ser consultadas no guia turístico mantido pela Prefeitura de Valença.
Por que Valença transforma história em experiência?
Poucos lugares concentram tantas formas diferentes de contar o passado. Em Valença, antigas fazendas preservam a memória do ciclo do café enquanto algumas voltaram a cultivar os grãos; em Conservatória, as placas musicais transformam as fachadas em um roteiro de seresta; e o Túnel que Chora mantém uma lembrança peculiar dos antigos caminhos ferroviários.
Quando chega a noite de sexta-feira, essa história ganha som. Os seresteiros percorrem as ruas de pedra de Conservatória, seguindo as músicas indicadas nas fachadas das casas e transformando o passeio em uma experiência que mistura patrimônio, música e memória.