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Coração Acelerado chega ao fim como uma novela de boas ideias sufocadas por uma história mal construída
Novela de Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento se despede após sete meses marcada por baixa audiência, excesso de música, protagonistas frágeis e reviravoltas pouco convincentes; apesar de bons nomes no elenco e alguns acertos, último capítulo expôs os problemas acumulados pela trama
Coração Acelerado chegou ao fim nesta sexta-feira, 14 de agosto de 2026, deixando uma sensação contraditória. A novela das sete da Globo tinha ingredientes suficientes para ser uma produção divertida, popular e capaz de dialogar com um Brasil contemporâneo pouco explorado pela teledramaturgia. Havia música sertaneja, romance, humor, disputas familiares, redes sociais, ambição, rivalidade feminina e um elenco que reunia nomes como Isadora Cruz, Filipe Bragança, Isabelle Drummond, Leandra Leal, Letícia Spiller, Daniel de Oliveira, Gabz e Thomás Aquino.
No papel, parecia uma combinação promissora. Na prática, porém, a novela escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, com direção artística de Carlos Araújo, nunca conseguiu transformar todos esses elementos em uma história verdadeiramente envolvente.
Exibida desde 12 de janeiro, a produção termina como uma das experiências mais problemáticas recentes da faixa das sete. A audiência é uma evidência disso: a estreia marcou 19,3 pontos na Grande São Paulo e a trama termina com a segunda menor média da história do horário. O capítulo final, entretanto, conseguiu reagir e marcou cerca de 22,5 pontos, segundo dados preliminares divulgados pela imprensa especializada.
Mais importante do que os números, contudo, é entender por que Coração Acelerado não conseguiu estabelecer uma relação mais forte com o público.
Uma ideia interessante que não encontrou a história certa
A proposta inicial tinha personalidade. Coração Acelerado pretendia mergulhar no universo sertanejo contemporâneo e contar a trajetória de Agrado (Isadora Cruz), uma jovem cantora em busca de espaço profissional, enquanto construía seu relacionamento com o astro João Raul (Filipe Bragança).
A própria Globo apresentou a novela como uma comédia romântica musical, tendo a música e a força das mulheres nesse mercado como pilares da narrativa.
Era uma possibilidade interessante de atualizar a tradicional novela das sete. O problema nunca esteve em falar sobre sertanejo ou transformar personagens em cantores. A televisão brasileira já mostrou inúmeras vezes que novelas musicais podem funcionar.
A própria Izabel de Oliveira participou de dois bons exemplos: Cheias de Charme e Rock Story.
A diferença é que, nessas produções, a música fazia parte da história. Em Coração Acelerado, muitas vezes a música parecia substituir a história.
Nos primeiros meses, apresentações, ensaios, shows e números musicais ocuparam espaço demais enquanto conflitos dramáticos avançavam pouco. A percepção também apareceu entre telespectadores e na crítica, levando a produção a diminuir a presença das sequências musicais e reforçar drama e humor ao longo da exibição.
Foi praticamente uma correção de rota feita com a novela no ar.
O maior problema estava justamente no casal protagonista
Se existe um erro estrutural difícil de corrigir em uma novela romântica, é o público não comprar o romance central. Agrado e João Raul deveriam representar o coração da história. Mas o relacionamento dos personagens passou boa parte da novela preso a separações, ciúmes, decisões questionáveis e obstáculos artificiais.
João Raul, especialmente, foi prejudicado pelo texto. O personagem que deveria ocupar a posição de galã romântico frequentemente apresentou comportamentos difíceis de conciliar com essa função. Em determinados momentos, suas atitudes em relação a Agrado transformaram aquilo que deveria ser uma grande paixão em uma relação cansativa.
Parte da crítica especializada chegou a apontar justamente o romance forçado, a pouca química percebida entre os protagonistas e a construção problemática de João Raul como fatores para o desinteresse pela trama.
Isso não significa que Isadora Cruz e Filipe Bragança tenham feito trabalhos ruins. O problema estava fundamentalmente na dramaturgia oferecida aos dois.
Isadora conseguiu dar humanidade, carisma e alguma vulnerabilidade a Agrado. Sua preparação para viver uma cantora também merece reconhecimento — a atriz falou sobre o trabalho vocal e sobre a aproximação com a cultura do Centro-Oeste exigidos pela personagem.
Mas nem uma protagonista carismática consegue sustentar sozinha uma novela quando sua principal história de amor não convence.
Um elenco melhor do que o material oferecido
Talvez uma das maiores frustrações de Coração Acelerado seja perceber o tamanho do elenco que esteve à disposição da novela. Leandra Leal e Isabelle Drummond, por exemplo, retornaram às novelas em papéis de grande potencial.
Zilá tinha todos os ingredientes para ser uma grande vilã das sete: ambiciosa, manipuladora, exagerada e interpretada por uma atriz capaz de equilibrar drama e humor. Naiane também poderia representar uma antagonista extremamente contemporânea, explorando fama, exposição, narcisismo e a lógica das redes sociais.
Em vários momentos, as duas deram energia à novela. O problema é que nem mesmo elas escaparam da irregularidade do roteiro. Naiane oscilou entre vilã, personagem cômica, jovem mimada e figura a ser redimida. Zilá acumulou tantas maldades, segredos e reviravoltas que chegou ao fim praticamente pertencendo a outra novela.
Outros personagens sofreram ainda mais. A crítica chegou a apontar o desperdício de bons atores em histórias consideradas fracas ou pouco exploradas.
Essa talvez seja uma das melhores definições do problema: Coração Acelerado tinha personagens suficientes, mas não tinha histórias igualmente fortes para todos eles.
Quando a novela começou a reagir
Seria injusto dizer que nada funcionou. Quando reduziu a dependência dos números musicais e investiu mais nos conflitos familiares, no humor e nos segredos envolvendo o passado dos personagens, a novela ficou mais dinâmica. A audiência chegou a apresentar alguma reação, estabilizando-se em torno dos 20 pontos em diferentes momentos da exibição.
O universo visual também merece reconhecimento. A ambientação ligada ao Centro-Oeste, as paisagens, figurinos e a construção estética do universo sertanejo deram uma identidade própria à produção, mesmo que o regionalismo tenha sido considerado pouco convincente por parte do público e da crítica.
E havia boas atuações espalhadas pela trama. Isabelle Drummond mostrou novamente sua facilidade para a comédia; Leandra Leal transformou Zilá em uma personagem maior do que muitas situações escritas para ela; Letícia Spiller conseguiu entregar emoção a Janete; Gabz deu força a Eduarda; e Isadora Cruz sustentou com dignidade a responsabilidade de protagonizar uma novela das sete.
O problema é que bons momentos isolados não substituem uma boa arquitetura dramática.
A reta final virou uma sucessão de reviravoltas
Foi justamente perto do encerramento que os problemas ficaram mais evidentes. Quando uma novela passa meses sem desenvolver adequadamente seus mistérios, chega ao último mês precisando resolver em poucas semanas aquilo que deveria ter sido construído durante dezenas de capítulos.
Foi o que aconteceu.
A revelação de que Ronei era o pai biológico de João Raul, por exemplo, surgiu tarde demais para produzir todas as consequências emocionais que uma descoberta desse tamanho deveria provocar. Poucos capítulos depois, João Raul já estava deixando Bom Retorno após ter sua história familiar completamente modificada.
Algo semelhante aconteceu com Agrado. Somente na reta final ela descobriu que Alaorzinho era seu verdadeiro pai, depois que Janete recuperou lembranças fundamentais de seu passado.
E então veio Jean Carlos. O personagem que durante grande parte da novela esteve associado a um trauma fundamental da história simplesmente reapareceu vivo, usando outra identidade e precisando de dinheiro para continuar foragido.
A volta poderia ter sido uma excelente reviravolta caso tivesse sido preparada. Sem preparação suficiente, porém, pareceu mais uma solução encontrada para movimentar rapidamente os capítulos finais.
O último capítulo escancarou as incoerências
O encerramento sintetizou perfeitamente o principal defeito de Coração Acelerado: a necessidade de fabricar emoções que a própria novela não construiu adequadamente.
Agrado descobre que João Raul decidiu se afastar para não prejudicar sua carreira e faz uma declaração pública pelo rádio. Ele retorna justamente durante o casamento de Eduarda e Leandro e os dois finalmente ficam juntos.
É romântico na intenção. Dramaturgicamente, porém, evidencia a fragilidade de um casal que passou meses sendo separado e reunido por decisões do roteiro.
Mais problemática ainda foi a redenção quase coletiva promovida pelo capítulo. Naiane descobre que Agrado é sua irmã, reconhece seus erros e ganha reconciliação. Depois de tudo que aconteceu, ela ainda reencontra Gael e recebe seu final romântico.
Zilá protagoniza talvez a transformação mais abrupta. Depois de atravessar a novela acumulando crimes, manipulações e segredos, aparece em um retiro espiritual, transformada, e posteriormente reencontra Ronei. A própria Globo antecipou a personagem vivendo essa nova fase no capítulo final.
O problema não é uma vilã receber redenção. Novelas fazem isso há décadas. O problema é confundir redenção com mudança instantânea de personalidade.
Para que o público aceite a transformação de uma personagem, é necessário acompanhar culpa, consequência, reflexão e mudança. Quando tudo isso acontece praticamente no apagar das luzes, não existe arco dramático: existe apenas uma solução de roteiro.
Todo mundo precisava terminar feliz?
O último capítulo parece ter partido da ideia de que uma novela das sete precisa terminar distribuindo felicidade.
Eduarda e Leandro se casaram. Naiane e Gael se reconciliaram. Agrado e João Raul ficaram juntos. Zilá encontrou um caminho de transformação e voltou a se aproximar de Ronei. Cinara ganhou Palhares. Agrado e Eduarda retomaram a parceria musical. Até a antiga Ronei Music ganhou nova identidade.
O resultado foi uma espécie de anistia dramática geral. Quase todos receberam uma segunda chance independentemente da gravidade de suas atitudes anteriores. E isso enfraquece a própria história.
Final feliz funciona quando representa a consequência de uma trajetória. Em Coração Acelerado, vários finais parecem existir simplesmente porque era o último capítulo e todos precisavam encontrar algum lugar na fotografia de despedida.
Uma novela que nunca encontrou seu próprio tom
Talvez Coração Acelerado tenha sofrido principalmente por não saber exatamente que novela queria ser.
Era comédia romântica?
Drama familiar?
Novela musical?
Sátira do universo sertanejo?
Melodrama mexicano?
História sobre empoderamento feminino?
Narrativa sobre redes sociais e celebridades?
Em diferentes momentos tentou ser tudo isso.
O resultado foi uma obra sem unidade.
Já na estreia, a crítica observava uma produção dividida entre boas intenções e escolhas estéticas exageradas, chegando a compará-la ao melodrama mexicano. Sete meses depois, o problema permaneceu.
As autoras Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento demonstraram boas ideias individuais, mas tiveram dificuldade para organizá-las dentro de uma narrativa coesa. Carlos Araújo entregou uma produção tecnicamente competente, mas direção nenhuma consegue solucionar completamente problemas que estão na estrutura dramatúrgica.
O fracasso não apaga os acertos
Também seria simplista transformar Coração Acelerado apenas em sinônimo de fracasso.
A novela revelou ou consolidou talentos, devolveu Isabelle Drummond e Leandra Leal ao gênero, colocou Isadora Cruz diante de um enorme desafio profissional e tentou levar para a faixa das sete um universo cultural extremamente popular no Brasil.
Houve ousadia na escolha temática.
Houve investimento.
Houve bons atores.
Houve cenas divertidas.
Houve personagens que poderiam ter rendido muito mais.
O que faltou foi justamente aquilo que nenhuma produção grandiosa consegue substituir: uma história consistente.
Coração Acelerado termina deixando uma importante lição para a Globo
O desempenho da novela também precisa ser analisado dentro de um momento de transformação da televisão aberta. Audiências de décadas passadas não voltarão simplesmente porque uma novela é exibida pela Globo.
Mas isso não significa que qualquer resultado possa ser explicado apenas pela mudança dos hábitos de consumo.
Coração Acelerado estreou abaixo das expectativas, apresentou dificuldades para crescer e termina com a segunda menor audiência histórica da faixa das sete.
O público pode estar mais disperso, mas continua respondendo quando encontra personagens capazes de gerar identificação e histórias que criam expectativa para o capítulo seguinte.
Esse foi o coração que faltou acelerar.
Depois de aproximadamente sete meses, a novela termina como uma obra de boas intenções, bons atores e algumas boas ideias que raramente funcionaram juntas.
Seu último capítulo não corrigiu os problemas. Pelo contrário: ao acelerar revelações, distribuir redenções e reunir praticamente todos em finais felizes, deixou ainda mais evidente quanto faltou desenvolvimento ao longo da trajetória.
Coração Acelerado queria falar sobre música, fama, família, amor e recomeços. Terminou falando, involuntariamente, sobre outra coisa: uma boa premissa não basta para fazer uma boa novela.
E talvez essa seja a principal lição que a obra de Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento deixa para a faixa das sete.
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