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Deborah Evelyn transforma a coadjuvante Carmita em um dos destaques da segunda fase de Quem Ama Cuida

Atriz encontra o equilíbrio entre humor, ambição e vulnerabilidade e faz de uma personagem que poderia cair na caricatura uma das figuras mais interessantes da novela das nove

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Crítica Deborah Evelyn como Carmita em Quem Ama Cuida

Entre tantos nomes consagrados reunidos em Quem Ama Cuida, Deborah Evelyn vem conseguindo algo particularmente valioso: transformar uma personagem essencialmente coadjuvante em uma presença difícil de ignorar. Na pele de Carmita, a atriz encontrou um registro que combina afetação, oportunismo, humor, crueldade e, mais recentemente, vulnerabilidade.

O resultado é uma personagem que funciona justamente por suas contradições.

Carmita foi apresentada pela Globo como a mãe de Bruna (Nanda Marques), uma mulher que teve um relacionamento com Arthur Brandão (Antonio Fagundes) no passado e que insiste para que a filha conquiste um “bom partido”. A descrição oficial já indicava sua obsessão pela ascensão social e sua disposição para interferir na vida da filha para alcançar seus objetivos.

Deborah Evelyn, entretanto, consegue ir além dessa definição inicial.

Uma personagem que poderia facilmente virar caricatura

Carmita pertence a uma tradição bastante conhecida das novelas de Walcyr Carrasco: personagens moralmente questionáveis, interesseiros, exagerados e capazes de despertar simultaneamente rejeição e diversão.

A própria Deborah definiu Carmita antes da estreia como uma personagem com “muitas sombras”. Em outra declaração, afirmou que ela possui uma moral bastante duvidosa e se considera no direito de passar por cima das pessoas — inclusive da própria filha — para conseguir aquilo que acredita ser correto.

Esse tipo de personagem apresenta um risco evidente para qualquer ator: exagerar demais e transformar a interpretação numa sucessão de trejeitos. Deborah segue pelo caminho contrário.

Há exagero em Carmita, evidentemente. Ele faz parte da personagem. Está na maneira de falar, nas expressões faciais, na postura corporal e na forma como ela reage às situações. Mas a atriz demonstra compreender que existe uma diferença entre interpretar uma mulher espalhafatosa e simplesmente fazer uma atuação espalhafatosa.

É justamente aí que está um dos méritos de seu trabalho. Carmita é exagerada. Deborah Evelyn, não.

A atriz parece controlar cuidadosamente o tamanho da interpretação, permitindo que o público enxergue a artificialidade social da personagem sem perder completamente a mulher escondida por trás daquela fachada.

O casamento como projeto de vida

Existe ainda uma questão interessante na construção de Carmita. A própria Deborah Evelyn já explicou que sua personagem foi criada dentro de uma lógica segundo a qual o casamento representa segurança, estabilidade e reconhecimento social. Essa mentalidade ajuda a compreender tanto sua obsessão pelo futuro amoroso de Bruna quanto suas próprias escolhas.

Isso não absolve Carmita de suas atitudes. Ao contrário. A personagem manipula a filha e tenta interferir em seus relacionamentos porque enxerga o casamento quase como uma negociação social. Para ela, amor, dinheiro, posição e segurança financeira parecem fazer parte do mesmo pacote.

Deborah consegue tornar essa mentalidade compreensível sem necessariamente torná-la aceitável. É uma diferença importante.

Quando Carmita tenta reconquistar Arthur e impedir seu casamento com Adriana (Letícia Colin), por exemplo, poderia ser vista simplesmente como mais uma mulher interesseira atrás da fortuna do empresário. A própria trama mostrou Carmita apelando para o passado dos dois e chegando a se oferecer como possível esposa de Arthur.

Na interpretação de Deborah, porém, existe também uma espécie de frustração. Carmita parece olhar para Arthur como a representação de uma vida que acredita ter perdido. E isso torna a personagem mais interessante.

O golpe de Edson muda nossa percepção sobre Carmita

O arco envolvendo Edson, interpretado por Vandré Silveira, talvez seja até agora o momento mais importante para o desenvolvimento de Carmita.

Depois de passar boa parte da novela tentando controlar a vida sentimental da filha e avaliando relacionamentos a partir da segurança financeira que poderiam proporcionar, Carmita acaba vítima justamente daquilo que mais valoriza: a aparência de riqueza.

Edson surge elegante, sedutor e aparentemente bem-sucedido. Carmita acredita ter encontrado finalmente uma oportunidade de felicidade amorosa e acaba fazendo um empréstimo bancário para ajudá-lo. O homem desaparece com o dinheiro e ela percebe que foi enganada.

É uma ironia narrativa quase perfeita. A mulher que passou tanto tempo tentando garantir que a filha encontrasse um homem rico é enganada por um sujeito que construiu exatamente essa imagem. Mas é nesse momento que Deborah Evelyn também consegue mostrar outra Carmita.

A afetação começa a dividir espaço com vergonha, medo e fragilidade. Quando percebe que Edson desapareceu, Carmita hesita em admitir que foi enganada. Posteriormente, ao lado de Fábia (Flávia Alessandra), parte atrás do golpista e descobre que ele também deixou dívidas no hotel onde estava hospedado.

É uma trama que poderia ser conduzida apenas como alívio cômico. Felizmente, não é isso que Deborah faz.

Deborah Evelyn encontra humanidade onde seria fácil encontrar apenas humor

O maior mérito da atriz nesse arco é não abandonar a dignidade emocional da personagem. É possível rir da situação de Carmita e, ao mesmo tempo, sentir alguma compaixão por ela. Isso acontece porque Deborah não interpreta o sofrimento da personagem como uma piada.

A atriz permite que Carmita continue sendo Carmita — exagerada, orgulhosa e preocupada com as aparências — enquanto deixa aparecer uma mulher genuinamente humilhada pela descoberta de que foi manipulada emocionalmente.

E essa mudança amplia consideravelmente as possibilidades da personagem. Carmita deixa de ser apenas a mãe interesseira que tenta administrar o casamento da filha e passa a ter seu próprio conflito. Mais importante: experimenta na própria pele as consequências da lógica que sempre defendeu.

A parceria com Flávia Alessandra é outro ponto forte

Outro elemento que merece destaque é a relação entre Carmita e Fábia. Deborah Evelyn e Flávia Alessandra demonstram boa química em cena, especialmente porque trabalham em registros complementares.

Existe uma dinâmica de amizade que permite humor, cumplicidade e conflito sem exigir que cada cena seja construída em função da trama principal. Depois do golpe de Edson, Fábia passa a apoiar Carmita e acompanha a amiga na tentativa de localizar o vigarista.

São justamente essas relações aparentemente menores que ajudam uma novela longa a construir personagens memoráveis. Carmita funciona muito bem quando está inserida nesse universo paralelo aos grandes conflitos envolvendo Adriana, Pilar e a família Brandão.

Um elenco forte em uma novela que divide opiniões

É importante separar também a avaliação do trabalho de Deborah Evelyn da recepção geral de Quem Ama Cuida.

Discussões de espectadores mostram opiniões bastante divididas sobre a novela. Há críticas à condução de determinadas histórias, ao excesso de sofrimento e à construção de alguns personagens. Ao mesmo tempo, mesmo entre espectadores que apontam problemas no roteiro, aparece o reconhecimento da força do elenco. Em uma discussão sobre a produção, por exemplo, um espectador definiu o elenco como muito bom e destacou também a criatividade visual da direção.

Esse contexto acaba favorecendo uma conclusão interessante sobre Carmita. Deborah Evelyn está conseguindo fazer a personagem crescer mesmo sem estar no centro da história. E isso diz bastante sobre a atriz.

O retorno de Deborah Evelyn às novelas da Globo

Carmita também representa um reencontro importante. Deborah Evelyn retornou às novelas da Globo depois de cerca de cinco anos afastada da emissora. Antes da estreia, a atriz explicou que o convite da diretora artística Amora Mautner, a oportunidade de voltar a trabalhar com Walcyr Carrasco e a reunião de um elenco experiente foram fatores importantes para aceitar o projeto.

O retorno parece ter acontecido no momento certo. Aos 60 anos, Deborah pertence a uma geração de atrizes que domina profundamente a linguagem da telenovela. E Carmita permite justamente explorar uma qualidade essencial desse gênero: a possibilidade de uma personagem inicialmente secundária crescer aos poucos a partir da resposta dramática de seus intérpretes e dos caminhos encontrados pelo roteiro.

Carmita é desagradável — e esse é justamente o mérito

Talvez o maior elogio que se possa fazer à interpretação seja este: Deborah Evelyn não parece preocupada em fazer Carmita ser querida. Ela permite que a personagem seja inconveniente. Interesseira. Manipuladora. Fútil. Patética em determinados momentos. E vulnerável em outros.

Essa ausência de preocupação em tornar Carmita simpática acaba fazendo justamente o contrário: torna a personagem divertida de acompanhar. Não porque concordamos com ela, mas porque queremos descobrir qual será sua próxima reação. É uma diferença fundamental entre personagem simpático e personagem carismático. Carmita está claramente no segundo grupo.

Veredito

Até aqui, Deborah Evelyn entrega uma das interpretações mais saborosas de Quem Ama Cuida. Não necessariamente porque Carmita seja a personagem mais complexa da novela, mas porque a atriz parece compreender perfeitamente o material que recebeu.

Ela não tenta transformar Carmita em algo que ela não é. Ao contrário: abraça suas contradições.

Deborah Evelyn encontra humor sem transformar a personagem em uma palhaça; encontra vilania sem transformá-la numa grande vilã; e encontra vulnerabilidade sem tentar apagar tudo aquilo que Carmita fez anteriormente.

O arco do golpe de Edson reforça justamente essa capacidade. Pela primeira vez, a mulher que passou boa parte da história tentando manipular os outros experimenta a sensação de ser manipulada. E Deborah consegue fazer essa inversão funcionar tanto como ironia quanto como drama.

Carmita talvez nunca seja uma pessoa admirável. Mas está se tornando uma personagem cada vez mais interessante.

E, em uma novela repleta de estrelas e personagens disputando espaço, conseguir fazer uma coadjuvante chamar atenção sem precisar atropelar a história é sinal de uma atriz que conhece profundamente seu ofício.

Deborah Evelyn voltou às novelas da Globo com uma personagem que parece feita sob medida para sua precisão interpretativa.

E Carmita, que inicialmente poderia parecer apenas mais uma dondoca interesseira do universo de Walcyr Carrasco, vai ganhando algo que somente uma boa interpretação consegue proporcionar: humanidade.

O texto Deborah Evelyn transforma a coadjuvante Carmita em um dos destaques da segunda fase de Quem Ama Cuida foi publicado primeiro no Observatório da TV.