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Ditado “quem não tem cão caça com gato”: muita gente jura que o certo é “como gato”, mas professor mostra que livros do século 19 só trazem a versão mais conhecida
Linguista Marco Neves, da Universidade NOVA de Lisboa, explica por que a troca de “com” por “como” não tem registro antigo e o que isso revela sobre o ditado
Quem nunca ouviu alguém corrigir o outro numa roda de conversa: “não é com gato, é como gato”? O linguista português Marco Neves foi atrás da história de um dos ditados populares mais repetidos da língua portuguesa. Nos livros do século 19, ele só encontrou a versão de sempre: “quem não tem cão caça com gato”.
De onde surgiu a versão “caça como gato” do ditado?
A versão “caça como gato” vem de uma explicação que parece lógica, mas não tem registro antigo que a sustente. Para quem a defende, a frase original diria que, sem um cão, a pessoa precisa caçar sozinha e com astúcia, como faz o gato. Com o tempo, o “como” teria virado “com” na boca do povo.
A tese circula há anos em listas de frases que muita gente fala “errado”. Foi o que aconteceu com Marco Neves: depois de usar a expressão num texto sobre animais escondidos na língua portuguesa, ele recebeu recados de leitores garantindo que o certo seria “caça como o gato”.
O professor tem bagagem para entrar nessa discussão. Segundo sua página de pesquisador no CETAPS, ele é professor da NOVA FCSH, a faculdade de ciências sociais e humanas da Universidade NOVA de Lisboa. Lá, pesquisa tradução e línguas, além de divulgar o idioma em livros, colunas e podcasts.

O que os livros do século 19 mostram sobre o provérbio?
Os livros antigos trazem apenas a forma com “com”. Num texto publicado na sua newsletter, Certas Palavras, o linguista conta que procurou o provérbio em obras do século 19. Encontrou sempre “quem não tem cão caça com gato”.
No século 20, o quadro se repete. Segundo o professor, a variante “caça como o gato” só aparece em textos recentes que tentam “corrigir” o ditado. Ele lembra ainda que o próprio Machado de Assis usa a forma tradicional.
O raciocínio é simples: se a versão com “como” fosse a original, deixaria rastros mais antigos que a outra. Como esses rastros não aparecem, a ideia de que o povo deturpou a frase perde força. Na prática, a tal “versão correta” é que seria a novidade.
Esse não é o único provérbio cercado de polêmica sobre a forma certa. A Tupi já reuniu outros ditados que costumam gerar discussão em casa e no trabalho.
Ditados populares que você provavelmente falou errado a vida inteira➔
Por que a falsa correção dos ditados populares pega tanto?
A falsa correção pega porque dá a quem a repete a sensação de saber algo que os outros ignoram. Marco Neves aponta esse efeito: descobrir que “todo mundo fala errado” parece uma aprendizagem nova. E é fácil de passar adiante, o que ajuda o mito a correr de boca em boca.

A explicação também soa convincente. A imagem do caçador esperto, que age sozinho como um felino, faz sentido à primeira vista. Por isso muita gente aceita a mudança sem pedir prova, mesmo sem nunca ter visto “como gato” num livro antigo.
O professor destaca ainda que a versão tradicional tem mais graça. Com “com gato”, a gente imagina alguém saindo para caçar com um bichano contrariado no lugar do cachorro. A troca por “como” apaga essa cena e deixa a frase sem sal.
Afinal, dá para dizer “caça com gato” sem medo de errar?
Dá, sim: “quem não tem cão caça com gato” é a forma documentada nos livros antigos, e o linguista defende que ela continue assim. O sentido segue o mesmo de sempre: quando falta a ferramenta ideal, a gente se vira com o que tem à mão.
Os ditados populares atravessam gerações porque são repetidos do jeito que o povo aprendeu, e nem toda correção que circula no celular tem base. Da próxima vez que alguém te corrigir no churrasco de domingo, conte essa história e veja a reação da turma.
Quem gosta de frases que atravessam o tempo pode se interessar por outra reflexão publicada aqui na Tupi. Desta vez, o assunto é o amor.