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Em 1809, D. João plantou a primeira palmeira-imperial do Brasil; 163 anos depois, um raio a derrubou e uma filha dela ocupou o lugar
A Palma Mater ficou de pé por 163 anos no arboreto até 1972, e um estudo do próprio Jardim Botânico questiona a data e as mãos reais do plantio
A palmeira-imperial mais famosa do Brasil tem data de nascimento, causa da morte e herdeira. Pela tradição do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a árvore chamada de Palma Mater foi plantada em 1809 por Dom João VI, então príncipe regente. Ela ficou de pé por 163 anos, até ser atingida por um raio em 1972. No mesmo lugar, a instituição plantou uma muda nascida das sementes dela, que segue no arboreto da Zona Sul até hoje.
Quem plantou a primeira palmeira-imperial do Jardim Botânico?
Pela versão que passou de geração em geração, foi o próprio Dom João. A família real portuguesa chegou ao Rio em 1808, e o príncipe regente criou naquele ano a instituição que deu origem ao atual Jardim Botânico, no bairro que hoje leva o mesmo nome.
A espécie é a Roystonea oleracea, de tronco liso e acinzentado e copa alta, que não é nativa do país. Com o tempo, a palmeira virou um símbolo de prestígio no Império. Das sementes da Palma Mater saíram muitas das palmeiras que formam as famosas aleias do próprio jardim, um dos cartões-postais do Rio.
A pesquisa feita no Jardim Botânico não fica só nas palmeiras históricas. A instituição também avalia o risco de extinção de espécies nativas, como uma fruta rara dos antigos quintais cariocas.
Como um raio derrubou a Palma Mater depois de 163 anos?
A Palma Mater foi atingida por um raio em 1972, quando tinha mais de 38 metros de altura. A descarga danificou a árvore, e as tentativas de salvá-la não deram certo. Era o fim de uma palmeira que tinha acompanhado o Rio desde os tempos da Corte.

Por serem altas e muitas vezes isoladas, as palmeiras costumam ser o ponto mais alto da paisagem durante as tempestades. Para não perder a linhagem, o jardim plantou no mesmo lugar uma muda germinada de semente da antiga árvore. A nova palmeira ganhou o nome de Palma Filia, que em latim significa palmeira filha.
Parte do tronco original foi recuperada e tratada, e passou a fazer parte do acervo de memória da instituição. Em 2022, no aniversário de 214 anos do Jardim Botânico, esse pedaço do estipe, como os botânicos chamam o tronco das palmeiras, foi exposto ao público.
Por que a data de 1809 ainda é debatida pelos pesquisadores?
A data é debatida porque a própria documentação levanta dúvidas. Um estudo do pesquisador Marcos Gonzalez, do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, publicado no periódico Rodriguésia, trata a história da Palma Mater como uma tradição inventada.

Segundo o artigo, o relato do plantio pelas mãos do príncipe regente aparece no livro Hortus Fluminensis, de 1894. O autor foi João Barbosa Rodrigues, monarquista convicto que dirigiu o jardim entre 1890 e 1909, já na República. O estudo aponta que os decretos de 1808 citados por ele nem mencionam um jardim botânico.
Outra pista vem do viajante Ebel, que em 1824 descreveu a palmeira como tendo apenas sete anos. Isso indica um plantio por volta de 1817. A tradição ganhou ainda mais força no centenário, em 1908, quando um busto de Dom João VI foi inaugurado perto da árvore.
O que a Palma Filia representa para quem visita o Rio hoje?
A Palma Filia representa a continuidade de um dos símbolos mais conhecidos do Jardim Botânico. Mesmo com a data do plantio em discussão, a palmeira-imperial continua sendo marca registrada das alamedas cariocas e um pedaço vivo da história do Brasil, contada de pai para filho há mais de um século.
A história também mostra como a ciência revisita as lendas sem apagar o valor delas. Na próxima ida à Zona Sul, reserve um tempinho para procurar a herdeira da Palma Mater e imaginar tudo o que aquele chão já viu. Antes de sair de casa, confira horários e ingressos nos canais oficiais do Jardim Botânico.
O Rio guarda muitas outras histórias curiosas, da origem do nome da cidade à floresta replantada no coração dela. Vale a pena conhecer algumas delas.