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Em 1966, Marlon Brando comprou uma ilha no coração da Polinésia: ela se tornou um paraíso para as tartarugas-verdes

Ele compra um atol no Pacífico em 1966 e cria um berçário: 15.614 filhotes de tartaruga-verde chegam ao mar numa única temporada

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Em 1966, Marlon Brando comprou uma ilha no coração da Polinésia: ela se tornou um paraíso para as tartarugas-verdes
Marlon Brando compra direitos sobre atol no Taiti e evita transformar o lugar em turismo de massa (Imagem ilustrativa)
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Ele comprou um paraíso e decidiu não construir nada

Podia ter erguido um resort gigante nos anos 1970. Fez o contrário. O resultado apareceu décadas depois ⬇️

A cerca de 50 quilômetros ao norte do Taiti existe um colar de doze ilhotas de coral em volta de uma lagoa rasa. O lugar se chama Tetiaroa, e teria virado mais um balneário lotado se o comprador dele fosse outra pessoa. O ator Marlon Brando escolheu o caminho oposto, e a decisão dele mudou o destino de milhares de animais que nem existiam quando ele assinou a escritura.

Como um ator vira dono de um atol inteiro?

Por acaso, durante um trabalho. Brando chegou ao arquipélago no início dos anos 1960, enquanto procurava locações para as filmagens de “O Grande Motim”, e ficou impressionado com o isolamento do lugar. Em 1966 negociou os direitos sobre as terras com herdeiros de um dentista americano.

Na autobiografia publicada em 1994, ele descreveu o primeiro encontro com o atol como algo mais bonito do que havia imaginado. Em vez de um empreendimento turístico de massa, construiu uma vila modesta no motu Onetahi para a família e para cientistas visitantes.

Décadas depois, os números daquela decisão apareceram nas planilhas de biólogos. E eles são bem concretos.

Uma temporada de desova em Tetiaroa

🐾
430 rastros registrados
As marcas na areia indicam cada subida de fêmea à praia durante o período de monitoramento.
🥚
113 fêmeas e 161 ninhos
Cada fêmea pode desovar mais de uma vez na mesma temporada, em ilhotas diferentes do atol.
🌊
15.614 filhotes no mar
Estimativa de nascimentos que emergiram dos ninhos e alcançaram a água na temporada 2024/2025.
Fonte: monitoramento da Tetiaroa Society com a organização Te mana o te moana, temporada 2024/2025.

Por que a escuridão da praia importa tanto?

Porque os filhotes se orientam pela luz. Ao sair do ninho, eles seguem o brilho natural do horizonte sobre o mar, e qualquer iluminação artificial forte confunde essa bússola. É por isso que manter a praia escura vale tanto quanto proteger o ninho.

  • Luzes de casas e hotéis afastam as fêmeas do local de desova
  • Filhotes desorientados caminham para a rua em vez do mar
  • Estruturas fixas na areia bloqueiam o acesso das fêmeas
  • Carros e motos na faixa de areia compactam os ninhos enterrados

A conservação em Tetiaroa também inclui a retirada de espécies invasoras. Ratos e gatos ferais consomem ovos, filhotes e aves marinhas, e o controle deles muda o cenário inteiro.

Existe ainda um efeito menos conhecido da temperatura. A areia mais quente favorece o nascimento de fêmeas, e o aquecimento das praias vem desequilibrando essa proporção em vários pontos do planeta.

E as tartarugas-verdes do litoral brasileiro?

O Brasil tem sua própria história de recuperação. A tartaruga-verde, da espécie Chelonia mydas, desova principalmente nas ilhas oceânicas do país, como Fernando de Noronha, Trindade e Atol das Rocas. Guarde estes números do Projeto Tamar:

  1. Cerca de 26 mil ninhos protegidos na temporada 2023/2024
  2. Aproximadamente 1.500 registros de ninhos da espécie nas ilhas oceânicas
  3. Mais de 50 milhões de filhotes protegidos em quatro décadas de trabalho
  4. Atuação em 22 localidades, com monitoramento diário entre setembro e março

Todas as cinco espécies que ocorrem no país estão ameaçadas de extinção. A maturidade sexual demora entre 20 e 30 anos na maioria delas, o que explica por que resultados de conservação só aparecem gerações depois.

O trabalho brasileiro também mudou a relação das comunidades com o animal. Antigos coletores de ovos passaram a atuar como monitores de praia, e a renda do turismo de observação substituiu parte da atividade que ameaçava as espécies.

Vale preservar um lugar em vez de explorá-lo?

A resposta que Tetiaroa oferece é incômoda para pressa. Brando morreu em 2004, dez anos antes da inauguração do hotel de baixo impacto que idealizou, e nunca viu a contagem de filhotes que leva o nome do projeto dele.

Fica o convite: se você for à praia nesta temporada, apague a lanterna do celular perto da areia à noite e avise quem estiver com você. Parece pouco, e para um filhote recém-nascido é tudo.