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Erich Fromm, psicanalista alemão, sobre o consumo: “Se eu sou o que tenho, e se o que tenho se perde, quem então sou eu?” Uma reflexão sobre o risco de confundir identidade com posses
Livro Ter ou Ser?, lançado em 1976, chega aos 50 anos com mais de dez milhões de exemplares vendidos e segue no centro do debate sobre consumismo
Em 1976, o psicanalista alemão Erich Fromm escreveu: “Se eu sou o que tenho, e se o que tenho se perde, quem então sou eu?”. A pergunta ainda incomoda quem vive entre vitrines, parcelas no cartão e notificações de promoção. Ela está no livro Ter ou Ser?, que completa 50 anos em 2026 e segue como uma das críticas mais lidas ao consumismo e ao costume de medir a própria identidade pelo que se possui.
Em que livro Erich Fromm fez a pergunta sobre ter e ser?
A pergunta aparece em Ter ou Ser?, publicado originalmente em inglês em 1976 com o título To Have or To Be?. Segundo a Sociedade Internacional Erich Fromm, a obra já vendeu mais de dez milhões de exemplares no mundo e saiu em 26 idiomas. Para marcar o meio século, a entidade organiza em novembro um dia de estudos sobre o livro em Frankfurt, cidade natal do autor.
No livro, Fromm separa dois modos de existir. No modo ter, a pessoa se define pelo que acumula, como bens, status e poder. No modo ser, o centro está na experiência, no amor, na partilha e na atividade criativa. A frase sobre a perda resume o perigo do primeiro caminho: quem se apoia só em posses fica sem chão quando elas somem.
Quem foi o psicanalista por trás da crítica ao consumo?
Erich Fromm nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 1900, e se formou psicanalista em Berlim. De acordo com o arquivo histórico da The New School, de Nova York, ele entrou para o Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt em 1930. Com a chegada dos nazistas ao poder, mudou-se para os Estados Unidos em 1934.

Lá, trabalhou na Universidade Columbia e deu aulas na New School entre 1941 e 1959. Depois foi professor na Universidade Nacional Autônoma do México e, em 1974, mudou-se para a Suíça, onde morreu em 1980. Sua marca foi aplicar a psicanálise a questões sociais e políticas, chegando a discordar de pontos da teoria de Freud.
O apego a objetos nem sempre é sinal de problema, e a psicologia também estuda o lado afetivo das coisas que guardamos. Esse outro ângulo aparece nesta matéria da Super Rádio Tupi.
Por que confundir identidade com posses deixa a pessoa frágil?
Porque tudo o que se tem pode ser perdido, e quem se define pelas posses perde junto um pedaço de si. Para Fromm, a pessoa presa ao modo ter vive com medo de perder o que acumulou. A segurança que o objeto promete vira, na prática, uma fonte constante de ansiedade.
A lógica vale para o carro novo, o celular do ano, a roupa de grife e também para o cargo no trabalho. No Rio, onde a vitrine do shopping e a promoção no celular disputam o salário apertado, a pergunta vira rotina: quem eu seria sem isso? Em Fromm, a resposta saudável está no que a pessoa faz, sente e constrói com os outros.

O consumismo entra exatamente aí. Na leitura do autor, o problema não é comprar, mas transformar a compra em prova de valor pessoal. Quando a satisfação dura só até a próxima novidade, o ciclo recomeça, e a identidade passa a depender da fatura seguinte. É a psicanálise olhando para o carrinho de compras.
O que a pergunta de Fromm pode mudar no seu dia a dia?
Ela pode servir de filtro antes da compra por impulso. Perguntar se aquilo atende a uma necessidade real ou só à vontade de parecer alguém é um exercício simples. E não exige abrir mão de conforto nem de pequenos prazeres.
A reflexão também alcança perdas maiores, como o fim de um emprego, uma mudança de bairro ou um bem levado por uma enchente. Nessas horas, o que sustenta a pessoa são vínculos, talentos e histórias, coisas que ninguém leva embora. Se a frase de Erich Fromm mexeu com você, que tal escolher hoje algo que você é, e não algo que você tem, e cuidar disso com carinho?
Outros pensadores também deixaram frases que ajudam a pensar a vida com mais calma. Esta, de Platão, fala sobre silêncio e propósito.