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Especialistas em psicologia afirmam: “Quem não consegue relaxar mesmo quando tudo está bem pode não estar exagerando, mas vivendo com o sistema nervoso acostumado a permanecer em alerta constante”
A calma também pode causar desconforto e pesquisas ajudam a explicar por que algumas pessoas continuam preocupadas no descanso
Não conseguir relaxar depois que os problemas do dia foram resolvidos pode causar estranhamento. A agenda está livre, mas continuam a tensão muscular, a inquietação e a expectativa de alguma cobrança. A ansiedade pode aparecer mesmo sem uma ameaça presente, embora essa experiência, isoladamente, não permita identificar sua causa ou estabelecer um diagnóstico.
Por que o corpo pode continuar em alerta durante o descanso?
Encerrar uma tarefa não significa que a preocupação desapareça no mesmo instante. Depois de uma semana de cobranças, alguém pode continuar antecipando mensagens, revisando decisões ou procurando algo que esqueceu de fazer. Demandas de trabalho mais intensas estão associadas, em média, a menor capacidade de se desligar mentalmente durante o tempo livre, como mostra meta-análise no Journal of Organizational Behavior. A situação externa ficou mais tranquila, mas a atenção ainda está voltada para possíveis problemas.
A expressão “sistema nervoso acostumado ao alerta” pode ajudar a descrever essa experiência, porém simplifica processos diferentes. Estresse, ansiedade e experiências anteriores podem participar dessa dificuldade. Sentir tensão sem um perigo imediato não significa estar inventando o desconforto, mas também não comprova que a pessoa tenha vivido um trauma ou desenvolvido um transtorno.

Como a dificuldade de relaxar aparece na rotina?
Nem sempre essa experiência surge como uma preocupação claramente identificada. Às vezes, a pessoa percebe apenas que não consegue permanecer numa atividade tranquila sem procurar uma pendência. O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos inclui inquietação, tensão e dificuldade de relaxar entre manifestações possíveis da ansiedade. Na rotina, isso pode aparecer de diferentes maneiras:
- Sentar para assistir a um filme e continuar pensando nas tarefas do dia seguinte;
- Verificar mensagens de trabalho repetidamente, mesmo sem esperar uma resposta urgente;
- Perceber os ombros contraídos ou o corpo tenso durante um período de descanso;
- Sentir necessidade de encontrar outra obrigação assim que termina a anterior;
- Deitar cansado e continuar antecipando situações que ainda não aconteceram.
A calma pode provocar desconforto em algumas pessoas?
Uma pesquisa publicada em 2019 investigou a ansiedade que pode surgir durante exercícios de relaxamento. O estudo examinou o chamado modelo de evitação de contraste: algumas pessoas podem preferir continuar preocupadas porque temem a mudança brusca entre estar tranquilas e receber uma notícia desagradável. A preocupação funcionaria como uma tentativa de não ser surpreendido emocionalmente.
Essa explicação não vale para todos que encontram dificuldade de relaxar. Também não significa que permanecer preocupado impeça problemas ou prepare melhor alguém para enfrentá-los. A expectativa de que algo dará errado pode tornar a própria tranquilidade desconfortável, mantendo uma tensão que a pessoa gostaria de interromper. Trata-se de um mecanismo estudado, não de uma conclusão sobre qualquer indivíduo.

O que pode ajudar a tornar as pausas menos difíceis?
Exigir que a mente fique completamente vazia pode transformar o descanso em outra tarefa a cumprir. Uma alternativa é experimentar pausas possíveis e observar a própria resposta, sem prometer eliminar toda preocupação. O cuidado também envolve a organização das demandas que continuam chegando. Algumas medidas podem servir como ponto de partida:
- Escolher uma atividade tranquila e familiar, como ouvir música ou fazer uma caminhada leve;
- Combinar horários de disponibilidade quando mensagens de trabalho invadem os períodos de descanso;
- Anotar uma pendência para retomá-la depois, em vez de tentar mantê-la presente o tempo inteiro;
- Observar se noites mal dormidas ou excesso de cafeína acompanham os dias de maior inquietação;
- Se um exercício de relaxamento aumentar muito o desconforto, interrompê-lo e buscar orientação para adaptá-lo.
Reconhecer a tensão permite buscar um cuidado adequado
Não conseguir relaxar ocasionalmente é diferente de passar semanas com sofrimento e prejuízo no sono, no trabalho ou nas relações. Quando esse padrão persiste, conversar com um psicólogo ou médico ajuda a investigar o contexto e outras possíveis causas. Não é necessário descobrir sozinho um nome para o problema antes de procurar atendimento.
O descanso não precisa ser conquistado pela ausência absoluta de preocupações. O objetivo pode começar por conseguir permanecer numa pausa sem responder a cada pensamento como se fosse uma emergência. Com avaliação e apoio quando necessários, é possível trabalhar a relação com a incerteza e ampliar o espaço do sono, do lazer e da convivência na rotina.