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Especialistas em psicologia explicam: “Quem ainda faz a lista do mercado à mão pode não estar apenas preso ao hábito, mas ativando no cérebro conexões que digitar não ativa”
Estudo da NTNU publicado na Frontiers in Psychology mediu o cérebro de 36 estudantes e viu mais conexões ao escrever com caneta do que ao digitar
Tem gente que ainda pega papel e caneta para anotar o arroz, o feijão e o café antes de ir ao mercado. Essa pessoa pode estar fazendo mais do que repetir um costume antigo. Uma pesquisa publicada no periódico Frontiers in Psychology, na seção de psicologia educacional, mostrou que a escrita à mão produz um padrão de conexões no cérebro bem mais amplo do que a digitação. O estudo foi feito por Audrey van der Meer e Ruud van der Weel, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU).
O que o estudo norueguês viu no cérebro de quem escreve à mão?
Os pesquisadores viram que escrever à mão liga muito mais regiões do cérebro ao mesmo tempo do que digitar. Eles acompanharam 36 estudantes universitários, todos destros e com pouco mais de 20 anos. Cada um usou uma touca com 256 eletrodos para registrar a atividade elétrica do cérebro, no exame chamado eletroencefalograma.
Cada voluntário escreveu 15 palavras de dois jeitos: com uma caneta digital sobre uma tela sensível ao toque e digitando com o dedo indicador direito. Na escrita manual, aumentou a comunicação entre áreas parietais e centrais, que os autores ligam ao movimento e à memória. A mudança apareceu nas ondas cerebrais teta e alfa. No teclado, esse efeito não se repetiu.

Por que a caneta ativa mais conexões cerebrais que o teclado?
A diferença está no movimento fino e controlado que a mão faz para desenhar cada letra. Segundo os autores, a soma da informação visual com a informação motora desse gesto ajuda a formar conexões ligadas ao aprendizado e à memória.
No teclado, o gesto é quase o mesmo para qualquer letra: basta apertar uma tecla. Em comunicado divulgado pela editora Frontiers, Audrey van der Meer resumiu que, na escrita à mão, os padrões de conectividade do cérebro ficam muito mais elaborados do que na digitação. Para a psicologia do aprendizado, esse detalhe ajuda a entender por que o papel ainda tem espaço.
O cérebro também tem seus atalhos quando o assunto é repetir comportamentos do dia a dia. A matéria abaixo mostra como a psicologia explica a força dos hábitos.
A psicologia explica por que o cérebro economiza esforço e repete padrões conhecidos➔
A lista do mercado escrita à mão ajuda a lembrar das compras?
A pesquisa não testou listas de compras, então não dá para garantir que o papel faz alguém lembrar de tudo no supermercado. O que ela mostra é que o ato de escrever à mão aciona redes cerebrais que a digitação não aciona da mesma forma.

O trabalho também tem limites. O experimento mediu a atividade do cérebro durante a escrita, mas não verificou se os voluntários lembravam melhor das palavras depois. O grupo era pequeno e formado só por jovens destros. Mesmo assim, Audrey van der Meer afirma que há indícios de que estudantes aprendem mais e lembram melhor quando anotam as aulas à mão.
Vale manter papel e caneta na rotina em tempos de celular?
Para os autores, a saída não é abandonar a tecnologia, e sim escolher a ferramenta certa para cada tarefa. No artigo da Frontiers in Psychology, eles defendem que as crianças tenham contato com a escrita manual desde cedo na escola. O teclado entra quando faz mais sentido, como em redações e textos longos.
No dia a dia vale a mesma lógica: o celular resolve muita coisa, mas o bloquinho preso na geladeira também põe a cabeça para trabalhar. Que tal fazer a próxima lista do mercado à mão e reparar se, no corredor do supermercado, você lembra de mais itens sem nem olhar o papel?
O que ainda fica de dúvida sobre a escrita à mão e o cérebro?
Duas perguntas costumam aparecer quando o assunto é esse estudo, e as respostas estão no próprio artigo científico.
Escrever com caneta digital no tablet também conta?
Sim. No experimento, a escrita à mão foi feita justamente com uma caneta digital sobre uma tela sensível ao toque.
O estudo foi feito com crianças?
Não. Os voluntários eram estudantes universitários. A recomendação para as escolas é uma conclusão dos autores a partir dos resultados.
Não é só a caneta que vem chamando a atenção dos pesquisadores. Um estudo sobre o crochê reuniu o que milhares de praticantes contaram sobre o próprio humor.
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