Especialistas em psicologia explicam: quem trabalhou anos na escala 6x1 pode não saber o que fazer com a segunda folga, e isso não é preguiça, mas um corpo que esqueceu como descansar - Super Rádio Tupi
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Especialistas em psicologia explicam: quem trabalhou anos na escala 6×1 pode não saber o que fazer com a segunda folga, e isso não é preguiça, mas um corpo que esqueceu como descansar

Com duas folgas semanais aprovadas pelo Congresso, pesquisas sobre recuperação do estresse ajudam a entender por que o tempo livre pode incomodar

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Quem passou anos na escala 6x1 pode estranhar o tempo livre, e isso não é preguiça, mas um padrão aprendido pelo corpo
Quem passou anos na escala 6x1 pode estranhar o tempo livre, e isso não é preguiça, mas um padrão aprendido pelo corpo - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Com o fim da escala 6×1 aprovado pelo Congresso em outubro, milhões de trabalhadores vão ganhar um segundo dia de folga na semana. Para quem passou anos trabalhando seis dias seguidos, esse tempo livre pode chegar com uma sensação estranha. Aparecem inquietação, culpa ou a impressão de que o dia não rende. A psicologia do trabalho mostra que isso tem pouco a ver com preguiça e muito a ver com o jeito como corpo e mente se acostumam ao ritmo do serviço.

Por que a segunda folga da escala 6×1 pode causar estranhamento?

Porque o organismo se adapta à rotina que conhece, e anos de 6×1 ensinam a usar o único dia livre para resolver pendências. Mercado, faxina, banco e roupa lavada costumam ocupar a folga inteira. Quando surge um segundo dia, falta o hábito de simplesmente parar.

A mudança é concreta. Segundo a Rádio Senado, a PEC 221/2019 garante duas folgas semanais, uma delas preferencialmente no domingo. A jornada cai de 44 para 42 horas dois meses após a promulgação e chega a 40 horas um ano depois, sem redução de salário.

No Rio e na Baixada Fluminense, muita gente gasta horas no trem ou no ônibus até o serviço, e um dia a mais muda a rotina da família inteira. A TV Senado publicou um vídeo sobre a aprovação da PEC que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada para 40 horas.

O que a psicologia do trabalho chama de desligamento mental?

É a capacidade de parar de pensar no serviço quando o expediente acaba. Na psicologia do trabalho, isso se chama desligamento psicológico, e ele é visto como peça central da recuperação do estresse.

Anos de 6x1 ensinam a gastar o único dia livre com mercado, faxina e pendências, e falta o hábito de simplesmente parar
Anos de 6×1 ensinam a gastar o único dia livre com mercado, faxina e pendências, e falta o hábito de simplesmente parar – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Uma revisão das pesquisadoras Sabine Sonnentag e Charlotte Fritz, publicada no periódico Journal of Organizational Behavior, reuniu estudos sobre o tema. O trabalho aponta que a sobrecarga de tarefas está associada a menos desligamento fora do expediente. Desligar pouco, por sua vez, aparece ligado a mais desgaste, mais burnout e menor satisfação com a vida.

Na prática, quem passou anos sem tempo de recuperação pode continuar com a cabeça no trabalho mesmo em casa. O descanso vira mais uma tarefa, e o tempo livre parece desperdiçado. Não é falta de vontade: é um padrão aprendido, que leva tempo para mudar.

Guardar tensões por muito tempo também pesa em outras situações do dia a dia. Uma matéria recente do site fala desse cansaço emocional acumulado.

Quando o cansaço que não passa pode ser síndrome de burnout?

Quando o esgotamento ligado ao trabalho continua mesmo com folgas, pode ser sinal de algo maior. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a síndrome de burnout como fenômeno ocupacional, resultado do estresse crônico no trabalho que não foi bem administrado.

Reaprender a descansar é um processo gradual: reservar tempo para não fazer nada e evitar mensagens do serviço ajuda a mente a se desligar
Reaprender a descansar é um processo gradual: reservar tempo para não fazer nada e evitar mensagens do serviço ajuda a mente a se desligar – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

A definição da OMS reúne três dimensões: sensação de exaustão, distanciamento mental ou cinismo em relação ao serviço e queda na eficácia profissional. A entidade não trata o burnout como doença, mas como um fator que leva a pessoa a buscar atendimento de saúde.

O Ministério da Saúde lista sinais como dor de cabeça frequente, insônia, alterações no apetite, dores musculares e isolamento. A pasta indica psicólogo ou psiquiatra para o diagnóstico. A rede do SUS oferece atendimento gratuito, inclusive nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Como reaprender a usar o descanso depois de anos na escala 6×1?

O caminho é reaprender aos poucos, sem transformar a folga em obrigação de ser produtivo. Separar o dia extra das tarefas de casa e evitar mensagens do serviço ajuda a mente a se desligar. Reservar um tempo para não fazer nada também conta.

Exercícios regulares, relaxamento e lazer com pessoas próximas estão entre as orientações do Ministério da Saúde para quem enfrenta esgotamento. Se o incômodo continuar mesmo com mais tempo livre, procure um profissional de saúde mental. E você, já pensou no que vai fazer com a sua segunda folga? Se dê esse tempo e vá descobrindo com calma.

Para quem quer usar o tempo livre para passear, o Brasil tem destinos cheios de história. Uma das matérias do site apresenta um teatro mineiro que funciona há mais de dois séculos.