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Fingir que não viu um conhecido na rua nem sempre é falta de educação, segundo a psicologia
Estudos indicam que conviver gasta energia até de quem gosta de gente e que evitar encontros o tempo todo pode ser sinal de ansiedade social
Você vem pela calçada, avista aquele vizinho antigo ou o ex-colega de trabalho e, num reflexo, puxa o celular ou atravessa a rua. Muita gente se sente mal-educada depois disso. A psicologia, porém, mostra que o gesto nem sempre nasce de desprezo. Às vezes, é o jeito que a pessoa encontra de poupar energia num dia pesado ou de fugir de um desconforto difícil de explicar.
Por que alguém finge não ver um conhecido na rua?
Na maioria das vezes, a pessoa finge não ver porque está sem disposição para conversar naquele momento, e não porque despreza o conhecido. Um papo rápido na esquina exige sorriso, atenção e assunto. Para quem sai de um plantão, de um ônibus lotado ou de um dia cheio de problemas, isso pesa.
Esse comportamento também pode vir do constrangimento: esquecer o nome do outro, não lembrar de onde se conhecem ou temer um silêncio esquisito. Desviar o olhar vira uma saída prática. Não é a atitude mais simpática, mas está longe de ser automaticamente sinal de arrogância ou de falta de educação.
O que a ciência diz sobre o cansaço social do dia a dia?
A ciência indica que conviver cansa, mesmo quando faz bem. Um estudo da Universidade de Helsinque, publicado em 2020 no periódico Heliyon, investigou essa relação com o título traduzido de Comportamento sociável está relacionado a cansaço posterior. Foram 74 estudantes acompanhados por quatro dias, com questionários no celular quatro vezes ao dia.

O resultado chamou atenção. Agir de forma sociável trazia bom humor na hora, mas estava ligado a mais fadiga duas a três horas depois. A autora, Sointu Leikas, concluiu que esse cansaço social passageiro vale para todo mundo, e não só para tímidos ou introvertidos.
Na prática, quem teve uma manhã de reuniões, atendimento ao público ou visita de parentes pode chegar à tarde sem fôlego para mais conversa. Fingir que não viu o conhecido, nesse caso, funciona como um freio de emergência. O estudo, porém, é pequeno e não analisou encontros de rua, então serve como pista, não como regra.
Pequenos gestos no espaço público dizem muito sobre como a gente lida com os outros. A Tupi já mostrou outro exemplo curioso desse tipo de atitude cotidiana.
Quando o hábito de desviar pode indicar algo de saúde mental?
O alerta acende quando desviar deixa de ser exceção e vira regra, junto com medo, coração acelerado ou vergonha intensa. Nesses casos, pode haver ansiedade social, um tema de saúde mental que merece olhar profissional.
Uma pesquisa liderada pelo psicólogo Todd Kashdan e publicada em 2014 no periódico Emotion acompanhou 37 adultos com transtorno de ansiedade social e 38 sem o diagnóstico. Quanto mais eles tentavam evitar pensamentos e sensações incômodas nas conversas, maior era a ansiedade sentida. O efeito foi mais forte no grupo com o transtorno.

Os autores lembram que fugir do desconforto costuma dar alívio imediato. Usado de forma rígida, porém, esse comportamento tende a aumentar o próprio sofrimento. Ou seja, quem se esconde de todo mundo para não sentir ansiedade pode acabar alimentando o problema.
Para quem se reconhece nesse retrato, o SUS oferece a Rede de Atenção Psicossocial, presente no Rio e em todo o país. Segundo a página de saúde mental do Ministério da Saúde, o atendimento nos CAPS pode começar pela procura da própria pessoa.
Como lidar com o encontro sem culpa e sem perder a educação?
O caminho é o meio-termo: dá para respeitar o próprio limite sem ignorar o outro por completo. Um aceno, um bom-dia e um “estou correndo, depois a gente se fala” resolvem a maioria dos encontros em segundos. A educação fica preservada, e a sua energia também.
Vale lembrar que o conhecido pode estar no mesmo aperto, com o cansaço social lá em cima. Se alguém fingiu não ver você, talvez não seja desfeita, e sim um dia daqueles. A psicologia convida a trocar o julgamento rápido por um pouco de empatia, cuidando da saúde mental de todo mundo. Da próxima vez que bater a vontade de atravessar a rua, que tal testar o aceno rápido e ver como você se sente?
Se o assunto é bem-estar no dia a dia, o carioca tem um aliado bem perto de casa. Outra matéria da Tupi mostra como a psicologia enxerga o efeito do mar sobre o estresse.