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Franz Kafka, escritor tcheco, sobre a leitura: “Um livro deve ser o machado que quebra o mar congelado dentro de nós.” Uma reflexão sobre as obras que mudam a forma como enxergamos a vida
Frase nasceu numa carta de 1904 ao amigo Oskar Pollak e defende livros que tiram o leitor do conforto, ideia que segue viva mais de um século depois
Em janeiro de 1904, um rapaz de 20 anos escreveu a um amigo que um livro precisa ser o machado para o mar congelado dentro de nós. O autor da carta era Franz Kafka, nascido em Praga, cidade que mais tarde viraria capital da Tchecoslováquia. A imagem atravessou mais de um século e virou referência da literatura sempre que o assunto é uma leitura capaz de transformar quem lê.
Em que carta Franz Kafka escreveu a frase do machado?
A frase está numa carta de Kafka ao amigo Oskar Pollak, colega dos tempos de escola, datada de 27 de janeiro de 1904, em Praga. O texto completo, em alemão, pode ser lido na transcrição da carta a Oskar Pollak hospedada na Universidade de Viena, que organiza a correspondência do escritor por ano.
No original, o jovem escreve que “ein Buch muß die Axt sein für das gefrorene Meer in uns”. Em português, a linha aparece em versões um pouco diferentes. A imagem, porém, é sempre a mesma: o livro como uma ferramenta capaz de abrir o gelo.
Essa carta só chegou ao grande público depois da morte do autor. Foi o amigo Max Brod quem reuniu e publicou a correspondência no volume Briefe 1902-1924, lançado pela editora alemã S. Fischer.
O que Kafka queria dizer com o mar congelado dentro de nós?
Kafka falava de livros que tiram o leitor do conforto, e não de livros que apenas distraem. Na mesma carta, ele conta que tinha acabado de ler os diários do dramaturgo alemão Friedrich Hebbel. Foram cerca de 1.800 páginas de uma vez só, e ele saiu abalado.

Antes de chegar ao machado, o escritor diz que só deveríamos ler livros que mordem e ferroam. Se a obra não nos acorda com um soco na cabeça, pergunta ele, para que lê-la? Para o autor, precisamos de livros que nos atinjam como uma desgraça, como a perda de alguém que amamos.
O mar congelado, nessa visão, é aquilo que endurece por dentro: o hábito, a indiferença, o medo de sentir. A boa literatura não promete felicidade. Ela racha a superfície e obriga o leitor a encarar o que estava parado.
Quem gosta de pensar no peso das escolhas de leitura encontra outra provocação famosa no mesmo espírito. Ela vem de um romance do japonês Haruki Murakami.
Por que a ideia de leitura de Kafka ainda incomoda tanto?
A ideia incomoda porque vai na contramão da leitura como passatempo leve. Kafka defende que o livro bom é o que mexe com a gente, mesmo quando dói. Essa exigência continua atual em tempos de rolagem infinita na tela do celular.
O próprio escritor viveu essa tensão com a escrita. Morreu em 1924, perto de Viena, e pediu a Max Brod que queimasse seus manuscritos. Brod não obedeceu, e hoje a maior parte dos papéis do autor está nas Bodleian Libraries, da Universidade de Oxford, com cadernos, diários, cartas e desenhos.

Kafka nasceu em 1883 em Praga, então parte do Império Austro-Húngaro, e escrevia em alemão. Depois de 1918, a cidade passou a ser a capital da Tchecoslováquia. Assim, o escritor viu sua terra mudar de país sem sair do lugar.
Esse acervo ganhou uma grande exposição em 2024, no centenário da morte do autor, batizada de Kafka: Making of an Icon. O vídeo abaixo, divulgado pelo projeto de pesquisa sobre Kafka ligado a Oxford, apresenta a mostra montada na cidade inglesa.
Segundo o Centro de Pesquisa sobre Kafka da Universidade de Oxford, a exposição recebeu 104.854 visitantes entre maio e outubro de 2024. É gente do mundo inteiro querendo ver de perto as cartas e os cadernos do autor.
Qual livro já quebrou o gelo dentro de você?
Todo leitor guarda um livro que funcionou como esse machado de Franz Kafka. Pode ser um romance lido na escola, uma biografia, um poema que chegou na hora certa. A obra que transforma raramente é a mais confortável, mas costuma ser a que fica na memória.
A proposta do escritor cabe na rotina de qualquer pessoa, do Centro do Rio à Baixada: trocar, de vez em quando, o livro fácil por aquele que dá receio de abrir. Que tal escolher hoje a próxima obra que vai rachar um pouco do seu gelo? Depois conta pra gente qual foi.
Se o assunto é formar leitores que pensam por conta própria, a escola também entra nessa conversa. O educador Rubem Alves tem uma imagem marcante sobre isso.