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Fundada há quase 300 anos, em 1733, esta cidade recebeu Dom Pedro II e hoje atrai quem quer fugir do ritmo acelerado de Curitiba
O refúgio paranaense visitado por Dom Pedro II.
Casarões coloniais preservados, um rio de nome indígena atravessando o centro histórico e o cheiro do barreado nas panelas de ferro. Morretes, uma cidade no litoral do Paraná, é uma das mais antigas do estado e se transformou em destino de moradia para quem busca proximidade de Curitiba sem abrir mão da calma do interior.
Três séculos de história aos pés da serra
A origem do município tem data e nome. Segundo a Prefeitura Municipal de Morretes, o ouvidor Rafael Pires Pardinho determinou em 1721 que a Câmara Municipal de Paranaguá medisse e demarcasse 300 braças em quadra para localizar a sede da futura povoação. A medição foi realizada em 31 de outubro de 1733, no ponto onde residia o rendeiro do porto João de Almeida, primeiro morador da região.
O nome do município veio da própria paisagem. A cidade está cercada por morros de pequena elevação chamados de “morretes”, em referência aos elevados suaves que formam o cenário natural. O povoamento foi lento no início e ganhou impulso em meados do século XVIII, quando o casal Antônio Rodrigues de Carvalho e Maria Gomes Setúbal recebeu autorização do Papa para erguer uma capela, concluída em 1769.
Antes da colonização portuguesa, o território era ocupado pelos indígenas carijós até o século XVI. A ocupação europeia começou a partir de 1646, com a descoberta de jazidas de ouro que atraíram mineradores vindos de São Paulo. A elevação a município veio em 1841, com o desmembramento de Antonina.

A cidade que Dom Pedro II conheceu
A importância histórica atravessou o Império. Segundo o Governo do Estado do Paraná, a Rua das Flores, no calçadão, foi o local onde Dom Pedro II se hospedou durante visita à região. Ali também funcionou o primeiro telégrafo da cidade, e o endereço virou marco de encontro dos turistas que chegam pelo trem.
Morretes também teve o primeiro Theatro do Estado. O prédio, construído no início do século XIX, foi destruído por incêndio em 1930, no mesmo local onde funcionava o primeiro cinema. O espaço foi reconstruído e restaurado no início dos anos 2000, hoje abrigando o Theatro Municipal.
A estação ferroviária de 1885 é outro marco preservado. É por ali que chegam os passageiros do trem da Serra Verde Express, que parte diariamente de Curitiba e percorre uma das ferrovias mais cênicas do país, com pontes, túneis e viadutos encravados na rocha.
Uma cozinha tombada como patrimônio
A gastronomia carrega três séculos de mistura cultural. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o barreado e a cachaça morretiana foram tombados como patrimônios imateriais do Paraná pela importância que carregam para a cidade e para o estado.
O barreado é uma iguaria de origem açoriana com três séculos de tradição. É produzido com carnes bovinas de segunda como patinho, paleta e maminha, cozidas por cerca de vinte horas em panela de ferro vedada com folha de bananeira e goma de farinha de mandioca. A mistura leva toucinho, cebola, alho, cominho, louro e pimenta-do-reino, servida sobre farinha com arroz e banana-da-terra fatiada.
A cachaça artesanal tem tradição igualmente antiga. Já em 1733, ano da fundação, havia produção de aguardente no povoado, e a atividade ganhou escala industrial em 1877, com a instalação de um engenho central na Colônia Nova Itália. Na década de 1950, o município chegou a ter cerca de 60 alambiques em funcionamento simultâneo.
Por que Morretes virou opção de moradia
O ritmo lento é o principal atrativo. Com pouco mais de 16 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade combina vida social próxima entre os moradores, comércio concentrado em poucas ruas e calçadão às margens do Rio Nhundiaquara. O nome do rio vem do tupi, “nhundia” (peixe) e “quara” (empoçado), e reforça a herança indígena da região.
A proximidade com a capital pesa. Morretes fica a cerca de 69 km de Curitiba e é acessível pela Estrada da Graciosa ou pela BR-277, com trajeto de aproximadamente uma hora e meia de carro. O acesso ferroviário pela Serra Verde Express traz uma alternativa cênica que atrai visitantes durante a semana e movimenta a economia local sem descaracterizar o cotidiano.
O custo de moradia acompanha a proposta. As opções vão de casas antigas no centro histórico a propriedades cercadas por áreas verdes nos arredores. A economia local se sustenta pela agricultura, com produção de gengibre, hortifrutigranjeiros e agroindústria familiar, complementada pelo turismo gastronômico que ganhou força a partir de 1989.

O que fazer no centro histórico e na serra
O passeio se organiza a pé no centro colonial e por trilhas ou estradas cênicas no entorno. A maior parte das atrações principais fica em raio curto e pode ser combinada em roteiros de fim de semana.
- Rua das Flores: calçadão histórico onde Dom Pedro II se hospedou, com casarões coloniais transformados em ateliês e restaurantes.
- Igreja Matriz Nossa Senhora do Porto: construção colonial iniciada em 1769, marco fundador do centro histórico.
- Igreja de São Benedito: erguida pela Confraria de São Benedito, fundada em 1760, uma das mais antigas do litoral paranaense.
- Estação Ferroviária: prédio de 1885, ponto de chegada do trem da Serra Verde Express, que faz o percurso desde Curitiba.
- Estrada da Graciosa: rodovia cênica de calçamento original, com curvas fechadas, mirantes e cachoeiras em plena Mata Atlântica.
- Pico do Marumbi: parque estadual com trilhas em meio à floresta preservada, uma das mais desafiadoras do sul do país.
- Theatro Municipal: sucessor do primeiro Theatro do Estado, restaurado no início dos anos 2000.
A mesa morretense
A gastronomia acompanha a herança indígena carijó, açoriana e italiana. Os pratos do cotidiano preservam séculos de tradição familiar.
- Barreado: prato símbolo, cozido por vinte horas em panela vedada, servido com arroz, farinha e banana-da-terra.
- Cachaça Morretiana: tombada como patrimônio imaterial do Paraná, produzida em alambiques familiares desde o século XVIII.
- Bala de banana: doce típico feito com banana da serra, vendido em quase toda esquina do centro histórico.
- Frutos do mar: ostras, camarões e peixes vindos diariamente de Paranaguá, servidos nos restaurantes tradicionais.
Como é o clima de Morretes durante o ano?
A cidade tem clima tropical úmido, com chuvas abundantes o ano inteiro e temperaturas amenas graças à altitude e à proximidade da Serra do Mar. A Mata Atlântica preservada mantém o ar úmido mesmo nos meses mais secos.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Cidade dos Morros
Morretes fica a 69 km de Curitiba, com acesso pela BR-277 ou pela Estrada da Graciosa (PR-410). O trajeto rodoviário leva cerca de uma hora e meia de carro. O trem da Serra Verde Express parte da capital paranaense e cruza a Serra do Mar em uma viagem cênica de três a quatro horas. O Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, é o mais próximo com voos comerciais nacionais e internacionais.
A cidade que preserva três séculos
Poucos municípios brasileiros oferecem centro histórico tombado, gastronomia protegida como patrimônio imaterial, uma das maiores extensões preservadas de Mata Atlântica do país e proximidade de uma capital estadual em raio tão curto. Morretes soube conciliar turismo, tradição e ritmo lento sem perder identidade.
Você precisa conhecer Morretes e almoçar um barreado à beira do Rio Nhundiaquara para entender por que a cidade virou refúgio de quem procura silêncio a uma hora e meia de Curitiba.