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Gabriela Mistral, poeta chilena e Nobel de Literatura, sobre a infância: “Muitas das coisas de que precisamos podem esperar. A criança não pode.” Uma reflexão sobre o que não dá para adiar
Apelo da escritora em defesa de crianças desamparadas está guardado na Biblioteca Nacional do Chile e ainda inspira campanhas do UNICEF
A frase aparece em escolas, campanhas e redes sociais: “Muitas das coisas de que precisamos podem esperar. A criança não pode.” Ela vem de um apelo escrito pela chilena Gabriela Mistral, a primeira escritora da América Latina a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Antes da fama, ela foi professora e fez da defesa da infância uma causa de vida. O recado continua atual para pais, avós e educadores do Rio e de qualquer lugar.
De onde vem a frase de Gabriela Mistral sobre a criança?
A frase vem de “Llamado por el niño”, um texto em prosa em que Gabriela Mistral pede ajuda para crianças desamparadas. O manuscrito datilografado, com correções a lápis e a tinta feitas pela própria autora, está guardado no acervo da Biblioteca Nacional Digital do Chile. A instituição descreve o texto como um discurso para uma coleta em favor das crianças desvalidas. Ele chegou ao arquivo em 2007, como parte do legado da escritora.
No trecho mais conhecido, a autora compara as urgências dos adultos com as da criança, que está crescendo naquele exato momento. O apelo termina com a ideia que virou lema: a uma criança não se pode responder “amanhã”, porque o nome dela é “hoje”.
O UNICEF no Chile usou esse fecho em julho de 2021, nos 75 anos da organização, numa campanha pelo direito à educação. A peça termina com a frase “A él no podemos responder mañana, su nombre es hoy”.

Como a professora do Vale do Elqui chegou ao Nobel de 1945?
Gabriela Mistral chegou ao Nobel depois de uma vida dividida entre a sala de aula, a diplomacia e a poesia. O nome é um pseudônimo: ela se chamava Lucila de María Godoy Alcayaga e nasceu em 7 de abril de 1889, em Vicuña, no Vale do Elqui. A biografia publicada pelo Memoria Chilena, portal da Biblioteca Nacional do Chile, conta que ela começou ainda adolescente, como auxiliar numa escola de La Serena.
Como professora, ela passou por cidades como Punta Arenas e Temuco. Em 1921, assumiu a direção de um liceu de meninas em Santiago. Na poesia, publicou “Desolación” em 1922 e “Ternura” em 1924, um livro de canções e rimas para crianças. Na carreira consular, que começou em 1932, chegou a viver em Petrópolis, na Região Serrana do Rio.
O registro sobre o Prêmio Nobel de Literatura de 1945, no mesmo portal, lembra que a Academia Sueca premiou o lirismo dela como símbolo do idealismo latino-americano. A cerimônia de entrega foi em 10 de dezembro daquele ano, e o Nobel foi o primeiro da América Latina na literatura.
O cuidado com quem cresce perto da gente também é tema de outra reflexão publicada na Tupi, desta vez sobre pais e filhos.
Por que a infância não pode esperar, na visão da poeta chilena?
Para Mistral, a infância não pode esperar porque é nela que se formam a saúde, o aprendizado e os laços afetivos. Quando a ajuda é adiada, perde-se uma fase que não volta, e essa ideia atravessa a obra da educadora e da poeta.

A mesma lógica ainda guia campanhas internacionais. Em novembro de 2025, o UNICEF Chile escolheu o lema “La infancia es hoy” para o Dia Mundial da Infância. O lema se inspira em outra frase da escritora: “O futuro das crianças é sempre hoje. Amanhã será tarde.”
Os números do comunicado ajudam a entender a urgência. No Chile, a pobreza por renda atinge 10,5% das crianças e adolescentes, contra 5,3% dos adultos. No mundo, mais de 400 milhões de crianças vivem na pobreza e não têm atendidas pelo menos duas necessidades básicas, como alimentação e saneamento.
O que a frase da poeta pede de quem convive com crianças hoje?
A frase pede que o cuidado com a criança saia da lista de pendências. Consulta médica, matrícula, leitura antes de dormir e tempo de conversa não combinam com o “depois”, porque cada etapa do crescimento acontece uma vez só.
Da poesia de “Ternura” ao apelo pelas crianças desvalidas, a obra de Gabriela Mistral continua lembrando o que vem primeiro. Que tal começar hoje mesmo, separando um tempo sem pressa para ouvir a criança da sua casa? Ela não pode esperar, e você vai ver a diferença que isso faz.
Se a conversa sobre escritores despertou a vontade de ler, tem outra reflexão literária esperando por você aqui no site.