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Guerreiros do Sol encerra trajetória na Globo como uma das novelas mais ambiciosas e autorais dos últimos anos

Folhetim inspirado no universo do cangaço apostou em linguagem cinematográfica, elenco afiado e narrativa densa, mas dividiu o público ao longo de sua exibição

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Crítica Guerreiros do Sol

O fim de Guerreiros do Sol, exibido pela Globo nesta quarta-feira (17), encerra um dos projetos mais ousados da dramaturgia brasileira recente. Adaptada para a TV aberta após sua passagem pelo Globoplay, a novela criada por George Moura e Sergio Goldenberg apostou em uma proposta distante dos folhetins tradicionais: uma narrativa inspirada no cangaço, carregada de simbolismos, violência, conflitos sociais e personagens moralmente complexos.  

Ao longo de seus 39 capítulos na Globo, a produção deixou claro que não pretendia agradar a todos. E talvez esse tenha sido justamente seu maior mérito.

Uma novela que parecia cinema

Desde a estreia, Guerreiros do Sol chamou atenção pelo cuidado visual. A direção de Rogério Gomes transformou o sertão nordestino em um personagem vivo da trama, utilizando paisagens grandiosas, fotografia sofisticada e uma estética que lembrava produções internacionais sobre faroeste e épicos históricos.  

Em vários momentos, a novela parecia mais uma minissérie premium do que um produto convencional de televisão aberta. Essa escolha elevou o padrão artístico da produção, mas também ajudou a explicar parte da resistência de um público acostumado a narrativas mais ágeis e didáticas.

Enquanto novelas tradicionais costumam entregar conflitos e soluções em ritmo acelerado, Guerreiros do Sol optou pela contemplação, pelo desenvolvimento psicológico e pela construção gradual dos personagens.

Elenco entrega atuações de alto nível

Outro ponto praticamente consensual entre crítica especializada e público foi a qualidade do elenco.

Isadora Cruz sustentou Rosa com intensidade e humanidade, transformando a protagonista em uma das personagens femininas mais fortes da temporada. Thomás Aquino conferiu densidade dramática a Josué, enquanto Irandhir Santos entregou uma atuação memorável como Arduíno, personagem complexo e marcado por contradições.  

Também merecem destaque Alinne Moraes, Nathalia Dill, Alice Carvalho e Alexandre Nero, que ajudaram a construir um universo rico em figuras ambíguas e emocionalmente profundas.  

É o tipo de elenco que dificilmente se vê desperdiçado. Mesmo os personagens secundários tiveram momentos relevantes dentro da narrativa.

Entre o sucesso artístico e a repercussão limitada

Se artisticamente a novela acumulou elogios, comercialmente a trajetória foi mais complexa.

Diversos veículos especializados apontaram que Guerreiros do Sol conquistou reconhecimento crítico e até premiações importantes, mas não alcançou o mesmo nível de repercussão popular observado em fenômenos recentes do streaming e da televisão.  

Nas redes sociais, a novela gerou debates apaixonados entre os fãs, especialmente por suas atuações, fotografia e abordagem do cangaço. Entretanto, o volume de comentários nunca atingiu o patamar de produções mais populares e voltadas ao entretenimento imediato.  

Isso não significa fracasso. Pelo contrário. A novela encontrou um público fiel que valorizou justamente aquilo que a diferenciava das demais produções: sua identidade própria.

Um final coerente com a proposta da obra

O último capítulo manteve o tom épico que marcou toda a trajetória da novela. Confrontos finais, descobertas, fugas e encerramentos emocionais deram desfecho às principais tramas sem abrir mão da atmosfera melancólica e poética que definiu a obra desde o início.  

Não foi um final construído para arrancar aplausos fáceis ou apostar em reviravoltas exageradas. Foi uma conclusão coerente com a jornada dos personagens e com o universo criado pelos autores.

E isso, em tempos de narrativas cada vez mais preocupadas em viralizar trechos nas redes sociais, merece reconhecimento.

Veredito

Guerreiros do Sol termina deixando uma sensação rara na televisão brasileira contemporânea: a de que assistimos a uma obra que assumiu riscos.

Nem sempre foi uma novela fácil. Em alguns momentos, o ritmo excessivamente contemplativo comprometeu a fluidez da narrativa. Em outros, o excesso de simbolismo afastou parte do público. Mas suas qualidades superam amplamente seus defeitos.

Visualmente deslumbrante, tecnicamente impecável e sustentada por atuações de primeira linha, a produção reforça que ainda existe espaço para novelas autorais dentro da TV aberta.

Talvez não tenha sido um fenômeno de audiência ou de repercussão massiva. Mas certamente será lembrada como uma das novelas mais sofisticadas, corajosas e artisticamente relevantes da década.

O texto Guerreiros do Sol encerra trajetória na Globo como uma das novelas mais ambiciosas e autorais dos últimos anos foi publicado primeiro no Observatório da TV.