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Italo Calvino, autor do clássico “As Cidades Invisíveis”: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui. Há duas maneiras de não sofrer: aceitar o inferno e tornar-se parte dele, ou procurar reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo e abrir espaço.”
Trecho que encerra o livro de 1972 fecha o diálogo entre Marco Polo e Kublai Khan e propõe preservar o que ainda resiste no caos cotidiano
Poucas passagens da literatura do século 20 circulam tanto quanto o fecho de As Cidades Invisíveis, do escritor italiano Italo Calvino. Segundo ela, o inferno não mora num futuro distante. Está no presente que a gente divide todo dia, e essa ideia já atravessou mais de meio século. Ela aparece em aulas, palestras e postagens nas redes. A força do trecho está na saída que ele propõe: em vez de se render, procurar o que ainda merece ser protegido.
Onde a frase do inferno aparece em As Cidades Invisíveis?
A reflexão fecha o livro, no último diálogo entre o viajante veneziano Marco Polo e o imperador Kublai Khan. Publicada na Itália em 1972, a obra reúne descrições de cidades imaginárias que Marco Polo relata ao soberano mongol, como se tivesse percorrido cada canto do império.
A arquitetura do livro é rigorosa. Segundo um estudo de Luiz Roberto Alves publicado na revista Estudos Avançados, da USP, são nove partes, 55 cidades e 18 diálogos em itálico entre os dois personagens, que abrem e fecham os capítulos. A frase do inferno, portanto, chega como palavra final depois de toda essa viagem.
No Brasil, o livro sai pela Companhia das Letras, com tradução de Diogo Mainardi. As versões que circulam na internet costumam resumir e adaptar a passagem, por isso a leitura no livro revela nuances que a frase solta perde.

O que Calvino quis dizer com as duas maneiras de não sofrer?
Para Calvino, o inferno não é castigo depois da morte nem catástrofe por vir: é a convivência de todos os dias, que construímos juntos. Diante dele, o livro aponta dois caminhos. O primeiro, mais fácil para a maioria, é aceitar esse inferno e virar parte dele, a ponto de nem percebê-lo mais.
O segundo caminho é mais arriscado e, segundo o próprio texto, exige “atenção e aprendizagem contínuas”. Trata-se de reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e então preservar e abrir espaço. O verbo central é preservar. Não é fuga da realidade, mas um jeito de enxergar, dentro dela, as pessoas e os gestos que resistem.
Repare que o autor italiano não promete o fim do sofrimento coletivo. A proposta é mais modesta e, ao mesmo tempo, mais exigente: escolher onde colocar a atenção. Por isso a passagem é lembrada em discussões sobre cidade, clima e convivência.
Escritores que transformam experiência em lição seguem inspirando leitores brasileiros. A trajetória de uma poeta goiana mostra outra forma de encontrar sentido em meio às dificuldades.
Cora Coralina sobre recomeço: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”…➔
Por que a reflexão de Calvino conversa com quem vive no Rio?
Porque As Cidades Invisíveis fala, no fundo, de cidades reais. O estudo da Estudos Avançados lê o livro como uma investigação sobre como é difícil, mas possível, viver junto em sociedade. Essa pergunta bate forte em quem encara a rotina carioca e fluminense.

Trem lotado, calor pesado, enchente, insegurança: para muita gente na capital e na Baixada, o inferno descrito por Calvino tem endereço conhecido. Só que a mesma rotina guarda o vizinho que ajuda na chuva, a roda de samba na praça e o professor que não desiste da turma. Reconhecer essas pessoas e dar espaço a elas é a segunda maneira descrita pelo escritor.
Como levar a lição do inferno dos vivos para o dia a dia?
O caminho começa pela atenção. A lição de Italo Calvino não pede heroísmo, e sim o hábito de reparar no que funciona, apoiar quem faz diferença e não naturalizar o que machuca. É um exercício pequeno, repetido diariamente, que muda o jeito de olhar a própria cidade.
Ler o livro inteiro ajuda a entender por que esse fecho emociona tanto: ele chega depois de dezenas de cidades descritas por Marco Polo a Kublai Khan. E fica aqui um convite de amigo: escolha hoje uma pessoa ou um lugar do seu bairro que não é inferno e conte para alguém por que ele merece ser preservado.
Para quem gosta de autores que pensam a sociedade pela ficção, a literatura brasileira também tem nomes essenciais. A obra de Conceição Evaristo é um bom ponto de partida.