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Kahlil Gibran, poeta libanês, sobre o casamento: “Fiquem juntos, mas não perto demais, pois as colunas do templo ficam separadas, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.” Uma reflexão sobre o espaço que cada um precisa dentro da vida a dois
Trecho de O Profeta, livro de 1923 traduzido para mais de 40 idiomas, compara o casal a duas árvores que precisam de luz própria para crescer
Há pouco mais de cem anos, o poeta libanês Khalil Gibran resumiu numa imagem simples um dilema de todo casal: como ficar junto sem sufocar o outro. O trecho está em O Profeta, livro de 1923. Nele, o casal vira colunas de um templo e duas árvores, o carvalho e o cipreste, que não crescem à sombra uma da outra.
Onde Khalil Gibran escreveu a frase sobre o casamento?
A frase está no capítulo sobre o casamento de O Profeta, lançado em setembro de 1923 nos Estados Unidos pela editora Alfred A. Knopf. O texto original, em inglês, pode ser lido na edição de domínio público do Projeto Gutenberg.
No livro, um sábio prestes a deixar a cidade onde viveu responde às perguntas dos moradores. Quem pergunta sobre o casamento é Almitra. A resposta começa lembrando que os dois nasceram juntos e juntos ficarão para sempre, mas logo pede que haja espaços nessa união.
Nascido em 1883 no Líbano e morto em 1931 em Nova York, Gibran viveu boa parte da vida nos Estados Unidos. Segundo a Penguin Random House, que publica a obra, O Profeta reúne 28 ensaios poéticos. O livro foi traduzido para mais de 40 idiomas e vendeu mais de 10 milhões de cópias só no mercado americano.
O que o carvalho e o cipreste dizem sobre a vida a dois?
As duas árvores dizem que amor não é fusão: cada pessoa precisa de luz própria para crescer. No original, Gibran pede que o casal fique junto, mas não perto demais. A razão vem em seguida: as colunas do templo ficam separadas, e o carvalho e o cipreste não crescem um à sombra do outro.

A imagem do templo completa a ideia. As colunas sustentam o mesmo teto, e é a distância entre elas que dá forma ao edifício. Já o cipreste, alto e estreito, e o carvalho, de copa larga, são árvores bem diferentes que podem dividir a mesma paisagem sem disputar a mesma luz.
O capítulo inteiro é construído com metáforas desse tipo. Três delas ajudam a entender o recado do poeta sobre a vida a dois:
Espaços na união: Gibran pede que existam espaços na convivência, para que os ventos do céu dancem entre os dois.
Um mar, não uma corrente: o amor deve ser como um mar em movimento entre as margens das almas, e não um laço que prende.
Taças separadas: cada um enche a taça do outro, mas os dois não bebem da mesma taça.
Fonte: O Profeta, de Khalil Gibran (Alfred A. Knopf, 1923), capítulo sobre o casamento.
Outros escritores também pensaram o casamento como trabalho diário, e não como conquista definitiva. A reflexão de Gabriel García Márquez conversa bem com a de Gibran:
Por que Gibran defende espaço individual no casamento?
Para Gibran, entregar o coração não significa deixá-lo sob a guarda do outro. No mesmo capítulo, ele aconselha o casal a cantar e dançar junto, mas a preservar a solidão de cada um, como as cordas de um alaúde que vibram com a mesma música.

Traduzido para o cotidiano, o recado serve ao casal da Zona Norte ou da Baixada que divide apartamento pequeno e rotina corrida. Pela lógica do poema, manter amizades, interesses e algum tempo para si não indica amor fraco. É parte do que mantém cada um inteiro dentro da relação.
O que a lição de O Profeta ensina aos casais hoje?
A lição de O Profeta é que proximidade e liberdade podem andar juntas. Mais de cem anos depois, a imagem do carvalho e do cipreste segue atual para quem confunde amor com controle ou com a obrigação de fazer tudo a dois.
O poema não é manual nem terapia, e cada casal encontra a própria medida de distância. Quando a convivência pesa, conversar com calma e, se preciso, procurar apoio de um psicólogo pode ajudar. E você, já separou hoje um tempinho para cuidar de si e outro para cuidar de quem está ao seu lado?
Se o assunto é amor, a ironia afiada de outro grande escritor sobre paixão e felicidade rende uma boa conversa: