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Marco Aurélio, imperador romano, sobre as preocupações: “Se algo externo te perturba, não é a coisa em si que te aflige, mas o teu julgamento sobre ela. E está em teu poder apagar esse julgamento agora.” Uma reflexão sobre como sofrer menos com o que não podemos controlar
Trecho do Livro 8 das Meditações ecoa o Manual de Epicteto e propõe separar o fato do julgamento para lidar com as aflições do dia a dia
Quem nunca perdeu o sono por causa de uma conta atrasada, de uma fofoca no trabalho ou do trânsito parado na Avenida Brasil? Há quase dois mil anos, Marco Aurélio, imperador de Roma, anotou para si mesmo uma ideia que segue atual: o que machuca não é o fato externo, mas o julgamento que fazemos dele. O trecho está no Livro 8 das Meditações e resume uma lição central do Estoicismo.
Onde Marco Aurélio registrou a frase sobre o julgamento?
A frase está no oitavo livro das Meditações, o caderno de anotações pessoais do imperador. Na tradução inglesa clássica de George Long, disponível no acervo de clássicos do MIT, o texto diz que a dor não vem da coisa externa, mas do próprio juízo sobre ela. E completa que está em nosso poder apagar esse juízo agora.
O autor não era um pensador de gabinete. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, da Universidade Stanford, ele nasceu em 121, assumiu o comando do Império Romano em 161 e governou até morrer, em 180. Parte das anotações foi escrita durante as campanhas militares dos últimos anos.
Os textos não foram feitos para publicação. Para os estudiosos, ele escrevia para se aperfeiçoar e lembrar das regras que queria seguir. O nome Meditações só veio depois, dado por um editor moderno.
Por que o estoicismo separa o fato da opinião sobre ele?
Porque, para os estoicos, a dor chega em duas camadas: o que acontece e a história que contamos sobre o que aconteceu. A primeira muitas vezes foge do nosso alcance. A segunda depende de nós.

A base dessa ideia está em Epicteto, filósofo cujas lições aparecem nas anotações do imperador. O Manual de Epicteto abre dizendo que algumas coisas estão sob nosso controle e outras não. Mais adiante, afirma que as pessoas se perturbam não pelas coisas, mas pelas opiniões que formam sobre elas.
Na prática, é um treino de controle emocional, não de frieza. A enciclopédia de Stanford lembra que, para os estoicos, as primeiras impressões surgem sem pedir licença. O que é voluntário é concordar ou não com elas. Apagar o julgamento, então, é recusar o rótulo, e não deixar de sentir.
A relação entre pensamento e bem-estar aparece em outra frase famosa do imperador. A Tupi já contou essa história em detalhes.
Como aplicar a lição das Meditações nas preocupações do dia?
A lição vira hábito com perguntas simples, feitas na hora da aflição. A ideia é ganhar alguns segundos entre o fato e a reação, num exercício diário de controle emocional que não promete fazer a preocupação sumir.

Os passos abaixo levam para o dia a dia o que Epicteto e Marco Aurélio escreveram. Funcionam no ônibus lotado, na fila do banco ou antes de responder aquela mensagem atravessada.
- Descreva o fato sem adjetivos: “o chefe pediu para refazer o relatório”, e não “o chefe me persegue”.
- Pergunte se aquilo depende de você. Se depende, aja. Se não depende, solte.
- Repare no julgamento que veio junto e troque por uma leitura mais exata.
- Escreva. As Meditações nasceram como anotações pessoais, e o papel ajuda a ver a preocupação de fora.
Uma ressalva importante: a filosofia não substitui tratamento. Se a ansiedade atrapalha o sono, o trabalho ou as relações por semanas, procure um psicólogo ou a unidade de saúde mais perto de casa.
O que Marco Aurélio ainda ensina a quem vive ansioso?
Ensina que sofrer menos não é controlar o mundo, coisa que nem o homem mais poderoso do Império Romano conseguia. Guerras nas fronteiras e problemas de governo batiam à porta dele como hoje bate a conta de luz.
O que estava ao alcance do imperador era o jeito de olhar para cada problema, e essa ferramenta continua de graça para qualquer um. Que tal testar hoje mesmo? Na próxima vez que algo te tirar do sério, separe o fato do julgamento e repare no que muda por dentro.
Se você gosta de entender o comportamento por trás das atitudes do dia a dia, tem mais assunto para a conversa. Esta outra matéria trata de uma pergunta comum das crianças.