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Maria Montessori, educadora italiana, sobre ensinar: “O maior sinal de sucesso de um professor é poder dizer: as crianças estão trabalhando como se eu não existisse.” Uma reflexão sobre ensinar a caminhar sozinho
Trecho do livro A mente absorvente, de 1949, descreve o educador que prepara o ambiente e deixa a criança aprender pelo próprio esforço
Quem já viu uma criança concentrada tentando amarrar o próprio tênis sabe como é difícil não se meter. A médica e educadora italiana Maria Montessori transformou essa percepção em princípio de sala de aula: para ela, o professor chega ao auge quando a turma segue trabalhando como se ele nem estivesse ali. A frase resume uma ideia que até hoje provoca escolas, pais e educadores, no Brasil e no mundo.
Onde Maria Montessori escreveu a frase sobre o professor?
A frase está no capítulo 27 do livro The Absorbent Mind (A mente absorvente), na edição de 1949, lançada pela Theosophical Publishing House, na Índia. No trecho, a autora pergunta qual é o ponto mais alto do sucesso de uma educadora. A resposta é poder dizer que as crianças agora trabalham como se ela não existisse. Logo depois, completa que a professora “se tornou nada” e as crianças “se tornaram tudo”.
Nascida em 31 de agosto de 1870, em Chiaravalle, ela foi uma das primeiras mulheres médicas da Itália, formada em 1896, segundo a biografia publicada pela Association Montessori Internationale. Em 6 de janeiro de 1907, abriu a primeira Casa dei Bambini no bairro operário de San Lorenzo, em Roma. Ali começou a ganhar forma o Método Montessori.
Por que o professor montessoriano deve sair de cena?
Porque, para Montessori, a concentração da criança é frágil e qualquer interrupção pode desfazê-la. No mesmo capítulo, ela mostra que o sumiço do adulto só acontece no fim, depois de muito trabalho invisível.

Sair de cena, portanto, não significa abandonar a turma. A trajetória descrita pela autora tem três momentos bem definidos:
- Cuidar do ambiente: manter os materiais organizados e completos, tarefa que, segundo ela, vem antes de tudo.
- Atrair as crianças: antes da concentração aparecer, a educadora pode usar canções, histórias e sugestões para despertar o interesse.
- Não interferir: quando a criança se concentra, nada de elogio, ajuda ou olhar insistente, porque até um “muito bem” pode quebrar a atividade.
A educadora vai além: se a criança enfrenta uma dificuldade, o adulto não deve resolver por ela. O interesse, escreveu, está em vencer o obstáculo, não na tarefa em si.
Essa visão do aprendizado como conquista de quem aprende conversa com outra ideia clássica da educação: a de que ensinar é despertar a curiosidade, e não apenas transmitir informações, como defendia o filósofo grego Plutarco.
Como a autonomia infantil aparece na pedagogia de Montessori?
A autonomia infantil surge como resultado de um ambiente pensado para a criança agir sozinha. A biografia da AMI fala em autoeducação: a criança aprende pelo próprio esforço. Conta também que a educadora mantinha na sala apenas os materiais que realmente prendiam a atenção dos pequenos.

Na prática, essa pedagogia muda o papel do adulto. Em vez de despejar conteúdo, ele observa, prepara o espaço e intervém quando é chamado. Em casa, o raciocínio é parecido: deixar a criança tentar guardar os brinquedos, se vestir ou servir a água, sempre com segurança e respeitando a idade.
A própria educadora defendeu suas ideias diante das câmeras. O registro abaixo, publicado pelo canal oficial da Association Montessori Internationale, traz uma entrevista com Maria Montessori.
A entidade foi criada pela própria Montessori em 1929 para dar continuidade ao trabalho. Ela recebeu três indicações ao Nobel da Paz, a primeira em 1949, e morreu em 6 de maio de 1952, na Holanda.
O que a frase de Montessori ensina a pais e professores hoje?
Ensina que ajudar demais também atrapalha. O bom professor, na visão do Método Montessori, prepara o terreno e confia na capacidade da criança. Seja numa escola da Zona Norte, seja numa casa da Baixada Fluminense, o desafio é o mesmo: segurar a vontade de fazer pela criança.
Isso não quer dizer largar a criança à própria sorte. Quer dizer estar perto, atento e pronto, mas sem roubar dela a alegria de conseguir sozinha. Da próxima vez que seu filho ou aluno estiver concentrado numa tarefa, experimente esperar um pouco antes de ajudar e repare no sorriso de quem venceu o desafio.
Educação também é troca: quem ensina continua aprendendo. É essa a reflexão que a poeta Cora Coralina deixou em um de seus versos mais lembrados.