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Onde fica a vila brasileira que parece cenário de filme: entre as mais bonitas do planeta, não tem asfalto, proíbe carros e esconde a fiação debaixo da areia para preservar a paisagem
Entre dunas e ruas de areia.
Vila turística costuma se render à infraestrutura moderna com o passar dos anos. Jericoacoara, no litoral oeste do Ceará, faz o contrário. Sem ruas asfaltadas, sem postes de iluminação pública e sem circulação de carros particulares, a antiga aldeia de pescadores manteve os pés na areia mesmo após entrar em 1994 na lista das dez praias mais bonitas do mundo do jornal norte-americano The Washington Post. Hoje, é o terceiro parque nacional mais visitado do Brasil.
Como uma vila sem estrada virou notícia no Washington Post?
Por uma reportagem de 1994. O jornalista norte-americano Cal Fussman cruzou as dunas em uma reportagem especial e publicou o texto Beauty and the Beach no The Washington Post. O texto incluía Jericoacoara entre as dez praias mais bonitas do planeta, ao lado de destinos consagrados do Caribe, da Polinésia e do Mediterrâneo.
Na época, a vila tinha menos de mil moradores, quase todos pescadores, e o acesso era feito apenas por trilha em veículo 4×4 ou de jangada. A reportagem virou marco. A partir dela, Jericoacoara entrou na rota de mochileiros europeus e depois de viajantes de todo o mundo. Anos mais tarde, a revista britânica Condé Nast Traveller incluiu a vila em sua lista de praias mais bonitas do planeta, à frente de destinos consagrados da Grécia e da Espanha.

Por que os carros são proibidos e a rede elétrica é subterrânea?
Por exigência ambiental federal. Segundo o portal oficial do Conselho Comunitário de Jericoacoara, todas as ruas da vila são de areia, não existe iluminação pública e a rede elétrica é subterrânea, o que faz das noites em Jeri um espetáculo à parte, iluminado apenas pela lua e pelas estrelas. A energia chegou oficialmente à vila apenas em 1998, e desde então corre por cabos enterrados sob a areia para não interferir na paisagem.
A restrição não é apenas estética. A área abriga o ciclo de reprodução de tartarugas marinhas e de espécies de aves migratórias sensíveis à luz artificial. Postes de iluminação pública comum poderiam desorientar os filhotes de tartaruga, que usam o clarão natural do mar como guia para chegar à água após a eclosão dos ovos. Os carros particulares seguem regra semelhante: ficam em estacionamentos na entrada da vila, e todo o deslocamento interno é feito a pé, de bicicleta ou de buggy autorizado.
O que protege o Parque Nacional de Jericoacoara?
A vila inteira e todo o entorno costeiro. A área foi declarada Área de Proteção Ambiental (APA) pelo governo federal em 1984. Em 4 de fevereiro de 2002, parte do território foi ampliada para a categoria de proteção máxima, criando o Parque Nacional de Jericoacoara, com 8.863 hectares administrados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A unidade protege dunas móveis, lagoas temporárias, manguezais, restingas e a orla marítima.
O parque conquistou marcas raras no ecoturismo brasileiro. Em 2024, registrou mais de 1,5 milhão de visitantes, tornando-se o terceiro parque nacional mais visitado do Brasil, atrás apenas do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. A visitação sustentada há duas décadas comprova a força do modelo de turismo de baixo impacto adotado no Ceará.
De onde vem o nome Jericoacoara?
Do tupi antigo. Segundo o Conselho Comunitário, a explicação oficial mais aceita é a de que Jericoacoara deriva da junção dos vocábulos îurukûá, que significa tartaruga marinha, e kûara, que significa toca ou buraco. A tradução literal é “toca das tartarugas”, em referência às tartarugas marinhas que desovam na praia há séculos.
Existe também uma tradição oral local. Para moradores mais antigos, o nome original da vila teria sido Jacarequara, uma referência ao formato do Serrote, uma dupla colina de cerca de 100 metros de altura que se destaca entre as dunas e, vista do alto, lembra um jacaré deitado ao sol. O Serrote guarda hoje o farol da vila, movido a energia solar, e é um dos principais mirantes do parque nacional.

Quais atrações estruturam o roteiro pela vila e pelo parque?
O roteiro se divide entre os passeios a leste, a oeste e dentro da própria vila. As principais atrações são:
- Duna do Pôr do Sol: ritual diário em que dezenas de visitantes sobem a duna para ver o sol mergulhar direto no mar. Jericoacoara é um dos poucos pontos do Brasil onde se vê tanto o nascer quanto o pôr do sol sobre o oceano.
- Pedra Furada: arco de rocha esculpido pelo mar, símbolo natural da vila. Entre julho e agosto, o sol se põe exatamente no vão do arco. A trilha de ida e volta tem cerca de 4,5 km.
- Lagoa do Paraíso: águas cristalinas em tons de verde e azul, com redes de tucum estendidas dentro d’água e restaurantes à margem. Fica a 20 km da vila, em Jijoca.
- Lagoa Azul: mais rústica, com barracas simples e água em tom esmeralda, ideal para descansar em ambiente preservado.
- Serrote e Farol: formação rochosa com cerca de 100 metros de altura, mirante e vista panorâmica de 360 graus sobre dunas, praias e vila.
- Manguezal do Rio Guriú: passeio de canoa a oeste da vila, com observação de cavalos-marinhos em seu habitat natural.
- Árvore da Preguiça: mangue curvado sobre a areia pelo vento constante, no caminho para a Praia do Preá.
Por que Jericoacoara é referência mundial em kitesurf?
Pela constância dos ventos. A região concentra ventos fortes e regulares em mais de 250 dias por ano, segundo estimativas da International Kiteboarding Organization (IKO), o que a coloca entre os melhores destinos do mundo para a prática de kitesurf e windsurf. A temporada ideal vai de julho a fevereiro, com o pico entre setembro e dezembro, quando as rajadas alcançam intensidade constante.
Escolas espalhadas pela vila oferecem cursos para iniciantes e equipamentos para atletas experientes. A Praia do Preá, vizinha à vila, é uma das mais procuradas por praticantes internacionais, com faixa larga de areia, água morna e ventos previsíveis. Nas altas temporadas, atletas europeus, sul-americanos e norte-americanos se hospedam no Ceará por semanas para treinar.
O que provar na gastronomia cearense de pescadores?
A cozinha da vila reflete a origem pesqueira e o encontro com a culinária do Ceará. Alguns pratos e produtos essenciais:
- Lagosta: prato emblemático da região, servida fresca em restaurantes da rua principal.
- Peixada cearense: preparada com leite de coco e acompanhada por farofa de cuscuz crocante, é a experiência mais tradicional da mesa local.
- Camarão na moranga: crustáceos regionais preparados com abóbora recheada.
- Baião de dois: prato-símbolo do sertão nordestino, com feijão-verde, arroz, carne seca e queijo coalho.
- Tapioca: iguaria indígena servida em barracas na duna e nos cafés da vila.
- Caipirinha de frutas regionais: cajá, siriguela e tamarindo, tomadas ao pôr do sol na duna.
Como é o clima ao longo do ano?
Jericoacoara tem clima tropical semiárido, com temperaturas elevadas e ventos constantes o ano inteiro. As chuvas se concentram no primeiro semestre, quando as lagoas temporárias ficam cheias.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Jericoacoara?
O ponto de partida mais comum é Fortaleza, a 300 km pela CE-085, também conhecida como Rodovia do Sol Poente. São cerca de 280 km de asfalto até Jijoca de Jericoacoara, seguidos de aproximadamente 15 km de estrada de areia percorridos em jardineira 4×4 ou em veículos autorizados. O trajeto total dura cerca de 4h30.
O Aeroporto Regional Comandante Ariston Pessoa, em Jijoca, fica a 33 km da vila e opera voos comerciais sazonais que encurtam a viagem para quem chega de Belo Horizonte, São Paulo ou de outras capitais brasileiras. Muitos visitantes combinam Jericoacoara com um roteiro pelo litoral leste do Ceará, incluindo Canoa Quebrada, ou pelo litoral oeste, com a Praia do Preá, Guriú e Camocim, formando um circuito de praias com dunas gigantes.
A vila que aprendeu a preservar o próprio charme
Jericoacoara oferece a combinação rara no litoral brasileiro: reconhecimento internacional do The Washington Post e da Condé Nast Traveller, ruas de areia que nunca foram asfaltadas, uma rede elétrica invisível que corre debaixo da areia, proibição de carros particulares que preserva o silêncio noturno, e a chancela federal do ICMBio como um dos parques nacionais mais visitados do Brasil. É a vila que provou que crescer sem se descaracterizar é possível quando a infraestrutura serve à paisagem, não o contrário.
Você precisa reservar pelo menos três dias em Jericoacoara, dividir o tempo entre uma manhã na Pedra Furada, uma tarde na Lagoa do Paraíso e o ritual inegociável do pôr do sol na duna, terminando com uma lagosta fresca em algum restaurante da rua principal enquanto a vila se apaga sob a luz da lua.