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Parece filme, mas é no Brasil: a cidade histórica de ruas de pedra que a maré invade e que atraiu famílias russas e ucranianas fugindo da guerra

Centro histórico reconhecido pela Unesco virou lar de famílias russas e ucranianas, e uma parteira russa já acompanhou partos de mais de 40 delas na cidade

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Em Paraty, a maré cheia cobre o calçamento de pedras irregulares do Centro Histórico, mas as casas ficam acima do nível da rua
Em Paraty, a maré cheia cobre o calçamento de pedras irregulares do Centro Histórico, mas as casas ficam acima do nível da rua - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Ruas de pedra irregular, casarões coloniais e o mar entrando na cidade nos dias de maré alta. A cena parece de cinema, mas fica na Costa Verde fluminense. É Paraty, que além dos turistas passou a atrair imigrantes russos e ucranianos atrás de um recomeço longe da guerra no Leste Europeu.

Por que a maré cheia chega às ruas de pedra de Paraty?

A explicação está no traçado colonial, feito rente às águas da Baía da Ilha Grande. Em períodos de maré cheia, mais fortes nas luas cheia e nova, o mar avança pelas ruas próximas ao cais e cobre o calçamento de pedras irregulares, o famoso pé de moleque. As casas ficam acima do nível da rua, e a água fica do lado de fora.

O Centro Histórico de Paraty preserva o desenho urbano do século 18 e boa parte da arquitetura colonial dos séculos 18 e 19, segundo a Decisão 43 COM 8B.10 do Comitê do Patrimônio Mundial. O documento descreve a cidade como uma das mais bem preservadas do litoral colonial brasileiro, protegida desde 1945 e acompanhada pelo Iphan.

Foi essa decisão, tomada em 2019 em Baku, no Azerbaijão, que levou “Paraty e Ilha Grande: Cultura e Biodiversidade” ao Patrimônio Mundial da UNESCO. O sítio reúne o centro histórico, o Morro da Vila Velha e quatro áreas protegidas de Mata Atlântica, entre elas o Parque Nacional da Serra da Bocaina.

O traçado colonial feito rente às águas da Baía da Ilha Grande faz o mar avançar sobre as ruas próximas ao cais
O traçado colonial feito rente às águas da Baía da Ilha Grande faz o mar avançar sobre as ruas próximas ao cais – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Como famílias russas e ucranianas escolheram viver em Paraty?

Tudo começou com uma família e virou uma rede. A russa Lucy Maratkanova chegou ao Brasil em 2016, grávida de sete meses, com o marido, Nico Zharov, e a filha Amélia. Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, eles tinham uma lista de cidades pequenas, à beira-mar e cercadas por montanhas.

O plano era Angra dos Reis, mas o motorista que buscou a família no aeroporto disse que seguia para Paraty. Zharov contou ao jornal que sentiu “amor à primeira vista”. Dez anos depois, Lucy virou parteira e já acompanhou partos de mais de 40 famílias russas, ucranianas e bielorrussas na cidade.

Com a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o movimento ganhou novos personagens. O ucraniano Olexiy Shmytkin chegou em janeiro de 2025 com a mulher e duas filhas, e a caçula nasceu na cidade. Ele disse que a presença de russos e ucranianos, que facilita a comunicação, pesou na escolha.

A trajetória de Lucy e das famílias que ela ajudou rendeu uma reportagem completa aqui no site. Lá estão outros personagens dessa comunidade e os detalhes da chegada de cada um.

O que a lei garante a estrangeiros com filho nascido no Brasil?

A criança nascida aqui é brasileira nata, mesmo filha de estrangeiros. É o que determina o artigo 12 da Constituição Federal de 1988, com exceção dos pais que estejam a serviço do governo do próprio país.

Para visitar Paraty na maré cheia, consulte a previsão de marés e use calçado firme, pois as pedras molhadas ficam escorregadias
Para visitar Paraty na maré cheia, consulte a previsão de marés e use calçado firme, pois as pedras molhadas ficam escorregadias – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Para os pais, o caminho passa pela Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017). O artigo 37 prevê autorização de residência por reunião familiar para pai ou mãe de brasileiro. Segundo a reportagem, foi com essa base que a família de Lucy ficou no país.

Os números mostram que russos e ucranianos estão no radar, mas pedem leitura cuidadosa. Dados do OBMigra citados pelo Valor apontam 178.661 entradas de russos e 101.017 de ucranianos desde fevereiro de 2022. São entradas, não pessoas diferentes. No mesmo período, houve 1.061 pedidos de refúgio das duas nacionalidades.

Vale visitar o Centro Histórico de Paraty na maré cheia?

Vale, desde que o passeio seja planejado. A água nas ruas depende da altura da maré e também do vento, que pode alterar o nível previsto. Por isso, consulte a previsão de marés antes de sair do Rio e use calçado firme, porque as pedras molhadas ficam escorregadias.

O título de Patrimônio Mundial da UNESCO explica a fama, mas a cidade continua viva e mudando, agora com sotaques novos pelas ruas. Se você ainda não conhece, que tal escolher um fim de semana de lua cheia, separar a câmera do celular e ver de perto esse cenário de filme a poucas horas de casa?

E se a vontade de pegar a estrada bateu, o litoral fluminense tem outros destinos em alta. Na Região dos Lagos, uma cidade virou a preferida de quem busca conforto para morar ou passear.