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Pedro e Bruna expõem um casamento tóxico em Quem Ama Cuida — e Adriana torna a separação inevitável
Relação dos personagens de Chay Suede e Nanda Marques nasceu cercada por manipulações de Carmita e se transformou em uma união sustentada por culpa, dependência e doença; enquanto Pedro nunca esqueceu Adriana, Bruna ultrapassa limites para impedir o fim do casamento
Em Quem Ama Cuida, o casamento de Pedro (Chay Suede) e Bruna (Nanda Marques) é um dos exemplos mais interessantes de como uma relação aparentemente convencional pode esconder uma dinâmica profundamente disfuncional. A união dos dois não é construída apenas sobre a ausência de amor: ela envolve culpa, manipulação, dependência emocional e, principalmente, a dificuldade de Pedro de assumir as consequências de suas próprias escolhas.
A novela de Walcyr Carrasco e Claudia Souto deixou claro desde o começo que Bruna sempre foi muito mais apaixonada por Pedro do que ele por ela. O problema é que essa diferença de sentimentos rapidamente ultrapassou os limites de uma relação amorosa frustrada e entrou no território da manipulação.
Ainda na primeira fase, Carmita (Deborah Evelyn) ajudou a filha a apresentar um falso teste de gravidez para Pedro numa tentativa de prendê-lo ao relacionamento. A armação acabou descoberta, mas serviu para estabelecer uma característica fundamental da relação entre mãe e filha: Carmita não apenas aconselha Bruna, como estimula nela a ideia de que qualquer estratégia é aceitável para conseguir aquilo que deseja. É justamente aí que está uma das chaves para compreender Bruna.
Bruna é também produto da influência de Carmita
Bruna não pode ser reduzida simplesmente à figura da “mulher rejeitada” que tenta impedir o protagonista de ficar com seu verdadeiro amor. Há algo mais complexo na personagem. Sua relação com Carmita ajuda a explicar — embora não justifique — seu comportamento.
Carmita enxerga relacionamentos de maneira extremamente pragmática. A própria personagem tentou impedir o casamento de Arthur (Antonio Fagundes) e Adriana (Letícia Colin), chegando a procurar o antigo namorado e se oferecer como alternativa à protagonista. Arthur rejeitou a investida. Essa visão de mundo acaba reproduzida pela filha.
Bruna aprendeu com Carmita que sentimentos podem ser administrados por meio de pressão, chantagem e conveniência. Se Pedro não permanece espontaneamente, é preciso criar alguma circunstância que torne sua saída mais difícil.
Foi exatamente assim com a falsa gravidez. E essa lógica retorna de maneira ainda mais grave quando a saúde da personagem passa a determinar os rumos do casamento.
Pedro nunca deixou de amar Adriana
O salto temporal de seis anos poderia ter sido utilizado para transformar completamente Pedro. A novela fez justamente o contrário. Ele voltou de Londres casado com Bruna, mas bastou reencontrar Adriana para ficar evidente que aquele sentimento continuava vivo. A própria Globo tratou Adriana como o antigo e “verdadeiro amor” do advogado ao abordar os conflitos do casamento.
Pedro chega a admitir para Cléber (Breno Ferreira) que prefere guardar o que sente por Adriana e continuar ao lado de Bruna porque existe uma razão importante que o impede de romper naquele momento. E essa razão é posteriormente esclarecida.
Bruna enfrenta um grave problema de saúde e Pedro permanece ao seu lado durante o tratamento. Portanto, ele não continua casado porque esteja dividido igualmente entre duas mulheres. A situação é mais desconfortável: Pedro ama Adriana, mas acredita ter uma responsabilidade moral em relação a Bruna. Essa diferença é essencial para compreender o personagem.
Pedro confunde responsabilidade com amor
Pedro é construído como um homem essencialmente correto, ponderado e preocupado em agir de acordo com aquilo que considera moralmente aceitável. É justamente essa qualidade que também se transforma em seu maior defeito. Sua permanência no casamento revela um homem incapaz de distinguir compaixão de compromisso amoroso.
Pedro acredita que abandonar Bruna enquanto ela enfrenta uma doença seria cruel. Sob determinado ponto de vista, sua postura é compreensível. O problema é que permanecer casado com alguém por culpa também produz crueldade.
Ele oferece presença quando já não consegue oferecer amor. E Bruna percebe isso.
Quanto mais Pedro tenta protegê-la, mais alimenta nela a esperança de que o casamento ainda possa ser recuperado. Assim, a suposta generosidade do advogado também prolonga uma relação que já terminou emocionalmente.
É uma contradição interessante do personagem de Chay Suede: Pedro deseja agir corretamente o tempo inteiro, mas sua incapacidade de provocar sofrimento imediato acaba produzindo um sofrimento muito maior.
A doença transforma-se no último elo entre Pedro e Bruna
A trama chega ao seu ponto mais delicado quando Bruna percebe que a preocupação de Pedro com sua saúde é justamente aquilo que ainda o mantém próximo. A Globo mostrou a personagem satisfeita ao perceber a preocupação do marido e revelou que ela chega a planejar prejudicar o próprio tratamento para mantê-lo ao seu lado.
Narrativamente, é o momento em que Bruna ultrapassa definitivamente uma fronteira. Sua doença deixa de representar apenas uma tragédia pessoal e passa a ser incorporada pela personagem como instrumento para preservar um relacionamento.
A notícia da remissão, que deveria representar libertação e esperança, provoca nela a reação inversa: Bruna teme que a melhora retire de Pedro justamente o motivo que ainda o faz permanecer no casamento.
É uma situação perturbadora, mas dramaticamente coerente com a trajetória construída desde a falsa gravidez. Primeiro, Bruna tentou criar um filho inexistente para segurar Pedro. Depois, quando enfrenta uma doença real, passa a temer a própria recuperação porque sabe que ela poderá libertá-lo.
A repetição não parece acidental. A novela transforma Bruna em uma personagem que tenta converter circunstâncias externas em vínculos afetivos porque nunca conseguiu conquistar aquilo que realmente desejava: o amor de Pedro.
Adriana é o fantasma permanente do casamento
É impossível analisar Pedro e Bruna sem Adriana. Ela está presente mesmo quando não está em cena.
Quando Pedro chama Bruna pelo apelido de Adriana, o conflito deixa de ser apenas uma insegurança da esposa e ganha uma confirmação concreta. Depois, Bruna procura a rival, a humilha e exige que ela se afaste do advogado.
Mais tarde, Bruna flagra Pedro novamente ao lado da antiga companheira. O problema é que Adriana não destrói o casamento. Ela apenas revela que esse casamento nunca conseguiu substituir o relacionamento anterior.
Essa diferença é importante porque impede que a narrativa transforme Adriana simplesmente na “outra mulher”. Pedro já estava emocionalmente distante de Bruna antes de qualquer retomada efetiva com a protagonista.
Quando descobre que a saúde da esposa está estabilizada, finalmente verbaliza sua intenção de se separar. Na sequência, declara seus sentimentos por Adriana e os dois se beijam.
Nos capítulos seguintes, a relação avança ainda mais: Pedro e Adriana passam a primeira noite juntos e ela finalmente revela que só rompeu com ele no passado porque sofreu ameaças enquanto estava presa. Pedro então decide reabrir o processo da protagonista.
Isso muda completamente a percepção dele sobre os últimos anos. Pedro descobre que o amor que julgava ter sido abandonado não terminou espontaneamente. Ele foi interrompido.
Chay Suede e Nanda Marques sustentam uma relação propositalmente desconfortável
Na interpretação, Chay Suede encontra um caminho interessante para Pedro justamente por evitar transformá-lo em um herói romântico convencional.
Seu Pedro frequentemente parece contido, desconfortável e até emocionalmente cansado diante de Bruna. Essa postura combina com um homem dividido não entre duas paixões, mas entre amor e obrigação.
É uma interpretação que trabalha muito mais com hesitação do que com explosões.
Nanda Marques ocupa o extremo oposto. Bruna é emocionalmente mais evidente. Ciúme, medo, raiva e insegurança aparecem constantemente, e a atriz consegue tornar visível o desespero de uma mulher que sabe estar perdendo uma disputa que, na realidade, talvez nunca tenha vencido.
Existe mérito justamente no fato de Chay Suede e Nanda Marques não construírem uma química romântica arrebatadora.
Pedro e Bruna não deveriam transmitir a sensação de grande casal. O desconforto faz parte da história. A química entre os atores funciona muito melhor no conflito do que no romance.
O público compra Pedro e Bruna justamente como um casal que não funciona
A repercussão nas redes também tem sido alimentada por essa incompatibilidade. Publicações chegaram a provocar diretamente os telespectadores perguntando se Pedro e Bruna “convencem” como casal, enquanto conteúdos relacionados aos confrontos de Bruna e à aproximação de Pedro com Adriana estimulam manifestações favoráveis à protagonista.
Não é difícil entender por quê. A novela praticamente nunca ofereceu ao espectador argumentos suficientes para torcer pela manutenção desse casamento.
Bruna ama obsessivamente. Pedro permanece por responsabilidade. Carmita interfere. Adriana continua presente emocionalmente. E o relacionamento passa a sobreviver graças à fragilidade física de Bruna. É uma combinação destinada ao fracasso.
Por outro lado, existe um risco narrativo: transformar Bruna apenas em obstáculo para Pedro e Adriana seria desperdiçar uma personagem que pode render muito mais.
A separação é inevitável — mas Bruna precisa existir além de Pedro
As informações divulgadas sobre os próximos capítulos confirmam o caminho que a narrativa já vinha preparando. Com a remissão da doença de Bruna, Pedro decide encerrar o casamento, abrindo espaço para assumir definitivamente seus sentimentos por Adriana. É a conclusão lógica dessa relação.
Pedro precisa abandonar a postura de mártir e compreender que permanecer com alguém por pena não representa necessariamente cuidado. Às vezes, cuidar também significa permitir que o outro enfrente a verdade.
Para Bruna, entretanto, a separação deveria representar algo maior. A personagem precisa descobrir quem é sem Pedro.
Esse é o caminho mais interessante para sua trajetória: obrigá-la a enfrentar a influência de Carmita, reconhecer as próprias manipulações e reconstruir sua identidade fora de um relacionamento que se tornou uma obsessão.
Caso contrário, Bruna corre o risco de permanecer limitada à função de antagonista amorosa de Adriana.
Pedro e Bruna mostram o lado mais incômodo de “Quem Ama Cuida”
Existe ainda uma ironia interessante envolvendo o próprio título da novela. Pedro acredita que permanecer ao lado de Bruna durante sua doença significa cuidar. Bruna acredita que impedir Pedro de partir significa preservar seu amor. Carmita acredita que manipular situações significa proteger a filha.
Todos dizem agir, de alguma maneira, em nome do cuidado. Mas cuidado sem liberdade facilmente se transforma em controle. É justamente por isso que Pedro e Bruna funcionam tão bem dramaticamente apesar de funcionarem tão mal como casal.
A relação dos dois representa um amor desequilibrado desde a origem. Bruna ama Pedro de maneira possessiva; Pedro sente responsabilidade por Bruna, mas ama Adriana; Carmita interfere para garantir os interesses da filha; e Adriana permanece como a lembrança permanente daquilo que Pedro realmente deseja.
O fim desse casamento não significa, portanto, a destruição de uma grande história de amor.
Significa apenas admitir uma verdade que Quem Ama Cuida vem mostrando há meses: Pedro e Bruna permaneceram juntos por circunstâncias, culpa e dependência — mas nunca porque conseguiram amar um ao outro na mesma medida.
E talvez a maior prova de amadurecimento para os dois seja justamente entender que nem sempre permanecer significa cuidar. Às vezes, cuidar também é saber partir.
O texto Pedro e Bruna expõem um casamento tóxico em Quem Ama Cuida — e Adriana torna a separação inevitável foi publicado primeiro no Observatório da TV.