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Pesquisadores identificam um comportamento estranho em multidões: “Não esperávamos encontrar isso.”
Pessoas destras e canhotas repetiram o mesmo padrão de movimento
Um movimento anti-horário apareceu repetidamente quando grupos de pessoas foram orientados a caminhar livremente, sem rota definida. O padrão foi observado em experimentos sobre comportamento humano realizados na Espanha e no Japão. Os cientistas ficaram intrigados com a descoberta, pois a preferência se manteve apesar das diferenças culturais, tamanhos de multidões e lateralidade analisados.
Qual foi o comportamento estranho observado nas multidões?
A descoberta ocorreu por acaso durante pesquisas iniciadas no período da pandemia. Os pesquisadores estudavam como pedestres se movimentavam mantendo distância uns dos outros. Ao revisar as gravações, perceberam que, em 32 dos 33 testes iniciais, os participantes apresentaram uma tendência mensurável de caminhar e girar no sentido anti-horário.
O resultado não significa que todas as pessoas começaram a formar um círculo perfeito. A análise das trajetórias mostrou uma inclinação média do grupo para a esquerda ao redor do espaço. Segundo Claudio Feliciani, um dos autores, esperava-se que os voluntários mudassem de direção conforme suas necessidades, sem uma preferência coletiva tão consistente.
Os primeiros experimentos incluíram diferentes condições:
- Grupos com 16, 24 e 32 participantes;
- Pessoas destras e canhotas;
- Voluntários com preferência inicial por virar à direita ou à esquerda;
- Ambientes circulares fechados;
- Espaços abertos sem paredes próximas.

A multidão faz as pessoas girarem para o mesmo lado?
Os cientistas inicialmente consideraram que a convivência dentro do grupo poderia produzir o padrão. Desvios para evitar colisões, imitação dos demais participantes e proximidade das paredes foram algumas das hipóteses investigadas. Entretanto, a tendência anti-horária também apareceu quando mais de cem adolescentes caminharam em um pátio aberto e quando voluntários percorreram o espaço sozinhos. Isso indica que o fenômeno começa no comportamento individual e se torna mais visível nas multidões.
Como Espanha e Japão ajudaram a testar a influência cultural?
Os experimentos foram repetidos no Japão porque os costumes de circulação poderiam alterar o resultado. Na Espanha, pedestres costumam desviar pela direita durante encontros em sentidos opostos. No Japão, a organização do fluxo pode favorecer o lado esquerdo em diferentes situações. Mesmo assim, os participantes japoneses também demonstraram preferência pelo movimento anti-horário.
A equipe realizou cinco campanhas experimentais em ambientes variados. Foram observados adultos, adolescentes e crianças, tanto em grupos quanto individualmente. O estudo, publicado na revista Nature Communications, concluiu que cultura, sexo e tamanho do grupo produziram pouca diferença no padrão geral. Entre os fatores examinados, a idade apresentou a variação mais perceptível, pois as crianças mostraram uma tendência mais forte.
Para encontrar uma explicação, os pesquisadores avaliaram elementos como:
- Mão dominante de cada participante;
- Pé usado com maior facilidade;
- Dominância do olho direito ou esquerdo;
- Preferência demonstrada ao virar diante de uma parede;
- Interação com limites físicos e outros pedestres.

Ser destro ou canhoto explica o movimento anti-horário?
A lateralidade não ofereceu uma resposta convincente. Até grupos formados por participantes canhotos ou por pessoas que haviam demonstrado preferência por virar à direita mantiveram a inclinação anti-horária.
Em outro teste, 209 voluntários caminharam sozinhos para que os cientistas comparassem suas trajetórias com mão, pé e olho dominantes. O viés continuou presente, mas não foi associado de forma clara a nenhuma dessas características.
Por que essa descoberta pode ajudar no planejamento de espaços públicos?
A origem exata do comportamento continua desconhecida. Uma possibilidade considerada pelos autores é a existência de alguma assimetria biomecânica sutil no corpo humano. Como as explicações mais evidentes foram descartadas, novos testes serão necessários para examinar postura, equilíbrio, funcionamento cerebral e controle dos movimentos. Os resultados atuais revelam uma tendência estatística, não uma regra que determina a direção escolhida por cada pessoa.
Compreender esse padrão pode melhorar modelos usados em estações, aeroportos, estádios, corredores e rotas de evacuação. Simulações de multidões geralmente tratam os pedestres como se não tivessem preferência natural por um sentido de rotação. Caso o movimento anti-horário seja confirmado em situações reais, arquitetos e especialistas em dinâmica de pedestres poderão incorporá-lo ao planejamento de fluxos, saídas e áreas de circulação.