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Restavam cerca de 50 aves na serra, mas uma floresta úmida no Nordeste salvou o periquito-cara-suja que hoje ajuda a repovoar outras montanhas

Uma ave ameaçada encontrou abrigo.

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Restavam cerca de 50 aves na serra, mas uma floresta úmida no Nordeste salvou o periquito-cara-suja que hoje ajuda a repovoar outras montanhas
O periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), ave que só existe no Nordeste. / Imagem ilustrativa gerada por IA

Nas serras úmidas do Nordeste, cada fragmento de mata pode ser o último abrigo de uma espécie. Em Guaramiranga, no Maciço de Baturité, a floresta guardou o periquito-cara-suja quando restavam cerca de 50 aves na serra, e hoje é dela que saem os periquitos usados para repovoar outras montanhas da região.

Por que Guaramiranga tem mata úmida no meio do sertão?

Por causa da altitude. A serra funciona como um brejo de altitude, nome dado às montanhas do semiárido onde o relevo elevado segura a umidade e permite a existência de uma mata úmida cercada pela Caatinga, como explica pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (UECE). É essa combinação que produz a neblina das manhãs e as noites frias que surpreendem quem sobe do litoral.

Para proteger esse enclave, o governo estadual criou em 1990 a Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra de Baturité, com cerca de 32,7 mil hectares em nove municípios. Estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) lembra que a serra reúne a maior extensão de remanescentes de Mata Atlântica do estado, parte dela pressionada no passado pelo café plantado em monocultura nas encostas.

Fundada em 1890, a Suíça Cearense surpreende com clima europeu no Nordeste e temperaturas que já baixaram a 10 °C
Guaramiranga, CE, serra de Baturité, revela Festival de Jazz & Blues, Sítio Raniere Macedo e trilhas ecológicas no clima ameno da maior altitude do Ceará a 900m. // Créditos: Wikipédia

Como o periquito-cara-suja escapou da extinção?

Com caixas-ninho instaladas nas árvores. O periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), ave que só existe no Nordeste, é classificado como criticamente ameaçado no plano de ação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A maior ameaça é a captura para o comércio ilegal, que muitas vezes destrói os ocos de árvores onde a ave se reproduz.

A partir de 2006, a ONG Aquasis passou a instalar esses ninhos artificiais na serra, e no início da década de 2010 a estimativa local era de cerca de 50 aves. Dissertação da UFC registrou, entre 2012 e 2016, 116 ninhos nessas caixas, com 786 ovos e 576 filhotes, e mostrou que o sucesso reprodutivo foi maior nos ninhos artificiais do que nos ocos naturais.

Para onde vão os periquitos da serra?

Vão para montanhas de onde a espécie tinha desaparecido. Com a população recuperada, a Serra de Baturité passou a ser a principal população viável do periquito e a fornecer aves para projetos de reintrodução, começando pela Serra da Aratanha, em Pacatuba, na primeira ação desse tipo no Ceará.

O resultado mais simbólico veio em 2026, quando o periquito voltou a se reproduzir no Parque Nacional de Ubajara, na Serra da Ibiapaba, após mais de um século sem registros. Os primeiros exemplares da espécie tinham sido coletados justamente em Baturité, em 1913, e mais de cem anos depois é a mesma serra que ajuda a espalhá-la de novo pelo Nordeste.

O que fazer em Guaramiranga?

O roteiro combina mirantes, mata e cultura em uma cidade pequena, fácil de percorrer em um fim de semana.

1
Pico Alto Com 1.115 metros, é o ponto mais alto do Maciço de Baturité e mostra o contraste entre a mata e o sertão.
2
Trilhas da APA Caminhadas pela mata úmida, onde vivem aves raras da serra, incluindo o periquito-cara-suja.
3
Café sombreado Sítios da serra cultivam café à sombra da mata, modelo que concilia produção e conservação.
4
Festival de Jazz & Blues No Carnaval, a cidade troca os trios elétricos por shows de jazz e blues em palcos ao ar livre.

Qual a melhor época para visitar Guaramiranga?

A chuva se concentra entre março e abril, com cerca de 200 mm por mês, e quase desaparece de agosto a novembro, quando a média mensal fica abaixo de 10 mm. As temperaturas da serra são mais baixas do que as das cidades ao redor, e as noites frias são parte da experiência.

☀️ Verão Dez-Fev
Chuva: 34-133 mm/mês
Nível: Média
Festival de Jazz & Blues no Carnaval.
🍂 Outono Mar-Mai
Chuva: 93-199 mm/mês
Nível: Alta
Mata no auge do verde e neblina nas manhãs.
❄️ Inverno Jun-Ago
Chuva: 7-43 mm/mês
Nível: Baixa
Noites frias e trilhas com tempo firme.
🌸 Primavera Set-Nov
Chuva: 3-9 mm/mês
Nível: Muito baixa
Céu limpo para a vista do Pico Alto.
💡 Dica do especialista: de junho a novembro a estrada e as trilhas ficam mais secas, e o céu limpo favorece os mirantes. Leve agasalho mesmo no calor do litoral, porque as noites na serra são frias.

Chuva média mensal com base no Climatempo. As temperaturas foram omitidas porque a série regional não reflete o clima de altitude da serra. Condições podem variar.

O clima em Guaramiranga é sempre mais ameno que na capital,
Em Guaramiranga, prove tapioca serrana, trilhe cachoeiras suaves e curta festival com brisa fresca no clima acolhedor da serra cearense tranquila e musical. // Créditos: Wikipédia

Como chegar a Guaramiranga?

A cidade fica a cerca de 105 km de Fortaleza, e o acesso principal é pela CE-060, passando por Baturité. O trecho final sobe a serra em curvas no meio da mata, e a mudança de vegetação e temperatura é perceptível durante a subida.

Como o Maciço reúne várias cidades próximas, vale combinar a visita com Pacoti e Mulungu, vizinhas também incluídas na APA.

Leia também: O ano de 1984 explica como a cidade do café vira Capital Nacional da Tecnologia no interior paulista.

A serra que guarda uma floresta e uma segunda chance

Guaramiranga mostra que uma ilha de mata no meio do sertão pode ter um papel muito maior do que o seu tamanho sugere. Ali, uma ave quase extinta encontrou abrigo e hoje parte para repovoar outras serras do Nordeste.

Você precisa conhecer Guaramiranga e ouvir, entre a neblina da manhã, o canto de quem resistiu na serra.