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SBT completa 45 anos: entre a força da nostalgia e o desafio de reinventar o futuro

Emissora fundada por Silvio Santos construiu uma das histórias mais marcantes da televisão brasileira, mas precisa encontrar um novo caminho para voltar a ser protagonista

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Crítica SBT 45 anos

No dia 19 de agosto de 1981, Silvio Santos inaugurava oficialmente o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Quarenta e cinco anos depois, a emissora ocupa um lugar que poucas empresas de comunicação conseguiram conquistar: tornou-se muito mais do que um canal de televisão. Para milhões de brasileiros, o SBT representa uma memória afetiva, um símbolo da infância, da adolescência e da convivência em família.

Ao longo de sua trajetória, a emissora revelou artistas, lançou formatos inovadores, popularizou novelas mexicanas, transformou programas de auditório em fenômenos nacionais e criou uma identidade própria que jamais foi confundida com a de qualquer concorrente. O problema é que uma história grandiosa, por si só, não garante um futuro igualmente grandioso.

Hoje, o maior desafio do SBT não é preservar seu passado. É provar que ainda consegue escrever novos capítulos relevantes.

A emissora que ousou fazer televisão diferente

Desde sua fundação, Silvio Santos deixou claro que o SBT não tentaria copiar a Globo. A proposta era oferecer uma televisão popular, simples, acessível e voltada para toda a família.

Foi dessa filosofia que nasceram marcas históricas como Programa Silvio Santos, Domingo Legal, Show do Milhão, Casa dos Artistas, Fantasia, Bom Dia & Cia, Passa ou Repassa, Viva a Noite, Topa Tudo por Dinheiro, Hebe, A Praça é Nossa, além das novelas mexicanas e o seriado Chaves que ajudaram a formar gerações de telespectadores.

Mesmo quando possuía menos recursos financeiros que seus concorrentes, o SBT compensava essa limitação com criatividade, espontaneidade e personalidade. A emissora tinha identidade. O público sabia exatamente o que encontraria ao ligar a televisão. Essa talvez tenha sido sua maior virtude.

O auge que virou referência

Os anos 1990 e o início dos anos 2000 representam, para muitos especialistas em televisão, o período mais brilhante da história do SBT. Foi quando a emissora alcançou resultados históricos de audiência, enfrentou a Globo em diversos horários e protagonizou momentos que entraram para a cultura popular brasileira.

A final da primeira edição de Casa dos Artistas tornou-se um dos maiores acontecimentos da televisão nacional. O Domingo Legal de Gugu Liberato frequentemente ameaçava a liderança dominical. Chiquititas transformou-se em fenômeno entre crianças e adolescentes. As novelas mexicanas consolidaram uma faixa praticamente imbatível. O Show do Milhão virou assunto nacional e mudou a forma como programas de perguntas e respostas eram produzidos no país.

Mais importante do que os números, o SBT criava acontecimentos. Seus programas extrapolavam a televisão e passavam a fazer parte das conversas do dia seguinte nas escolas, nos escritórios e nas ruas. Era uma emissora que surpreendia.

A nostalgia não pode ser estratégia

Talvez nenhum canal brasileiro desperte tanta nostalgia quanto o SBT. Basta observar as redes sociais para perceber que grande parte do público recorda com carinho programas antigos, vinhetas, chamadas, apresentadores e até intervalos comerciais.

Essa memória afetiva é um patrimônio valioso. Mas também pode se tornar uma armadilha.

Nos últimos anos, a emissora passou a recorrer frequentemente ao próprio passado como principal ativo de comunicação. Especiais comemorativos, reprises, quadros clássicos e homenagens funcionam muito bem para reforçar a identidade da marca, mas dificilmente são suficientes para reconquistar relevância de forma permanente.

A televisão vive de novidade. O público pode até voltar para rever uma lembrança, mas permanece quando encontra algo novo que desperte interesse. É justamente aí que o SBT ainda parece enfrentar sua maior dificuldade.

A televisão mudou. O público também.

Durante décadas, disputar audiência significava enfrentar Globo, Record e Band. Hoje, a concorrência é muito maior. Netflix, Prime Video, Disney+, Max, YouTube, TikTok, Instagram e diversas outras plataformas disputam o mesmo tempo disponível do espectador.

Nesse cenário, não basta produzir uma boa programação linear. É preciso pensar em conteúdos que circulem entre diferentes plataformas, gerem repercussão digital e dialoguem com novas formas de consumo.

O telespectador deixou de ser apenas espectador. Agora comenta, compartilha, produz conteúdo e influencia outros usuários. Essa transformação exige velocidade, planejamento e inovação constantes.

É uma realidade que atinge todas as emissoras, mas pesa ainda mais sobre aquelas que enfrentam limitações orçamentárias e dificuldades para investir em grandes produções.

O vazio deixado por Silvio Santos

A morte de Silvio Santos encerrou um dos capítulos mais importantes da comunicação brasileira. Sua presença transcendia a função de apresentador. Ele era empresário, estrategista, diretor artístico e, muitas vezes, o principal responsável pelas decisões que definiam os rumos da emissora.

Naturalmente, sua ausência criou um enorme desafio. Não porque seja impossível substituir um líder — afinal, nenhuma empresa pode depender eternamente de uma única pessoa —, mas porque a sucessão exige algo além da preservação de um legado. É preciso reinterpretá-lo.

A administração da família Abravanel tem demonstrado preocupação em preservar os valores construídos por Silvio, o que é compreensível e até desejável. Entretanto, preservar não significa congelar.

O maior ensinamento deixado pelo fundador talvez tenha sido justamente a capacidade de mudar. Ao longo de décadas, Silvio reformulou programas, alterou grades de programação, assumiu riscos e lançou formatos inéditos sempre que acreditava ser necessário.

Paradoxalmente, honrar seu legado pode significar fazer exatamente aquilo que ele mais gostava: experimentar.

Crise de audiência, criatividade e posicionamento

Os últimos anos evidenciaram dificuldades em diferentes áreas. A audiência caiu para patamares inéditos em diversos horários, o mercado publicitário tornou-se mais competitivo, investimentos passaram a ser mais seletivos e a programação frequentemente transmitiu a sensação de constante reconstrução.

Mudanças sucessivas de grade, estreias interrompidas rapidamente e reposicionamentos frequentes dificultaram a consolidação de uma identidade clara. Mais do que uma crise de audiência, o SBT vive uma crise de posicionamento.

O telespectador precisa compreender novamente qual é a proposta da emissora. Essa resposta não será encontrada apenas na nostalgia. Será construída por meio de novos programas, talentos, formatos e narrativas capazes de dialogar com o Brasil de 2026 e do futuro.

Ainda existe espaço para um novo ciclo

Seria precipitado afirmar que o SBT perdeu definitivamente sua relevância. A marca continua entre as mais reconhecidas da televisão brasileira. Seu acervo é valioso.

Possui tradição no entretenimento familiar, no jornalismo popular, nos programas de auditório e na dramaturgia voltada ao grande público. Além disso, conserva uma relação emocional rara com diferentes gerações de brasileiros.

Poucas emissoras partem desse patrimônio. Mas patrimônio precisa ser transformado em projeto.

O futuro do SBT depende menos de recuperar fórmulas antigas e mais de descobrir quais serão os novos sucessos que, daqui a vinte anos, despertarão a mesma nostalgia que hoje cerca programas como Show do Milhão, Bom Dia & Cia ou Casa dos Artistas.

Um legado que merece continuar

Os 45 anos do SBT representam uma oportunidade de reflexão. Celebrar a trajetória construída por Silvio Santos é reconhecer uma das contribuições mais importantes para a história da televisão brasileira. Seu espírito empreendedor, a capacidade de dialogar com diferentes públicos e a coragem para inovar ajudaram a moldar o entretenimento nacional.

Mas a maior homenagem que a emissora pode prestar ao seu fundador não é viver eternamente das lembranças de uma era dourada. É construir uma nova. A televisão brasileira ainda precisa de um SBT forte, criativo e competitivo. Não apenas por tradição, mas porque diversidade de ideias, estilos e modelos de programação fortalece todo o mercado.

Os próximos 45 anos não serão escritos pelas reprises que emocionam hoje, e sim pelas decisões tomadas agora. O passado garante respeito. O presente exige coragem. E o futuro dependerá da capacidade de transformar um legado histórico em uma emissora novamente indispensável para as novas gerações de espectadores.

O texto SBT completa 45 anos: entre a força da nostalgia e o desafio de reinventar o futuro foi publicado primeiro no Observatório da TV.