Entretenimento
SBT cresce com a Copa do Mundo, mas enfrenta seu maior desafio: transformar audiência em público fiel
Emissora conquista homens, jovens e telespectadores de maior poder aquisitivo durante o Mundial, mas precisará de estratégia para manter esse novo público após o fim da competição
A Copa do Mundo de 2026 pode representar muito mais do que um grande evento esportivo para o SBT. Além dos expressivos índices de audiência conquistados com as transmissões dos jogos, especialmente os da Seleção Brasileira, a emissora de Silvio Santos vive um momento raro: atraiu um perfil de telespectador diferente daquele que tradicionalmente acompanha sua programação.
Dados de audiência divulgados pelo Ibope mostram que os jogos têm levado ao canal um público predominantemente masculino, mais jovem e de maior poder aquisitivo — exatamente o perfil mais disputado pelas emissoras e pelo mercado anunciante. O reflexo não aparece apenas durante as partidas, mas também nos programas exibidos imediatamente antes e depois das transmissões, que passaram a registrar crescimento significativo.
Esse cenário reacende uma pergunta estratégica que vai muito além dos números da Copa: o SBT conseguirá transformar espectadores ocasionais em telespectadores permanentes?
A Copa entregou algo que dinheiro nenhum compra
Em televisão aberta, comprar direitos esportivos sempre foi uma aposta de longo prazo. Os jogos garantem audiência, valorizam a marca da emissora e oferecem enorme visibilidade comercial. Mas existe um benefício ainda mais importante: apresentar a programação da casa para pessoas que normalmente nem sequer sintonizam aquele canal.
É exatamente isso que está acontecendo. Nos últimos meses, o SBT vinha registrando médias mensais na casa de 2 pontos no Painel Nacional de Televisão (PNT), desempenho que o mantinha distante da Globo e próximo da disputa pela vice-liderança com a Record. Com a Copa do Mundo, porém, esse cenário mudou de maneira significativa.
As transmissões impulsionaram a média diária da emissora e criaram a possibilidade de o canal encerrar junho praticamente dobrando seu desempenho habitual no PNT — um crescimento raro na televisão aberta atual.
Mais importante que isso é o perfil desse crescimento. Não se trata apenas de mais gente assistindo, mas de um público que historicamente esteve distante do SBT.
O verdadeiro teste começa quando o juiz apitar o fim da Copa
O problema é que audiência emprestada não significa fidelidade. Historicamente, grandes eventos esportivos elevam temporariamente os índices das emissoras, mas boa parte desse público desaparece quando o torneio termina.
Foi assim em diversas Copas do Mundo, Olimpíadas e grandes campeonatos transmitidos pela TV aberta. O desafio do SBT, portanto, não será comemorar os excelentes números de junho. Será impedir que julho represente uma brusca volta à realidade. Se nada for feito, a tendência natural é que parte considerável desse novo público simplesmente retorne aos hábitos anteriores.
A programação precisará conversar com esse novo telespectador
Talvez esse seja o maior aprendizado da Copa. Durante décadas, o SBT consolidou sua identidade com forte apelo familiar, programação popular, auditórios, novelas, humor e entretenimento. Esse DNA continua sendo importante.
Mas a Copa mostrou que existe espaço para ampliar esse posicionamento. O homem jovem que passou a assistir aos jogos dificilmente permanecerá apenas por fidelidade à marca. Ele precisa encontrar motivos para voltar.
Isso significa investir em programas esportivos competitivos, jornalismo forte, transmissões especiais, formatos de entretenimento mais modernos e conteúdos capazes de dialogar também com esse público recém-conquistado. Não basta esperar que ele permaneça por inércia.
O efeito pode beneficiar toda a grade
Um aspecto interessante observado durante o Mundial é o chamado efeito de arraste. Programas exibidos antes dos jogos passaram a receber mais público na reta final de sua exibição. Já atrações que entram logo após as partidas também conseguiram reter parte dessa audiência, algo extremamente valioso para qualquer emissora.
Esse fenômeno demonstra que a Copa não fortalece apenas o futebol. Ela cria oportunidades para apresentar outros produtos da casa. A questão passa a ser: esses programas são suficientemente fortes para convencer o telespectador a voltar no dia seguinte? Essa resposta ainda não existe.
O mercado publicitário também está observando
Outro ganho importante acontece longe do controle remoto. Audiência qualificada costuma atrair anunciantes igualmente qualificados. Homens jovens das classes A e B representam um dos segmentos mais valorizados pelo mercado.
Se o SBT conseguir provar que esse crescimento não foi apenas circunstancial, poderá fortalecer negociações comerciais muito além da Copa. Caso contrário, anunciantes também tendem a reduzir investimentos assim que os índices voltarem aos patamares anteriores.
Em outras palavras, a retenção desse público possui impacto direto no faturamento futuro da emissora.
A disputa com a Record ganha um novo capítulo
Durante boa parte dos últimos anos, SBT e Record alternaram posições na disputa pela vice-liderança nacional. A Copa tornou essa concorrência ainda mais interessante.
Caso junho realmente seja encerrado com média próxima do dobro daquela registrada nos meses anteriores, o SBT ganhará argumentos para mostrar ao mercado que ainda possui enorme capacidade de reação quando dispõe de um produto competitivo.
Entretanto, a consolidação dessa recuperação dependerá menos do futebol e mais da programação dos próximos meses. A Copa pode abrir a porta. Quem decide permanecer ou sair será o próprio telespectador.
Análise
A Copa do Mundo ofereceu ao SBT algo extremamente raro na televisão contemporânea: a oportunidade de reposicionar sua marca diante de um público que tradicionalmente consumia outros canais e outras plataformas.
Os excelentes índices de audiência são motivo de comemoração, mas representam apenas a primeira etapa de um processo muito maior.
O verdadeiro legado do Mundial será medido não pelos recordes alcançados durante os jogos, mas pelos números registrados nas semanas seguintes.
Se conseguir transformar espectadores ocasionais em público habitual, o investimento terá produzido um efeito estrutural para a emissora.
Caso contrário, a Copa terá sido apenas um grande evento de audiência passageira — extremamente rentável, altamente relevante, mas incapaz de alterar de forma permanente a posição do SBT no mercado da televisão aberta.
É justamente nesse ponto que reside o maior desafio da emissora: provar que o sucesso do futebol pode ser o começo de uma nova fase, e não apenas um intervalo entre duas realidades.
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