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Segundo a psicologia, conferir as horas no celular em vez de olhar para um relógio pode mudar a forma como atenção, memória e percepção do tempo se combinam

Conferir as horas no celular coloca a informação do tempo em meio a notificações, mensagens e outros estímulos

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Segundo a psicologia, conferir as horas no celular em vez de olhar para um relógio pode mudar a forma como atenção, memória e percepção do tempo se combinam
Uma consulta rápida ao horário pode se transformar em vários minutos de interação com o smartphone

Olhar para o pulso e desbloquear o celular parecem duas maneiras equivalentes de descobrir as horas, mas o contexto cognitivo é diferente. Um relógio oferece praticamente apenas uma informação temporal, enquanto o smartphone coloca horário, mensagens, notificações e aplicativos na mesma tela. Segundo pesquisas sobre percepção do tempo, essa diferença pode influenciar quando prestamos atenção às horas, como registramos determinados momentos na memória e quais estímulos disputam nossa atenção.

Por que olhar as horas no celular é diferente de consultar um relógio?

Em julgamentos feitos enquanto a experiência acontece, dedicar mais atenção ao tempo pode modificar a duração percebida, como discute revisão publicada na Attention, Perception, & Psychophysics. No celular, descobrir que são 15h20 pode acontecer ao mesmo tempo em que aparece uma mensagem, uma notificação de rede social ou um e-mail pendente.

Essa diferença cria ambientes de atenção distintos. Entre os elementos que podem aparecer durante uma simples consulta ao celular estão:

  • Notificações recebidas desde a última consulta;
  • Mensagens ainda não respondidas;
  • Ícones indicando novas atividades;
  • Lembretes e compromissos do calendário;
  • Aplicativos capazes de desviar a atenção do objetivo original.

O que a atenção tem a ver com a sensação de que o tempo passou rápido ou devagar?

O tempo medido pelo relógio permanece igual, mas a experiência subjetiva pode variar bastante. Cinco minutos esperando uma resposta importante podem parecer longos, enquanto os mesmos cinco minutos envolvidos em uma conversa interessante podem passar quase despercebidos.

Modelos de cognição temporal consideram a atenção um dos componentes importantes dessa experiência. Quando alguém está concentrado na passagem do tempo, percebe mais pistas temporais. Quando a atenção é direcionada a outra tarefa, o acompanhamento consciente dos minutos pode diminuir.

O celular facilita justamente essa mudança. A pessoa pode pegá-lo apenas para conferir as horas e, segundos depois, estar respondendo a uma mensagem. O horário foi visto, mas a ação também abriu uma nova sequência de estímulos.

Segundo a psicologia, conferir as horas no celular em vez de olhar para um relógio pode mudar a forma como atenção, memória e percepção do tempo se combinam
Uma consulta rápida ao horário pode se transformar em vários minutos de interação com o smartphone

Por que o celular pode transformar o horário em momentos mais fragmentados?

Um relógio de pulso permanece disponível continuamente. Basta movimentar o braço para saber as horas. Quem depende exclusivamente do smartphone costuma entrar em contato com o horário em consultas específicas: 9h15, depois 10h03, mais tarde 11h40.

Essas consultas podem funcionar como pequenos marcos temporais na memória. Situações comuns incluem:

  • Lembrar que uma tarefa começou quando o celular marcava determinado horário;
  • Perceber de repente que uma hora inteira já passou;
  • Associar uma mensagem recebida ao momento em que as horas foram consultadas;
  • Usar alarmes e notificações como referências para organizar o dia;
  • Reconstruir posteriormente uma sequência de acontecimentos a partir desses horários.

Memória também interfere na maneira como sentimos a duração?

Sim. Quando avaliamos quanto tempo uma experiência parece ter durado, nem sempre estamos acompanhando cada minuto enquanto ela acontece. Muitas vezes, reconstruímos posteriormente o período usando aquilo que conseguimos lembrar.

Uma tarde cheia de acontecimentos diferentes pode deixar muitos pontos de referência na memória. Já um período repetitivo pode produzir menos acontecimentos distintos para recordar. Por isso, percepção, atenção e memória trabalham juntas quando tentamos avaliar a duração de uma experiência.

O smartphone acrescenta mais referências possíveis a esse processo porque reúne horário, fotografias, mensagens, compromissos e notificações. Isso não significa que ele necessariamente faça o tempo parecer mais rápido ou mais lento, mas que o horário passa a aparecer dentro de um ambiente muito mais carregado de informações.

Segundo a psicologia, conferir as horas no celular em vez de olhar para um relógio pode mudar a forma como atenção, memória e percepção do tempo se combinam
Uma consulta rápida ao horário pode se transformar em vários minutos de interação com o smartphone

Conferir as horas no celular pode virar um comportamento automático?

Pode. Depois de repetir a mesma ação muitas vezes, a dúvida sobre o horário pode funcionar como um gatilho para pegar o aparelho quase sem reflexão consciente. A pessoa sente que não sabe que horas são e, automaticamente, procura o celular.

Com o tempo, outros gatilhos também podem participar desse hábito:

  • Terminar determinada tarefa;
  • Esperar alguém chegar;
  • Ficar alguns minutos sem atividade;
  • Ouvir uma notificação;
  • Preparar-se para sair de casa.

O detalhe é que o mesmo aparelho usado para responder à pergunta “que horas são?” oferece imediatamente inúmeras outras possibilidades. Assim, uma consulta de poucos segundos pode se transformar em vários minutos de interação, sem que isso estivesse planejado inicialmente.

Isso significa que quem usa celular tem uma percepção de tempo pior?

Não. A psicologia não estabelece um perfil segundo o qual pessoas que consultam o smartphone seriam necessariamente mais distraídas, menos pontuais ou incapazes de estimar o tempo corretamente. Alguém pode usar o celular simplesmente porque não gosta de relógios ou porque considera desnecessário carregar dois dispositivos.

A diferença mais interessante está nas pistas que cercam o horário. O relógio oferece um sinal dedicado; o smartphone entrega esse mesmo sinal dentro de um ambiente repleto de informações concorrentes. Portanto, não é o tempo que muda quando alguém troca o pulso pela tela. O que muda é o contexto em que o cérebro encontra aquela informação e a maneira como atenção, hábito e memória podem se organizar ao redor dela.