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Segundo a psicologia, os sonhos aleatórios não surgem por acaso e podem fazer parte da maneira como o cérebro “reescreve” a realidade durante o sono
Psicologia mostra como o cérebro transforma memórias e experiências em sonhos aparentemente aleatórios
Os sonhos que parecem misturar pessoas conhecidas, lugares impossíveis e acontecimentos sem lógica podem não ser apenas imagens aleatórias produzidas durante o sono. Pesquisas em psicologia do sono indicam que o cérebro combina memórias, experiências recentes, imaginação e características individuais para construir novos cenários. Em vez de simplesmente reproduzir o dia, a mente reorganiza elementos da realidade e cria narrativas próprias.
Por que os sonhos parecem tão aleatórios durante a noite?
Um sonho pode começar em uma casa conhecida, continuar em uma cidade nunca visitada e terminar com pessoas de fases completamente diferentes da vida. Essa aparente falta de lógica ocorre porque o cérebro não precisa reconstruir uma lembrança exatamente como aconteceu. Fragmentos de memória podem ser combinados com expectativas, emoções e elementos imaginados.
Um estudo realizado por pesquisadores da IMT School for Advanced Studies Lucca analisou mais de 3.700 relatos de sonhos e experiências da vida desperta de 287 participantes. Os resultados reforçaram a ideia de que o cérebro reorganiza a realidade durante o sono, criando situações novas a partir de materiais já presentes na experiência individual, como mostra a publicação na Communications Psychology.
Como as experiências do dia aparecem nos sonhos?
Os acontecimentos cotidianos podem fornecer parte da matéria-prima usada na construção dos sonhos. Isso não significa que aquilo vivido durante o dia será reproduzido como um filme. Um lugar conhecido pode aparecer modificado, uma conversa pode surgir em outro contexto e uma preocupação pode ser representada de maneira completamente diferente.
Entre os elementos que podem reaparecer de forma reorganizada estão:
- Pessoas encontradas recentemente;
- Lugares conhecidos ou visitados com frequência;
- Preocupações presentes durante o dia;
- Memórias de períodos antigos da vida;
- Expectativas relacionadas ao futuro;
- Imagens criadas pela própria imaginação.

Por que algumas pessoas têm sonhos mais fragmentados do que outras?
Nem todas as pessoas constroem narrativas oníricas da mesma maneira. A pesquisa observou uma relação entre determinados hábitos de pensamento durante a vigília e a estrutura dos sonhos. Participantes com maior tendência a deixar a mente vagar e entrar em devaneios apresentaram relatos mais fragmentados, com mudanças rápidas entre cenários e ideias.
Já pessoas que atribuíam maior significado aos próprios sonhos relataram experiências mais vívidas e envolventes. Isso não significa que acreditar em sonhos altere necessariamente o funcionamento cerebral. O resultado mostra uma associação entre características individuais, percepção das experiências noturnas e maneira como elas são lembradas e descritas.
Grandes acontecimentos também conseguem entrar nos sonhos?
Experiências coletivas podem influenciar o conteúdo onírico. Pesquisadores compararam relatos registrados durante períodos de confinamento da pandemia de Covid-19 e encontraram temas relacionados a restrição, isolamento e limitação de movimentos. À medida que as pessoas se adaptavam às novas condições, esses padrões também mudavam.
Isso ajuda a mostrar que os sonhos acompanham aquilo que ocupa espaço na experiência emocional e cotidiana. Alguns temas podem aparecer de maneira direta, enquanto outros são transformados em situações muito diferentes:
- Preocupações podem aparecer como situações de ameaça;
- Mudanças de rotina podem transformar os cenários dos sonhos;
- Relações importantes podem surgir em contextos imaginários;
- Experiências marcantes podem retornar misturadas a memórias antigas;
- Eventos coletivos podem deixar temas recorrentes nos relatos noturnos.

O cérebro usa os sonhos para reorganizar memórias?
O sono participa de processos importantes ligados à memória, mas isso não significa que cada sonho possua uma mensagem escondida ou uma interpretação específica. Durante diferentes fases do sono, redes cerebrais envolvidas em lembranças, emoções e associações continuam ativas. Esse funcionamento cria condições para que informações recentemente adquiridas encontrem elementos armazenados anteriormente.
Por isso, a expressão “reescrever a realidade” funciona melhor como uma metáfora. O cérebro não altera aquilo que realmente aconteceu. Ele recombina experiências, produz associações e constrói cenas que podem se afastar bastante da realidade original. É justamente essa liberdade que permite encontrar, em um mesmo sonho, lembranças verdadeiras e acontecimentos que nunca existiram.
O que os sonhos revelam sobre a maneira como a mente funciona?
Os sonhos mostram que a mente adormecida não funciona simplesmente como uma câmera reproduzindo acontecimentos registrados durante o dia. Memória, imaginação, experiências recentes e características pessoais podem se encontrar em combinações novas, explicando por que alguns sonhos parecem extremamente realistas, enquanto outros mudam de cenário sem qualquer transição aparente.
Essa perspectiva também ajuda a abandonar a ideia de que todo sonho aparentemente absurdo é apenas ruído sem relação com a vida desperta. Mesmo quando a história parece impossível, seus componentes podem ter sido retirados de experiências, lembranças e pensamentos reais. Durante o sono, o cérebro não precisa respeitar a lógica do mundo acordado e ganha liberdade para reorganizar esses fragmentos em uma realidade temporária criada pela própria mente.