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Segundo a psicologia, sentir irritação extrema com o barulho da respiração ou mastigação alheia não é simplesmente mau humor, mas uma condição neurológica que ativa respostas de alerta no cérebro
A irritação extrema com sons cotidianos pode ter relação com uma condição neurológica.
Existe quem consegue ficar em silêncio absoluto ao lado de alguém tomando sopa. E existe quem, depois de dez segundos ouvindo o barulho da colher raspando o prato do parceiro, sente vontade genuína de sair do restaurante e nunca mais voltar. Essa reação forte a barulhos aparentemente banais tem nome médico: misofonia. E, ao contrário do que quase todo mundo pensa, não é frescura nem gênio ruim, segundo a psicologia.
Aquela cena da mesa de jantar que arrebenta com o clima
Todo mundo já viveu, de um lado ou de outro. Uma pessoa mastiga com a boca fechada, respira pelo nariz, faz tudo dentro do combinado, e ainda assim outra pessoa da mesa começa a ficar tensa. Primeiro fecha os olhos. Depois pousa os talheres. Depois inventa uma desculpa para se afastar. Não é birra: o corpo dela travou de verdade num sinal de alerta que ela mesma não consegue explicar.
Essa situação corriqueira, que estraga jantar de família, prova de faculdade e reunião de trabalho, é o retrato típico de quem tem misofonia. Quem não sofre olha e acha exagero. Quem sofre passa a vida se sentindo culpado por reagir “demais” a sons que teoricamente ninguém deveria ouvir.

O que a ciência descobriu sobre essa reação exagerada?
O termo misofonia foi cunhado no ano 2000 pelos otorrinolaringologistas americanos Pawel e Margaret Jastreboff, e vem do grego “ódio ao som”. A definição atual é bem específica: um transtorno neurológico caracterizado por intolerância intensa a determinados sons cotidianos, geralmente feitos pelo corpo de outra pessoa, como mastigar, respirar, engolir, pigarrear ou estalar os lábios.
Estudos de imagem cerebral publicados nos últimos anos ajudaram a entender o mecanismo. Segundo Tanit Ganz Sanchez, professora de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP, a misofonia envolve uma hiperativação do sistema límbico, a região do cérebro que processa emoções. É como se o córtex auditivo, ao registrar aquele barulho específico, disparasse direto a amígdala, uma estrutura ligada ao medo e à resposta de luta ou fuga.
Os traços mais comuns descritos pela literatura clínica:
Como diferenciar misofonia de simples impaciência com barulho?
Nem toda irritação com som repetitivo é misofonia. Muita gente se incomoda com pinga d’água ou colega batendo caneta na mesa sem ter a condição. A diferença está na intensidade da reação, na especificidade dos gatilhos e no prejuízo real que isso causa na vida da pessoa. Comparando:
| Aspecto | Irritação comum | Misofonia |
|---|---|---|
| Intensidade O que a pessoa sente | Chateação passageira | Raiva ou pânico intensos |
| Controle Consegue relevar? | Sim, com esforço mínimo | Reação involuntária |
| Reação corporal O que acontece no corpo | Nenhuma resposta física clara | Coração acelerado, músculos tensos |
| Impacto na vida Rotina afetada? | Praticamente nenhum | Evitação de eventos sociais |
| Reconhecimento clínico Base neurológica | Traço de personalidade | Condição descrita na literatura |
Existe tratamento ou pelo menos alívio para quem sofre?
A misofonia ainda não tem cura documentada na literatura médica, e nem sequer figura oficialmente nos manuais diagnósticos internacionais como o DSM-5. Isso não impede que existam caminhos de manejo já testados em consultório e com resultado positivo para parte dos pacientes. A terapia cognitivo-comportamental costuma ser a primeira linha, ajudando a pessoa a identificar gatilhos, entender a resposta automática do corpo e treinar formas mais gentis de sair da situação.
Outros recursos que aparecem com frequência: uso de fones com ruído branco para atenuar os sons gatilho, estimulação sonora terapêutica prescrita por otorrinolaringologista, meditação, e em alguns casos medicamentos indicados por psiquiatra. Se você se reconheceu ao ler este texto, procure um profissional de saúde mental ou um otorrino. Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação clínica personalizada, que continua sendo o único caminho seguro para separar hipersensibilidade a som de outros quadros parecidos e definir a melhor conduta.