Entretenimento
Tatá Werneck surpreende como Brigitte em Quem Ama Cuida, mas ainda carrega fantasmas de personagens anteriores
Atriz entrega sua personagem mais complexa na dramaturgia, mas a recepção do público revela os desafios de romper com uma imagem construída ao longo de mais de uma década de carreira
Desde a estreia de Quem Ama Cuida, uma das personagens que mais provocam debate entre os telespectadores é Brigitte, interpretada por Tatá Werneck. Entre elogios, críticas e discussões nas redes sociais, a atuação da atriz acabou se tornando um dos assuntos mais comentados da novela das nove.
E isso não acontece por acaso.
Brigitte é uma personagem que vive uma carência afetiva profunda, desenvolvida a partir de uma relação traumática com a mãe, Pilar, vivida por Isabel Teixeira. Seu comportamento obsessivo, impulsivo e muitas vezes desconfortável gerou interpretações divergentes do público. Enquanto parte dos espectadores enxerga humor em suas atitudes, a própria Tatá já esclareceu que a personagem foi concebida como uma figura dramática e emocionalmente fragilizada, não como integrante do núcleo cômico da novela.
O maior desafio: fazer o público esquecer a Tatá Werneck
O principal obstáculo enfrentado pela atriz não está na composição da personagem, mas na própria imagem que construiu ao longo da carreira.
Desde papéis como Valdirene, em Amor à Vida, até personagens em produções como Haja Coração e Deus Salve o Rei, Tatá consolidou um estilo muito próprio: fala acelerada, timing cômico afiado, expressões exageradas e um carisma quase impossível de dissociar da pessoa pública.
Por isso, quando Brigitte surge em cena perseguindo ex-namorados, criando perfis falsos ou vivendo situações constrangedoras, muitos espectadores automaticamente interpretam essas cenas como humorísticas, mesmo quando o texto propõe algo mais sombrio. A repercussão nas redes mostra justamente esse conflito: uma parcela do público considera que a atriz repete personagens anteriores, enquanto outra entende que o problema está na dificuldade de separar a comediante da atriz dramática.
Uma evolução evidente como atriz
Comparando Brigitte com personagens anteriores, é possível afirmar que existe, sim, uma evolução clara no trabalho de Tatá Werneck.
Em muitos de seus papéis passados, o humor era o motor principal da construção dramática. A personagem existia para gerar alívio cômico, arrancar risadas e movimentar cenas leves.
Com Brigitte, a lógica é inversa.
O humor surge como consequência da personalidade da personagem, mas não é sua finalidade narrativa. Há uma tristeza permanente por trás dos gestos impulsivos, uma fragilidade emocional que Tatá vem explorando com mais sutileza do que em trabalhos anteriores. A atriz demonstra maior controle de pausas, olhares e silêncios, elementos que raramente eram exigidos em seus personagens mais caricatos.
Talvez não seja uma atuação revolucionária, mas certamente é uma atuação mais madura.
O problema está no texto ou na interpretação?
Essa é uma questão que divide os telespectadores.
Alguns comentários nas redes apontam que Brigitte parece estar presa entre dois universos: dramática demais para ser uma personagem cômica e cômica demais para ser levada totalmente a sério.
E há mérito nessa observação.
A impressão é que os autores querem discutir temas delicados, como dependência emocional, abandono afetivo e obsessão amorosa, mas sem abrir mão das características que transformaram Tatá Werneck em um fenômeno popular. O resultado é uma personagem híbrida, que em alguns momentos funciona brilhantemente e em outros parece não encontrar seu tom definitivo.
Ainda assim, responsabilizar apenas a atriz seria injusto.
A construção de Brigitte depende diretamente do texto, da direção e da forma como a novela escolhe enquadrar suas ações.
Veredito
Tatá Werneck entrega em Quem Ama Cuida uma de suas interpretações mais interessantes na dramaturgia. Não porque seja sua melhor atuação de todos os tempos, mas porque representa uma tentativa legítima de expansão artística.
Brigitte não rompe completamente com os arquétipos que consagraram a atriz, mas apresenta novas camadas emocionais que demonstram amadurecimento e coragem para sair da zona de conforto.
A recepção dividida do público talvez seja justamente a prova de que a personagem está provocando algo além do riso fácil. E isso, para uma atriz frequentemente associada apenas à comédia, já representa um avanço significativo.
O texto Tatá Werneck surpreende como Brigitte em Quem Ama Cuida, mas ainda carrega fantasmas de personagens anteriores foi publicado primeiro no Observatório da TV.