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Um sanduíche famoso e uma bacia geológica de 370 mil km² compartilham o nome de uma cidade do interior paulista

Muito além do lanche famoso.

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Um sanduíche famoso e uma bacia geológica de 370 mil km² compartilham o nome de uma cidade do interior paulista
Bauru é um caso raro de cidade cujo nome circula muito além de seus limites. / Imagem ilustrativa

Algumas cidades ficam conhecidas pelo que produzem, outras pelo nome que acabam espalhando pelo país. Bauru, no centro-oeste paulista, batizou um sanduíche criado a mais de 300 km dali e também uma das unidades geológicas mais estudadas do Brasil, a camada de rochas onde paleontólogos encontram ossos de dinossauros do fim do Cretáceo.

Como Bauru virou nome de uma rocha?

Por causa de um geólogo que estudou a região no começo do século XX. O termo apareceu em 1905, quando Gonzaga de Campos descreveu um arenito da área, e a localidade-tipo, o lugar que serve de referência oficial para identificar aquela rocha, ficou definida como a região de Bauru, segundo a revista Derbyana, do Instituto Geológico de São Paulo.

A coincidência de datas chama atenção: foi no mesmo ano de 1905 que os trilhos chegaram à cidade, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desde então, o nome mudou de categoria várias vezes, à medida que os geólogos entendiam melhor o tamanho daquela camada de rocha.

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A cidade de Bauru entra na história como a referência que deu nome ao conjunto. – Créditos: depositphotos.com / julioricco
1
1905: “grez” Gonzaga de Campos usa o nome Bauru pela primeira vez para descrever o arenito da região.
2
1913: formação O geólogo Pacheco passa a tratar a rocha como uma formação, unidade usada para camadas com características comuns.
3
1953: série Almeida e Barbosa passam a classificar o conjunto como “série”.
4
1964: grupo Freitas adota o termo grupo, categoria que segue em uso para reunir as formações do Grupo Bauru.

Qual o tamanho da Bacia Bauru?

Enorme. A Bacia Bauru abrange cerca de 370 mil km² no Centro-Sul do país, segundo artigo publicado na revista Sapiência, da Universidade Estadual de Goiás (UEG). É uma área parecida com a do Japão, espalhada pelo oeste paulista, pelo Triângulo Mineiro e por partes de Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso.

As rochas do grupo se depositaram sobre os antigos derrames de lava da Serra Geral e se dividem em formações como Adamantina e Marília. A Formação Adamantina, uma das mais ricas em fósseis, tem entre 93 e 83 milhões de anos, uma época em que a região tinha clima quente e seco.

Que dinossauros viveram nas rochas do Grupo Bauru?

Principalmente os titanossauros, herbívoros de pescoço longo que estão entre os maiores animais que já caminharam pela Terra. Os fósseis atribuídos a eles aparecem em quantidade expressiva no Grupo Bauru, e a maioria pertence a um mesmo ramo da família, os Aeolosaurini, segundo revisão publicada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Os registros reforçam que a região tinha, naquela época, um ambiente semiárido.

A fauna não parava nos gigantes. Pesquisadores já registraram terópodes de pequeno porte, crocodiliformes, tartarugas e sapos, além de microfósseis. Um estudo da Unesp identificou 38 tipos fósseis, entre pequenos crustáceos e algas, incluindo espécies descritas pela primeira vez. Vale um detalhe: a maior parte desses achados vem de outras cidades da bacia, e a cidade de Bauru entra na história como a referência que deu nome ao conjunto.

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Bauru é um caso raro de cidade cujo nome circula muito além de seus limites – Créditos: depositphotos.com / julioricco

Por que um sanduíche criado em São Paulo se chama Bauru?

Por causa do apelido do seu criador. Casemiro Pinto Neto, estudante de Direito do Largo de São Francisco e natural de Bauru, montou o lanche no restaurante Ponto Chic, na capital, e o nome da cidade natal, que os colegas usavam para chamá-lo, passou ao sanduíche. A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) registra a criação em 1937, embora outras fontes falem em 1934 ou 1936.

O lanche ganhou proteção oficial em 2018, quando a Lei Estadual nº 16.914 o declarou Patrimônio Cultural Imaterial de São Paulo. A própria cidade de Bauru mantém uma receita oficial e certifica estabelecimentos que seguem o preparo original.

Onde a história de Bauru encontra os trilhos?

No começo do século XX. O nome Bauru aparece pela primeira vez em um documento oficial em 15 de abril de 1856, num registro de posse de terra, e a cidade só ganhou impulso quando virou ponto de partida da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que inaugurou seu primeiro trecho em 27 de setembro de 1906, conforme o histórico do IBGE.

A partir dali, os trilhos passaram a fazer parte da paisagem e da economia da cidade. É curioso pensar que o mesmo período que trouxe os trens também levou o nome de Bauru para os livros de geologia.

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Um nome maior que a própria cidade

Bauru é um caso raro de cidade cujo nome circula muito além de seus limites, seja no balcão de uma lanchonete, seja num mapa geológico que atravessa cinco estados. Um apelido de estudante e a descrição de um arenito, feitos com poucas décadas de diferença, deram ao município duas identidades que pouca gente associa uma à outra.

Entre o pão francês e os ossos de titanossauro, a cidade lembra que nomes de lugares podem viajar mais longe que as próprias pessoas, carregando histórias que nem sempre começam onde parecem começar.