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Um sanduíche famoso e uma bacia geológica de 370 mil km² compartilham o nome de uma cidade do interior paulista
Muito além do lanche famoso.
Algumas cidades ficam conhecidas pelo que produzem, outras pelo nome que acabam espalhando pelo país. Bauru, no centro-oeste paulista, batizou um sanduíche criado a mais de 300 km dali e também uma das unidades geológicas mais estudadas do Brasil, a camada de rochas onde paleontólogos encontram ossos de dinossauros do fim do Cretáceo.
Como Bauru virou nome de uma rocha?
Por causa de um geólogo que estudou a região no começo do século XX. O termo apareceu em 1905, quando Gonzaga de Campos descreveu um arenito da área, e a localidade-tipo, o lugar que serve de referência oficial para identificar aquela rocha, ficou definida como a região de Bauru, segundo a revista Derbyana, do Instituto Geológico de São Paulo.
A coincidência de datas chama atenção: foi no mesmo ano de 1905 que os trilhos chegaram à cidade, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desde então, o nome mudou de categoria várias vezes, à medida que os geólogos entendiam melhor o tamanho daquela camada de rocha.

Qual o tamanho da Bacia Bauru?
Enorme. A Bacia Bauru abrange cerca de 370 mil km² no Centro-Sul do país, segundo artigo publicado na revista Sapiência, da Universidade Estadual de Goiás (UEG). É uma área parecida com a do Japão, espalhada pelo oeste paulista, pelo Triângulo Mineiro e por partes de Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso.
As rochas do grupo se depositaram sobre os antigos derrames de lava da Serra Geral e se dividem em formações como Adamantina e Marília. A Formação Adamantina, uma das mais ricas em fósseis, tem entre 93 e 83 milhões de anos, uma época em que a região tinha clima quente e seco.
Que dinossauros viveram nas rochas do Grupo Bauru?
Principalmente os titanossauros, herbívoros de pescoço longo que estão entre os maiores animais que já caminharam pela Terra. Os fósseis atribuídos a eles aparecem em quantidade expressiva no Grupo Bauru, e a maioria pertence a um mesmo ramo da família, os Aeolosaurini, segundo revisão publicada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Os registros reforçam que a região tinha, naquela época, um ambiente semiárido.
A fauna não parava nos gigantes. Pesquisadores já registraram terópodes de pequeno porte, crocodiliformes, tartarugas e sapos, além de microfósseis. Um estudo da Unesp identificou 38 tipos fósseis, entre pequenos crustáceos e algas, incluindo espécies descritas pela primeira vez. Vale um detalhe: a maior parte desses achados vem de outras cidades da bacia, e a cidade de Bauru entra na história como a referência que deu nome ao conjunto.

Por que um sanduíche criado em São Paulo se chama Bauru?
Por causa do apelido do seu criador. Casemiro Pinto Neto, estudante de Direito do Largo de São Francisco e natural de Bauru, montou o lanche no restaurante Ponto Chic, na capital, e o nome da cidade natal, que os colegas usavam para chamá-lo, passou ao sanduíche. A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) registra a criação em 1937, embora outras fontes falem em 1934 ou 1936.
O lanche ganhou proteção oficial em 2018, quando a Lei Estadual nº 16.914 o declarou Patrimônio Cultural Imaterial de São Paulo. A própria cidade de Bauru mantém uma receita oficial e certifica estabelecimentos que seguem o preparo original.
Onde a história de Bauru encontra os trilhos?
No começo do século XX. O nome Bauru aparece pela primeira vez em um documento oficial em 15 de abril de 1856, num registro de posse de terra, e a cidade só ganhou impulso quando virou ponto de partida da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que inaugurou seu primeiro trecho em 27 de setembro de 1906, conforme o histórico do IBGE.
A partir dali, os trilhos passaram a fazer parte da paisagem e da economia da cidade. É curioso pensar que o mesmo período que trouxe os trens também levou o nome de Bauru para os livros de geologia.
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Um nome maior que a própria cidade
Bauru é um caso raro de cidade cujo nome circula muito além de seus limites, seja no balcão de uma lanchonete, seja num mapa geológico que atravessa cinco estados. Um apelido de estudante e a descrição de um arenito, feitos com poucas décadas de diferença, deram ao município duas identidades que pouca gente associa uma à outra.
Entre o pão francês e os ossos de titanossauro, a cidade lembra que nomes de lugares podem viajar mais longe que as próprias pessoas, carregando histórias que nem sempre começam onde parecem começar.