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Uma pequena vila sem asfalto no Nordeste proíbe a entrada de carros, foi eleita uma das mais bonitas do mundo e encanta com a rede elétrica escondida debaixo da areia para preservar a paisagem
Natureza preservada e ruas de areia.
No litoral oeste do Ceará, escondida atrás de um cordão de dunas, Jericoacoara guarda uma combinação improvável: ruas de areia, uma proibição rara à circulação de carros e uma rede elétrica que corre enterrada sob o chão. A vila entrou na lista das dez praias mais bonitas do mundo pelo The Washington Post em 1994, e desde então virou destino global sem trocar de identidade.
De aldeia de pescadores a destino escolhido pelo Washington Post
Até meados dos anos 1980, Jeri era uma aldeia isolada de pescadores, sem luz, sem telefone e sem estrada. O acesso era feito no lombo de burro, a pé pela areia ou de jangada. A energia elétrica só chegou em 1998, décadas depois de o restante do país já ter luz nas ruas.
A escolha pelo Washington Post, em 1994, colocou o vilarejo no mapa dos viajantes globais e antecipou a chegada da infraestrutura básica. Segundo a Wikipedia, a iluminação pública elétrica segue proibida por lei municipal até hoje, o que permite que a vila mantenha um dos poucos céus verdadeiramente escuros do Brasil.

Um nome que veio da toca das tartarugas
O topônimo vem do tupi îurukûá, que significa tartaruga-marinha, somado a kûara, toca. A tradução literal é toca das tartarugas, referência às áreas de desova que ocorriam na praia muito antes da chegada dos primeiros turistas. O nome batizou o vilarejo séculos antes de qualquer roteiro internacional aparecer.
Curiosidade adicional: enquanto a maioria dos destinos brasileiros nasceu com nome português ou de santos, Jeri carrega uma raiz indígena que descreve exatamente o comportamento da fauna local. A praia continua sendo área de reprodução de tartarugas, hoje protegida por lei federal dentro do parque nacional.
Por que os carros não entram na vila?
A circulação de veículos particulares é proibida dentro da Vila de Jericoacoara. A regra municipal preserva as ruas de areia e a mobilidade a pé, e obriga todo motorista a deixar o carro em um estacionamento autorizado na entrada. De lá, é preciso caminhar ou usar transporte turístico local.
Todo visitante paga a Taxa de Turismo Sustentável, cobrada pela Prefeitura de Jijoca de Jericoacoara, município que abriga a vila. A taxa tem validade de dez dias e financia serviços de limpeza, saneamento e manutenção da área protegida. É uma das poucas regras do tipo em vigor no país.
A rede elétrica que sumiu debaixo da areia
Quando a energia chegou em 1998, os moradores tomaram uma decisão incomum. Em vez de aceitar postes e fios cortando o horizonte, a comunidade se organizou para enterrar a rede elétrica sob a areia da vila. O resultado é uma paisagem sem qualquer cabo à vista, algo raro em qualquer destino urbanizado do país.
A escolha se combina com a proibição de iluminação pública elétrica prevista em lei municipal. À noite, a vila fica iluminada apenas pela lua, pelas estrelas e pela luz interna das casas e pousadas. Esse silêncio visual é um dos motivos pelos quais fotógrafos e astrônomos elegem Jeri como um dos pontos ideais para observação do céu no Nordeste brasileiro.
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O parque nacional que nasceu de uma disputa entre proteger e crescer
A área ao redor da vila é preservada há mais de 40 anos. Segundo a Lei nº 11.486/2007, a região foi originalmente protegida como Área de Proteção Ambiental pelo Decreto nº 90.379, de 29 de outubro de 1984. Depois, um decreto de 4 de fevereiro de 2002 transformou parte da APA no Parque Nacional de Jericoacoara.
A lei atual, de 2007, redefiniu os limites e consolidou a área do parque em cerca de 8.850 hectares, distribuídos pelos municípios de Jijoca de Jericoacoara e Cruz. É administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e abriga dunas móveis, lagoas temporárias, manguezais e uma faixa marítima de um quilômetro paralela à costa.

O que ver dentro da vila cercada de dunas?
As atrações se dividem entre passeios de buggy pelas dunas e caminhadas curtas a partir da vila. Cada uma carrega uma particularidade geográfica.
- Pedra Furada: arco rochoso esculpido pelo mar, cartão-postal da vila. Entre 15 de julho e 15 de agosto, o sol se põe exatamente no vão do arco.
- Duna do Pôr do Sol: a oeste da vila, é o ponto onde o sol mergulha direto no oceano, fenômeno raro no litoral brasileiro.
- Lagoa do Paraíso: águas cristalinas com redes dentro d’água, a cerca de 18 km da vila.
- Serrote e Farol: ponto culminante do parque nacional, com vista aberta das dunas e do oceano.
- Mangue Seco e Rio Guriú: passeio de canoa por entre manguezais com avistamento de cavalos-marinhos.
Vá conhecer Jericoacoara
Poucos destinos no país conseguem manter fama internacional sem trocar a essência que os tornou famosos. Jericoacoara equilibra o reconhecimento global com regras raras que preservam a vila: sem asfalto, sem carros nas ruas e sem postes cortando o céu.
Você precisa conhecer Jericoacoara e caminhar pela areia enquanto o sol mergulha direto no oceano em uma das vilas mais improváveis do Nordeste.