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Moscou sofre ataque com 200 drones da Ucrânia e fecha aeroporto; vídeo
Maior ofensiva ucraniana desde o início do conflito, em fevereiro de 2022, envolveu 200 aeronaves não tripuladas e atingiu refinaria de petróleo, além de prédios residenciais
Um drone cruza o céu e explode contra um prédio de Moscou, depois de escapar de um míssil. Outro atinge em cheio a refinaria de petróleo MNPZ, no distrito de Kapotnya, no sudeste da cidade, lançando ao ar a tampa gigantesca de um dos tanques.
A imagem, captada por meio do celular de um dos moradores, parece cena de filme. Da calçada, civis observam, horrorizados, as colunas de fumaça que escurecem o horizonte. O maior ataque ucraniano a atingir a capital russa em 1.575 dias de guerra mobilizou pelo menos 200 drones — outros 350 foram interceptados e destruídos pelo sistema de defesa antiaérea em distintas regiões da Rússia.
A população de Kapotnya foi surpreendida com a ofensiva. Muitos somente se deram conta do que ocorria quando viram os drones. Não houve alerta de ataques. O aeroporto de Sheremetyevo, o mais importante de Moscou, transferiu passageiros para “locais seguros”. Outros dois terminais interromperam as operações de forma momentânea e fecharam o espaço aéreo. Os destroços de um drone causaram um incêndio em um centro comercial perto da capital.
“Não queremos esta guerra, nunca a quisemos, e todo mundo sabe disso. (…) Mas, se a Ucrânia queimar, Moscou também queimará”, avisou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Enquanto Moscou sofria o bombardeio massivo de drones, o presidente russo, Vladimir Putin, visitava Kazan, a 700km a leste da capital, onde participava de encontro com líderes da Associação de Nações do Sudeste Asiático.
Ainda segundo Zelensky, o ataque à refinaria MNPZ, responsável pelo abastecimento de um terço do petróleo usado por Moscou, é uma “resposta plenamente justificada aos ataques russos contra nossas cidades”. “É hora de a guerra terminar; e a Rússia deve tomar as medidas diplomáticas necessárias”, alertou. “O mais importante é que o povo russo comece a sentir que é um homem, (Vladimir) Putin, quem trava esta guerra, enquanto as pessoas comuns pagam o preço.” O chanceler russo, Serguei Lavrov, disse que a Rússia “realizaria ataques simultâneos de maneira regular” contra a Ucrânia.
Durante reunião do Conselho Europeu, em Bruxelas, Kaja Kallas — chefe de política externa da União Europeia (UE) — afirmou que “a Rússia não está ganhando esta guerra”. “A Ucrânia está mais forte no campo de batalha. Hoje, com líderes dos EUA, discutiremos como aumentar ainda mais a pressão sobre o Kremlin e empurrá-lo para as negociações. A rápida adoção do nosso 21º pacote de sanções será um passo importante nessa direção”, declarou.
Escalada
Diretor da ONG Eurasia Democracy Initiative (em Kiev), Peter Zalmayev lembrou que o general Valerii Zaluzhnyi, comandante-em-chefe das Forças Armadas da Ucrânia entre 2021 e 2024, disse que a única forma de convencer a Rússia a recuar e negociar em boa-fé é levar a guerra ao território russo e expor a fragilidade de Vladimir Putin. “O ataque a Moscou torna as coisas mais complicadas para os cidadãos de Kiev, pois Putin seguirá com os ataques. Se ele não está conseguindo sucesso no campo de batalha, terá que intensificar o terror contra os civis”, afirmou ao Correio.
De acordo com Zalmayev, a ofensiva em Moscou é uma forma de Zelensky mostrar que tem “cartas nas mãos”, ao contrário do que o presidente americano, Donald Trump, declarou durante a Cúpula do G7. “Trump parece ter ficado impressionado com a capacidade dos ucranianos de levarem instabilidade à guerra da Rússia. Ele reconheceu que a posição de negociar de Moscou piorou significativamente”, acrescentou.
O especialista de Kiev acredita que Putin tentará mostrar força “para satisfazer a necessidade básica humana de vingança” e não descarta o uso de armas nucleares táticas. “É provável que Putin escale a guerra, em vez de recuar. Uma negociação significaria a capitulação da Rússia, haja vista que Putin não conseguiu alcançar o mínimo de seus objetivos no conflito”, acrescentou Zalmayev.
Olexiy Haran — professor de política comparada da Universidade de Kyiv-Mohyla (em Kiev) — não se surpreendeu com a ofensiva à capital russa. “Não foi um ataque contra Moscou, mas contra uma refinaria de petróleo. Não deixa de ser simbólico: a mensagem é que, agora, nós (ucranianos) podemos impor ataques dolorosos à Rússia. A ideia é empurrar o Kremlin às negociações de trégua”, disse à reportagem.
Haran considerou importante que a campanha militar em Moscou tenha coincidido com a Cúpula do G7. “Trump e aliados divulgaram um comunicado em que instam a Rússia a negociar. O americano pretende ser visto como um vitorioso. Antes, ele havia dito que Kiev não tinha cartas na manga. A Ucrânia mostrou o contrário, que tem cartas dolorosas para forçar Moscou a interromper a guerra.”
Entrega de 522 corpos de ucranianos
A Rússia entregou 522 cadáveres, principalmente de combatentes mortos, à Ucrânia, informou Kiev. Desde o início da invasão russa à Ucrânia, há mais de quatro anos, as trocas de prisioneiros e de corpos de combatentes estão entre os raros pontos de cooperação entre Moscou e Kiev. “Foram devolvidos à Ucrânia os corpos de 522 pessoas falecidas.
Segundo a parte russa, os corpos pertencem a cidadãos ucranianos, em particular combatentes”, informou o centro ucraniano responsável pelos prisioneiros de guerra. Os falecidos ainda serão identificados, segundo um comunicado. A Ucrânia, por sua vez, entregou 33 corpos à Rússia, segundo o deputado russo Shamsail Saraliev, membro do grupo de coordenação parlamentar sobre o conflito. Kiev não se pronunciou a respeito.