Carnaval
Escola de samba Estácio de Sá homenageia Tatá Tancredo no Carnaval 2026
Enredo do Leão do Morro resgata a história do sacerdote da Umbanda que marcou o Estácio e a cultura preta no Rio
A escola de samba Estácio de Sá vai homenagear, no Carnaval 2026, o sacerdote da Umbanda Tatá Tancredo, conhecido como o “Papa Negro” e responsável por popularizar o Réveillon de Copacabana. O enredo da tradicional agremiação do Morro de São Carlos resgata uma história que vem da oralidade, do toque do tambor e do berço do samba.
Tatá Tancredo, nome religioso de Tancredo da Silva Pinto, chegou ainda criança da região serrana ao Morro de São Carlos, na região central do Rio de Janeiro. No território, ajudou a fundar a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba do Brasil e antecessora da Estácio de Sá. Nascido em 1905, Tatá viveu em um período marcado por tentativas de embranquecimento do mundo e apagamento dos saberes negros, mas seguiu na contramão da história.
Figura de liderança da cultura preta, Tancredo atuou em diversas frentes, como a literatura, a música, a academia, o samba, a religião e o jornalismo. O enredo da escola recupera uma figura de identificação que viveu e deu vida à região do Estácio, colocando sua experiência a serviço da cultura preta e da construção de valores nesse território.
Fundada em 1955, inicialmente com o nome Unidos de São Carlos, a Estácio de Sá é considerada a sucessora direta da Deixa Falar. A escola carrega em seu pavilhão as cores vermelho e branco e o tradicional leão como símbolo. A agremiação foi campeã do Grupo Especial em 1992, com o enredo “Paulicéia Desvairada”. Atualmente, a escola tem como carnavalesco Marcus Paulo, intérpretes Tiganá e Serginho do Porto, e mestre Chuvisco, no décimo sétimo ano à frente da bateria Medalha de Ouro.
À frente do carnaval do Leão do Morro de São Carlos há três anos, o carnavalesco Marcus Paulo destaca que a proposta é apresentar a cultura negra sem reproduzir imagens impostas pelo olhar colonizador.
“Essas cenas de chicoteamento, essas ferramentas de tortura, grilhões, correntes, mordaças não são obras de arte. São vestígios de crime e os nossos ancestrais lutaram tanto, não para serem cristalizados na história desta forma, com essas imagens. A nossa ancestralidade é extremamente colorida, é uma cultura riquíssima pra gente continuar reproduzindo de maneira recorrente essas imagens inglórias.”
Marcus Paulo também fala sobre a relação profunda entre a comunidade do Estácio e o homenageado do enredo.
“Ele é completamente admirado. Conversando com os moradores do São Carlos, da comunidade do Estácio de Sá, eles falam de Tancredo como se ele estivesse ali ainda. Tancredo é personagem que para eles, em conversa, parece que não saiu dali mesmo o espírito. Parece que ainda ronda o bairro. Eles falam como se fosse um amigo muito próximo que ainda está vivo. Isso me chamou muita atenção. A identidade da comunidade com Tancredo é total.”
Na avenida, os símbolos da trajetória de Tatá Tancredo ganham forma em meio a muita cor. O desfile passa por Cantagalo, sua cidade natal, pelos ícones celebrados pela família, como palhaços, pierrôs e a Rainha Ginga no carnaval clássico, além do legado construído em mais de 60 composições e 30 títulos ao longo de sua vida.
A Estácio de Sá será a quinta escola da Série Ouro a desfilar no sábado de Carnaval, dia 14 de fevereiro.