Carnaval
Unidos da Tijuca leva Carolina Maria de Jesus para a avenida e celebra a força das palavras que nascem da favela
Enredo de 2026 exalta a trajetória da escritora, da infância como Bitita ao reconhecimento mundial, e homenageia as muitas Carolinas que seguem transformando a realidade pela literatura
“Carolina Maria de Jesus” será a grande homenageada pela Unidos da Tijuca em 2026, com sua história começando a ser contada através de seu apelido de infância, Bitita, que carrega o sentido de “preta” e guarda a memória de uma menina criada nos confins do Cerrado mineiro, no início do século passado.
Carolina cresceu cedo, vivendo entre trabalhos domésticos e as violências que sofreu por ousar carregar um dicionário, descobriu que o saber também podia ser visto como ameaça.
Inquieta, partiu para São Paulo, atraída pela promessa de um mundo de oportunidades, encontrando porém, uma cidade dura, desigual, e o lugar que lhe foi reservado: a favela do Canindé.
Catando papel para o sustento próprio e dos filhos, e também para guardar suas palavras, Carolina escreveu o que via, o que sentia e o que doía, publicando suas obras com toda sua potência e originalidade, sempre enfrentando as consequências da sua recusa em ser fantoche nas mãos da imprensa e das grandes editoras, conseguiu publicar suas obras.
E é essa trajetória, costurada entre luta e literatura, que a Unidos da Tijuca celebra na avenida. Uma das escolas de samba mais antigas do Rio, a Unidos da Tijuca foi fundada em 1931 e tem como cores amarelo-ouro e azul-pavão.
O carnavalesco Edson Pereira segue no comando do Carnaval da Agremiação, que tenta voltar a conquistar um título depois de 12 anos, preservando em seu corpo técnico Mestre Casagrande, no comando da bateria Pura Cadência há 18 anos. Já o intérprete Marquinho Artsamba estreia na escola do Borel.
Edson Pereira está à frente da Agremiação pelo segundo ano e falou sobre a decisão de intitular o enredo simplesmente com o nome da homenageada, para que ela e somente ela fosse exaltada por conta própria, visto o apagamento da mesma pela história.
“Era uma mulher que pela sociedade foi colocada como uma catadora de lixo, impedida de estudar, foi impedida de viver numa sociedade extremamente preconceituosa na década de 40, 50 e ela, mesmo na adversidade, ela conseguiu criar seus filhos e ter o seu livro editado, que foi o Diário de Betita, que foi traduzido em 16 idiomas.” – Explicou o responsável pela idealização do enredo.
Edson conta que mesmo com seus feitos e grandiosidade, Carolina tentou ser diminuída em sua essência, pois mesmo tendo um livro que foi publicado, exportado para o mundo e que conseguiu vender 10 milhões de cópias na época, foi enquadrada nos moldes de uma favelada. “Eles colocaram um lenço na cabeça dela e fotografavam ela diante da sociedade mais rica como uma pobre que era uma escritora, então ela era um produto desse capitalismo.”
Ao falar de Carolina Maria de Jesus, a Tijuca celebra as muitas carolinas que vieram depois e que seguem fazendo história por meio das palavras.
A Unidos da Tijuca vai fechar a segunda noite de desfiles do grupo especial na segunda-feira de carnaval, dia 16 de fevereiro.
Com quatro títulos na primeira divisão do carnaval, a última conquista foi em 2014, com o enredo Acelera Tijuca, de Paulo Barros.