Saúde
TDAH pode afetar a relação com o dinheiro? Entenda como o transtorno influencia decisões financeiras
Características relacionadas à impulsividade e à organização podem interferir nos gastos e no planejamento do orçamento
Atrasar o pagamento de uma conta, fazer compras sem planejamento ou adiar decisões financeiras são situações que podem acontecer no dia a dia. No entanto, quando esses comportamentos se tornam frequentes e começam a gerar dívidas, conflitos ou sofrimento, é importante considerar que outros fatores, além da falta de organização financeira, podem estar envolvidos.
Em pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dificuldades relacionadas à atenção, à memória de trabalho, ao controle da impulsividade, ao planejamento e à regulação emocional podem influenciar a maneira de lidar com o dinheiro. Isso não significa, porém, que toda compra por impulso seja consequência do transtorno ou que dificuldades financeiras sejam, por si só, um sinal de TDAH.
Estudos realizados com adultos, como “Financial decision-making in a community sample of adults with and without current symptoms of ADHD“, publicado na National Library of Medicine e “Impulsive Buying and Deferment of Gratification Among Adults With ADHD“, publicado na Clinical Psychology in Europe, apontam que participantes com sintomas de TDAH relataram mais compras por impulso e maior tendência a adiar ou tomar decisões financeiras de forma espontânea, em comparação com pessoas sem sintomas.
A relação, no entanto, é atravessada por fatores como personalidade, sintomas depressivos, idade, renda e contexto de vida. Para a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, a principal questão é identificar o que sustenta o comportamento antes de escolher uma estratégia para mudá-lo.
“Uma pessoa pode gastar sem pensar porque tem dificuldade para interromper uma ação e considerar suas consequências. Em outro caso, a compra pode funcionar como uma tentativa de aliviar ansiedade, tristeza, frustração ou estresse. Comportamentos parecidos podem ter causas diferentes e, por isso, não respondem necessariamente à mesma solução”, afirma.
Quando a planilha não resolve
Aplicativos de orçamento, planilhas e redução do limite do cartão podem ajudar a limitar gastos, mas não resolvem automaticamente a origem do problema. Essas ferramentas mostram valores e vencimentos, mas exigem que a pessoa consiga iniciar tarefas, manter uma rotina de acompanhamento e transformar intenção em ação.
Uma pessoa pode saber que precisa guardar dinheiro e, ainda assim, esquecer de fazer a transferência. Pode visualizar uma conta e adiar o pagamento até que o prazo se torne urgente. Também pode entrar em um aplicativo de compras em um momento de estresse e concluir uma compra sem avaliar o impacto nas despesas do mês.
“Controlar o limite do cartão pode reduzir um risco imediato, mas talvez não seja suficiente se a compra estiver funcionando como uma resposta a uma emoção difícil. Nesses casos, é preciso entender o padrão que se repete”, diz Luanda Rosa.

O peso das emoções no consumo
Duas pessoas podem dizer que “não conseguem controlar o dinheiro” e enfrentar situações completamente diferentes. Uma pode esquecer contas e compromissos; outra pode evitar decisões até que elas se transformem em urgências. Há ainda quem compre por impulso, tenha dificuldade em calcular consequências ou procure uma recompensa imediata diante de estresse e frustração. A distinção importa porque uma medida útil para um caso pode não funcionar em outro.
Lembretes no celular, calendário de vencimentos e pagamentos automáticos podem ajudar quem perde prazos com frequência. Para compras impulsivas, medidas como remover cartões salvos de aplicativos, desativar notificações de promoções e estabelecer um intervalo antes de concluir uma compra podem criar espaço para reflexão.
Quando a emoção tem peso importante no consumo, porém, barreiras financeiras isoladas podem ter efeito limitado. Nesses casos, reconhecer gatilhos emocionais e buscar acompanhamento psicológico pode ser parte do cuidado.
Importância de realizar uma avaliação individual
Segundo Luanda Rosa, dificuldades persistentes de organização, esquecimento, impulsividade e tomada de decisão merecem atenção quando comprometem a rotina, a renda, os vínculos ou a saúde emocional. A avaliação neuropsicológica pode investigar atenção, memória de trabalho, planejamento, funções executivas, tomada de decisão e controle comportamental, considerando a história e o contexto de cada pessoa.
“O objetivo não é apenas responder se alguém tem ou não TDAH. Também é compreender como o funcionamento cognitivo e emocional participa das dificuldades relatadas e quais estratégias podem ser viáveis para aquela realidade”, afirma a especialista.
A psicóloga e neuropsicóloga destaca que compreender o problema pode ajudar a substituir a culpa por perguntas mais úteis: houve esquecimento? Falta de planejamento? Uma decisão tomada por impulso? Uma emoção intensa?
A resposta pode orientar caminhos diferentes. Para algumas pessoas, uma rotina mais simples de alertas e pagamentos automáticos pode ser suficiente. Para outras, pode ser necessário associar estratégias de organização ao cuidado com ansiedade, estresse, comportamento de consumo e saúde mental.
Por Paulo Novais