Saúde
Câncer e endometriose: entenda como as doenças se manifestam ao longo da vida
Especialistas explicam como sinais discretos, acesso ao diagnóstico e avanços médicos influenciam o cuidado e o tratamento dessas condições
Março reúne três importantes campanhas de conscientização em saúde: o Março Lilás, dedicado à prevenção do câncer do colo do útero; o Março Azul-Marinho, que chama atenção para o câncer colorretal; e o Março Amarelo, voltado à endometriose. Embora sejam condições diferentes, elas compartilham uma característica importante: podem evoluir de forma silenciosa ou com sintomas pouco valorizados por anos, além de apresentarem perfis de risco que mudam conforme a idade avança.
A idade é um dos principais marcadores de risco para essas doenças. Dados do Surveillance, Epidemiology, and End Results (SEER) — o sistema oficial de estatísticas de câncer dos Estados Unidos, mantido pelo National Cancer Institute — indicam que quase 90% dos casos de câncer colorretal são diagnosticados em pessoas com 50 anos de idade ou mais, e mais da metade ocorre após os 65 anos.
A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostra que o câncer do colo do útero passa a se concentrar a partir dos 30 anos, com maior incidência entre 40 e 59 anos, refletindo o tempo de persistência da infecção pelo HPV, responsável por mais de 90% dos casos desse tipo de câncer.
No caso da endometriose, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a condição afete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, sobretudo entre os 20 e 40 anos. Esses dados ajudam a entender por que as estratégias de prevenção, rastreamento e atenção aos sintomas precisam mudar ao longo da vida.
Rastreamento do HPV: etapa central na prevenção do câncer do colo do útero
A Dra. Maria dos Anjos Neves Sampaio Chaves, ginecologista do Delboni e Lavoisier, explica que o câncer do colo do útero é, na maioria das vezes, uma doença silenciosa. “Os sintomas, geralmente presentes nas fases mais avançadas, podem incluir sangramento fora do período menstrual, dor durante a relação sexual, corrimento com odor ou aspecto diferente e dor pélvica. É justamente por essa evolução discreta — em que a doença pode permanecer anos sem manifestação clínica — que o rastreamento ocupa papel central na prevenção, além da vacina, um dos modos de prevenção mais eficazes até o momento”, afirma.
Se mais de 90% dos casos estão associados ao HPV, entender como identificar o vírus precocemente é parte essencial da estratégia de prevenção desse tipo de tumor. No Brasil, a testagem para HPV é realizada por meio de exames de biologia molecular que detectam o DNA do vírus e identificam subtipos associados a maior risco de câncer do colo do útero. A análise é feita por técnicas como a PCR, capazes de reconhecer com precisão quais variantes virais estão presentes.
Esse rastreio difere do Papanicolau. Enquanto o exame citológico avalia alterações nas células induzidas pela infecção pelo HPV, a testagem molecular ou genotipagem identifica o contato com o vírus ao detectar o DNA viral e seus subtipos, mesmo antes do aparecimento de alterações celulares.
Novas formas de ampliar o diagnóstico
Desde 2025, a autocoleta tem ganhado espaço como estratégia para ampliar o acesso ao rastreamento e aumentar a adesão ao exame. Nesse modelo, a própria mulher utiliza um dispositivo semelhante a um cotonete para coletar secreção da cavidade vaginal, que será analisada em laboratório para detectar a presença de HPV de alto risco.
A modalidade tem se mostrado especialmente relevante para mulheres que enfrentam barreiras para realizar o exame ginecológico tradicional. Isso inclui aquelas que vivem em regiões com menor acesso a serviços de saúde, que sentem medo ou constrangimento durante o procedimento, além de mulheres homoafetivas ou em contextos de maior vulnerabilidade social.
A coleta pode ser feita em casa, inclusive por meio de atendimento domiciliar, ou em ambiente reservado no laboratório ou consultório, sempre com orientação profissional. Ao ampliar as possibilidades de realização do exame, a estratégia ajuda a alcançar mulheres que muitas vezes ficam fora dos programas regulares de prevenção.
Importância de interpretar o resultado do exame corretamente
Quando o resultado é positivo, isso significa que o vírus já estava presente no organismo há algum tempo, e não necessariamente que a infecção ocorreu recentemente, explica a Dra. Maria dos Anjos Neves Sampaio Chaves. “Como ginecologista, vejo diariamente mulheres que deixam de realizar o exame por medo ou desconforto. Quando ampliamos o acesso ao rastreamento e ao diagnóstico precoce, damos às mulheres a oportunidade de evitar um câncer que, na maioria das vezes, pode ser prevenido”, afirma.
A médica também ressalta que o resultado precisa sempre ser interpretado no contexto da avaliação clínica. “Após receber o resultado, a mulher deve levá-lo ao seu ginecologista, que indicará a conduta adequada, como a realização de citologia oncótica ou colposcopia, quando necessário. A autocoleta não substitui o médico: ela identifica o subtipo do vírus e, a partir desse resultado, o profissional avalia o caso e define a conduta adequada. Cada exame tem seu papel dentro da linha de cuidado.”
Conforme a ginecologista, a ampliação do rastreamento é essencial para reduzir o impacto da doença. “A prevenção do câncer do colo do útero começa pelo acesso. Quanto maior a cobertura do rastreamento — inclusive com estratégias como a autocoleta —, maior a chance de identificar precocemente os casos e evitar a progressão da doença”, completa.

Câncer colorretal: o risco que cresce com a idade
O câncer colorretal é um dos mais frequentes no mundo e o risco aumenta de forma significativa após os 50 anos, embora casos em pessoas mais jovens tenham se tornado mais comuns ao longo dos anos. Os sintomas podem ser discretos no começo, mas incluem alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação persistentes), sangue nas fezes, anemia, perda de peso sem causa aparente e dor abdominal.
“A colonoscopia é o principal exame de rastreamento, porque permite identificar e remover pólipos antes que se transformem em câncer. Em alguns contextos, testes de sangue oculto nas fezes e exames complementares fazem parte do acompanhamento”, explica o Dr. Cristovam Scapulatempo Neto, diretor médico de Patologia da Dasa Genômica.
Há também outros exames quando o resultado é positivo para câncer colorretal. “Já quando a doença está em estágios mais avançados, entram em cena ferramentas de medicina de precisão, como a biópsia líquida, que permite identificar, a partir de uma amostra de sangue, alterações genéticas relevantes para orientar a escolha da terapia”, acrescenta.
Ferramentas de medicina de precisão
Quando o paciente não realiza todos os testes genéticos recomendados pelas diretrizes, pode ocorrer decisões terapêuticas incompletas ou menos precisas. É nesse contexto que ganham espaço as ferramentas de medicina de precisão, como a biópsia líquida, que, a partir de uma amostra de sangue, faz-se uma análise genômica ampla, que identifica biomarcadores como KRAS, NRAS, BRAF e fusões de NTRK.
Com esses dados, é possível direcionar terapias já aprovadas pela Anvisa e pela Food and Drug Administration (FDA) de forma mais rápida e alinhada ao perfil do tumor — um fator decisivo em casos avançados da doença.
Endometriose: quando a dor não é normal
A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e pode estar associada à infertilidade em 30% a 50% dos casos, segundo a American Society for Reproductive Medicine. A condição surge quando tecido semelhante ao endométrio — que reveste o interior do útero — passa a se desenvolver fora dele, em regiões como ovários, trompas e cavidade pélvica.
Os sintomas podem incluir cólicas menstruais intensas, dor pélvica persistente, dor durante a relação sexual e alterações intestinais no período menstrual. Como esses sinais podem ser confundidos com desconfortos menstruais comuns, o diagnóstico frequentemente ocorre de forma tardia, muitas vezes apenas durante a investigação de dificuldades para engravidar.
“Essas lesões podem provocar inflamação, aderências e obstrução das trompas, além de alterações que comprometem a fertilidade. Por isso, a identificação precoce é essencial para reduzir danos e preservar a saúde reprodutiva”, explica a Dra. Dafne Melquíades Falcone, radiologista e especialista em diagnóstico por imagem da pelve feminina da clínica CDPI e Alta Diagnósticos, no Rio de Janeiro.
Diagnóstico e tratamento da endometriose
Hoje, o diagnóstico da endometriose é baseado em avaliação clínica especializada e em exames de imagem, como a ultrassonografia com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve, que permitem identificar e mapear a extensão da doença com alta precisão, reduzindo a necessidade de procedimentos invasivos apenas para confirmação.
O tratamento varia conforme a gravidade dos sintomas e os planos reprodutivos da paciente e pode incluir terapia hormonal para controle da dor, cirurgia laparoscópica para remoção das lesões em casos mais complexos e, quando há infertilidade associada, técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro.
“Mais do que tratar a dor, a estratégia é individualizar o cuidado, controlar a progressão da doença e preservar a qualidade de vida e o potencial reprodutivo de cada mulher”, finaliza a especialista.
Por Fernanda Quinta