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Saúde

Entenda como o excesso de telas pode confundir sintomas de TDAH em crianças e adolescentes

Neurocientista explica como a hiperestimulação digital pode prejudicar funções cognitivas em cérebros em desenvolvimento

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Alguns comportamentos associados ao TDAH podem estar relacionados ao uso excessivo de telas (Imagem: MAYA LAB | Shutterstock)

Problemas de concentração, dificuldade para avaliar o próprio desempenho escolar e menor capacidade de reflexão têm se tornado cada vez mais comuns entre crianças e adolescentes. Esse cenário tem levado a questionamentos sobre a influência do uso excessivo de telas em comportamentos que, muitas vezes, são associados ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Segundo o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, existe uma confusão progressiva entre sintomas neurocomportamentais induzidos pela hiperestimulação digital e transtornos neuropsiquiátricos genuínos.

“O cérebro infantil e adolescente ainda está em maturação cortical. Quando há exposição contínua a vídeos curtos, recompensas imediatas e excesso de dopamina associada ao consumo digital, ocorre uma fragmentação da atenção e um prejuízo da metacognição”, afirma.

A metacognição corresponde à capacidade de o indivíduo pensar sobre o próprio pensamento, monitorando erros, desempenho e estratégias cognitivas. Essa função depende fortemente do córtex pré-frontal dorsolateral, região responsável pelo controle executivo, memória de trabalho e autorregulação comportamental.

Cérebro condicionado ao estímulo rápido

De acordo com Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, algoritmos digitais criam um padrão de recompensa intermitente semelhante ao observado em mecanismos compulsivos. A sucessão rápida de estímulos ativa circuitos dopaminérgicos ligados ao sistema de recompensa, sobretudo envolvendo o núcleo accumbens e conexões com o sistema límbico.

“O cérebro passa a funcionar num modelo de estímulo-resposta. Há redução da tolerância ao tédio, diminuição da atenção linear e perda da capacidade contemplativa. Isso afeta diretamente a consolidação da memória e a capacidade de autorreflexão”, explica.

O fenômeno tem sido percebido por professores e familiares. Após provas escolares, muitos estudantes já não conseguem sequer avaliar se tiveram bom ou mau desempenho. Isso revela um enfraquecimento da memória de trabalho e do processamento consciente da experiência.

Nem todo déficit de atenção é TDAH

O TDAH possui critérios clínicos específicos, com forte participação genética e alterações neurofuncionais bem documentadas. Contudo, Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues alerta que sintomas semelhantes podem surgir de hábitos digitais inadequados.

“O problema é que estamos medicalizando cérebros hiperestimulados. Nem toda desatenção é TDAH. Muitas vezes existe um cérebro exausto pela sobrecarga sensorial, pela privação de silêncio cognitivo e pela incapacidade de sustentar o foco prolongado”, afirma.

Menino sentado mexendo em um celular
O uso constante do celular pode reduzir momentos de introspecção importantes para o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes (Imagem: Miljan Zivkovic | Shutterstock)

Desaparecimento do “tédio saudável”

Outro ponto destacado pelo especialista é a perda do chamado “tédio saudável”, estado considerado importante para criatividade, introspecção e reorganização neural. “Hoje, qualquer microssegundo de vazio é preenchido pelo telemóvel. O cérebro perde a capacidade de permanecer em estado introspectivo, algo essencial para fortalecer conexões neurais ligadas à criatividade subjetiva, memória autobiográfica e reflexão crítica”, diz.

Ele ressalta que períodos sem estímulo externo favorecem a ativação da chamada Default Mode Network (DMN), rede cerebral associada à introspecção, construção narrativa interna e autoconsciência.

Desintoxicação digital como estratégia preventiva

O equilíbrio digital deve começar dentro de casa. Redução do tempo de tela, atividades analógicas, leitura física, prática desportiva e interação social presencial são estratégias consideradas importantes para preservar o desenvolvimento neurocognitivo de crianças e adolescentes.

Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues argumenta que o problema não está na tecnologia em si, mas no padrão crônico de hiperconsumo. “A tecnologia é uma ferramenta extraordinária. O problema é quando ela sequestra os mecanismos naturais da atenção e transforma o cérebro numa estrutura dependente de estímulo contínuo. Sem silêncio cognitivo, não existe profundidade reflexiva”, conclui.

Por Angela Rocha