Rio
Estudo detecta antidepressivo em cérebros de tubarões no litoral do Rio
Pesquisa do projeto EcoShark identifica presença de sertralina em animais marinhos e acende alerta sobre impacto do saneamento e da poluição na cadeia oceânica
Um estudo realizado pelo projeto EcoShark, que monitora a saúde de tubarões na costa fluminense desde 2018, identificou a presença de sertralina, substância presente em antidepressivos, no cérebro de tubarões do litoral do Rio de Janeiro.
A substância, que dá nome a um dos antidepressivos mais prescritos no Brasil, chega ao ambiente marinho por meio do ciclo de descarte humano. Segundo a pesquisa, resíduos do medicamento são eliminados na urina de usuários e acabam chegando ao mar por meio do esgoto.
De acordo com a coordenadora do projeto EcoShark, Mariana Alonso, ainda não há dados conclusivos sobre os efeitos da substância em tubarões na costa fluminense, mas estudos internacionais já apontam possíveis impactos no comportamento desses animais.
“A sertralina pode mudar o comportamento dos peixes. Eles se tornam mais agressivos ou mais canibalísticos, ficam mais fortinhos, mais gordinhos. Também pode alterar atividades como nadar em grupo, forragear, que é buscar alimento, fugir de predadores. Isso faz com que os peixes fiquem mais vulneráveis”, explicou.
A pesquisadora também alerta para o impacto mais amplo da poluição química nos oceanos e destaca o papel dos tubarões na cadeia ecológica marinha.
“A gente tem que se preocupar com isso porque os tubarões são sentinelas dos oceanos. Eles têm um papel ecológico muito importante. Se eles estão contaminados, significa que toda a cadeia trófica abaixo deles — peixes, camarões, lulas — também está exposta. Ou seja, a nossa poluição está chegando muito mais distante do que a gente imagina”, afirmou.
Os dados se conectam ao cenário de saneamento básico no estado do Rio de Janeiro. Segundo o ranking do saneamento do Instituto Trata Brasil, quatro municípios fluminenses estão entre os 20 piores do país em esgotamento sanitário: São João de Meriti, Belford Roxo, Duque de Caxias e São Gonçalo.
O sistema de tratamento de esgoto atual não foi projetado para remover completamente substâncias farmacêuticas, o que facilita o retorno desses compostos ao ambiente marinho. Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico indicam que cerca de 47% do esgoto gerado no estado era tratado em 2024.
Em nota, a reportagem informou que questionou o governo do estado sobre a situação do saneamento, mas não houve retorno até o fechamento da matéria.
Apesar das preocupações ambientais, especialistas reforçam a importância do medicamento. A sertralina é amplamente utilizada no tratamento de transtornos como depressão, TOC e estresse pós-traumático, e não deve ter seu uso interrompido em razão da pesquisa.