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Meta começa a ser julgada sob a acusação de viciar adolescentes
No primeiro dia de julgamento, na Califórnia, promotora denuncia que gigante das redes sociais programou o Instagram e o Facebook para causar dependência
Em 29 de janeiro de 2021, Emily Murillo, uma jovem americana de 17 anos, tirou a própria vida por não suportar o cyberbullying. Sua mãe, Erin Popolo, carregou a foto da filha no primeiro dia de julgamento da Meta, na Califórnia.
Lori Schott fez o mesmo com o retrato de Annalee, que cometeu suicídio aos 18, depois do uso compulsivo do Instagram. As duas se uniram a outras mães, na esperança de que o tribunal federal de Oakland atenda à demanda de uma coalizão de estados e determine à Meta o pagamento de US$ 200 bilhões (ou R$ 1,04 trilhão) em multas por usar uma tecnologia desenhada para alimentar o vício entre adolescentes.
O julgamento contempla uma ação movida pelos estados da Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey. A previsão é que ele dure seis semanas, e o veredicto seja anunciado em outubro. A procuradora-geral adjunta da Califórnia, Megan O’Neill, acusou a gigante das redes sociais, criada por Mark Zuckerberg, de deliberadamente provocar a dependência dos jovens. “O modelo de negócios da Meta pode ser resumido em quatro passos simples: fisgar os usuários, mantê-los pelo maior tempo possível, coletar seus dados e depois esconder a verdade do público”, declarou ante o tribunal. “A Meta se aproveitou do funcionamento do cérebro dos menores.”
Um dos advogados da Meta admitiu que a empresa sabia que usuários tinham sido prejudicados pelo Facebook e pelo Instagram, mas tentou mitigar os riscos e aprimorar a experiência. “Não resta dúvida de que a Meta reconheceu que as pessoas podem ter dificuldade com o uso das redes sociais e tentou desenvolver ferramentas para ajudá-las”, declarou.
Erin Popolo, 52 anos, disse ao Correio ter esperança de que, ao fim do julgamento, a Meta seja condenada a pagar indenizações financeiras significativas. “Espero que isso os force a redesenhar seus produtos com medidas e padrões de segurança para crianças”, afirmou. “Em última análise, esperamos que, diante de todos esses veredictos de culpa, o Congresso desperte e aprove uma legislação relevante sobre a segurança infantil.”
Segundo Popolo, o desenho das plataformas da Meta estimula o vício e a comparação entre os adolescentes. “Com a rolagem constante e as notificações incessantes, os jovens parecem não conseguir desviar o olhar da tela. As crianças relatam que as redes sociais as fazem sentir-se piores em relação a si mesmas, afetam sua autoestima e as mantêm isoladas e vulneráveis”, lembrou.
A mãe de Emily não tem dúvidas de que a garota foi prejudicada pelo Instagram. “Ela sofreu bullying implacável por parte de seus colegas. No entanto, quando as crianças usam tais plataformas como seu principal meio de comunicação entre si, não conseguem escapar da situação. O vício desempenhou um papel nisso.”
Desespero
Lori Schott, 64, afirmou ao Correio que deseja a migração do processo da esfera civil para a criminal, mas com resultados concretos. “A morte de minha filha foi provocada pelas táticas de design da Meta voltadas para o vício, o conteúdo de algoritmos e os recursos de embelezamento que a arrastaram para um mundo de desespero”, desabafou. Annalee morreu em 15 de novembro de 2020. “A saúde mental dela foi destruída pela espiral de algoritmos que a arrastou para um mundo sombrio do qual ela não conseguia escapar. Culpo a natureza viciante do design criado pela Meta para prender as crianças e manipular suas mentes, destruindo a minha filha, que só estava tentando crescer.”
Diretor do Centro de Direito e de Políticas de Ciências da Vida da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Vincent Joralemon explicou à reportagem que, em grande parte, os estados que entram com uma ação contra a Meta não precisam provar danos aos adolescentes. “Esses estados construíram o caso dessa maneira de forma deliberada. A questão de saber se as redes sociais causam depressão em adolescentes é objeto de verdadeiro debate entre pesquisadores. Alguns constatam efeitos substanciais; outros encontram efeitos tão reduzidos que explicam bem menos de 1% da variação no bem-estar dos adolescentes. Se os estados tivessem de vencer essa disputa científica, estariam em apuros.”
Segundo Joralemon, os estados atestam que pesquisas internas da Meta apontavam problemas e que a empresa escondia isso da opinião pública. “Trata-se de um caso de enganação”, explicou o professor. “Sob uma lei federal de privacidade das crianças, a questão resume-se a saber se a Meta coletou dados de usuários menores de 13 anos sem consentimento dos pais. O caso baseia-se nas próprias declarações da Meta sobre o que a empresa sabia e pretendia.”