Cultura
Coletivo Mulheres em Cena transforma experiências femininas em dramaturgia autoral
Grupo apresentou a peça Entre Ecos e o Silêncio no Rio de Janeiro e aposta em dramaturgia autoral para abordar maternidade, silenciamento e autonomiaO Coletivo Mulheres em Cena reúne artistas em torno da criação de histórias que colocam as mulheres no centro da narrativa. Com foco no teatro e na dramaturgia autoral, as peças abordam temas como maternidade, afetividade, violência, silenciamento, relações humanas, memória e autonomia.
O coletivo, que originalmente é do Espírito Santo, esteve no Rio de Janeiro no dia 4 de setembro, onde apresentou a peça Entre Ecos e o Silêncio, no Teatro Miguel Falabella. A obra aborda a violência doméstica contra a mulher e a dinâmica social que responsabiliza a vítima.
À frente do projeto está Eliza Rodrigues, autora, produtora e atriz. Segundo ela, a proposta do Mulheres em Cena vai além de colocar mulheres no elenco. A ideia é garantir a participação feminina também nos diferentes processos de criação.
“Não apenas como atrizes, mas como mulheres que pensam, escrevem, produzem, dirigem, criam e ocupam espaços”, afirma. “E, principalmente, queremos lembrar que quando uma mulher encontra espaço para falar, outras mulheres também podem se reconhecer nessa voz.”
Como surgiu o Mulheres em Cena
O coletivo nasceu a partir da trajetória artística de Eliza e da percepção de que muitas histórias femininas ainda encontram pouco espaço.
A autora já desenvolvia trabalhos ligados à maternidade, às relações humanas e às experiências femininas quando percebeu que queria reunir essas produções em um projeto maior. “Queria construir um espaço de criação que pudesse reunir outras mulheres e outras perspectivas”, conta.
A partir daí, o Mulheres em Cena começou a ganhar forma como uma proposta de coletividade, criação e ocupação. Além dos espetáculos, o grupo desenvolve ações de formação, como workshops voltados ao desenvolvimento artístico e profissional e à autonomia de artistas.
Peças abordam maternidade e violência

Além de Entre Ecos e o Silêncio, o coletivo trabalha em outros projetos de dramaturgia autoral, como Manheeee!, peça ligada à experiência da maternidade e que acompanha o amadurecimento da personagem ao longo de sua trajetória.
“A ideia não é criar apenas uma peça, mas construir um repertório do Mulheres em Cena”, explica Eliza. “Uma das coisas mais interessantes é perceber que, quando uma história é muito particular, ela pode acabar se tornando muito universal”, afirma.
Para a autora, o processo de escrita parte principalmente da observação de situações da vida real. Conversas dentro de casa, mudanças nos relacionamentos, experiências da maternidade e situações de silenciamento podem se transformar em personagens e conflitos no palco.
“Queremos mostrar mulheres reais”
A atuação do coletivo pode ser resumida em três objetivos: criar, formar e ocupar. A proposta é desenvolver histórias com relevância artística e social, oferecer espaços de troca e desenvolvimento para artistas e ampliar a presença feminina em espaços físicos, culturais e simbólicos.
Para Eliza, isso significa pensar na mulher não apenas como intérprete, mas também como parte das diferentes etapas de produção de uma obra. “Queremos mostrar mulheres reais”, resume Eliza.
Para ela, muitas dessas histórias partem de uma questão simples: “Quantas mulheres já viveram isso e nunca tiveram a oportunidade de falar sobre isso?“.
A mensagem do coletivo também passa pela ideia de que não existe uma única forma de ser mulher. Em vez de personagens idealizadas, o grupo busca apresentar figuras com contradições, desejos, medos, fragilidades, humor, raiva, amor, cansaço e vontade de recomeçar.
“A arte não precisa entregar respostas prontas. Às vezes, ela precisa apenas ter coragem de fazer a pergunta certa“, afirma Eliza.
Em uma publicação nas redes, Eliza faz seu relato pessoal de transformação por meio do teatro. “Se um dia eu tive medo, hoje a coragem veio por meio dessa personagem. O Silêncio não existe em mim. E espero que essa peça seja longa pra que permita que a mensagem ecoe”, diz na legenda.