Economia
Mulher cega é impedida de entrar num restaurante com o cão-guia porque “não é permitido animal” e descobre que a lei garante a entrada do cão em qualquer local aberto ao público, inclusive ônibus e aviões
Uma placa proibindo animais não impede o acesso do cão-guia
Uma mulher cega chega a um restaurante com seu cão-guia e escuta que “não é permitido animal”. Nessa situação ilustrativa, a regra geral do estabelecimento não basta para justificar a recusa. A Lei 11.126/2005 assegura à pessoa com deficiência visual o direito de ingressar e permanecer acompanhada do animal em estabelecimentos abertos ao público e nos meios de transporte, observadas as condições legais.
O restaurante pode proibir a entrada do cão-guia?
O salão de atendimento de um restaurante está abrangido pela proteção prevista no artigo 1º da Lei 11.126/2005. A norma contempla pessoas cegas e com baixa visão. Portanto, uma placa proibindo animais ou a informação de que o local não aceita pets não elimina o direito de acesso da pessoa acompanhada de um animal devidamente identificado para essa função.
A entrada da dupla é um direito, não uma autorização facultativa do gerente. Isso não significa acesso irrestrito a qualquer dependência. A regulamentação prevê restrições em áreas específicas, incluindo locais de manipulação e preparação de alimentos. Essa distinção permite preservar as exigências sanitárias da cozinha sem impedir o atendimento da cliente no espaço destinado ao público.

Quais documentos e equipamentos identificam o animal?
O Decreto 5.904/2006, que regulamenta a lei, estabelece os elementos de identificação e a comprovação do treinamento do usuário. Não basta apresentar um cachorro como acompanhante sem atender aos requisitos aplicáveis. Para o animal em atividade, a regulamentação prevê os seguintes itens:
- Carteira de identificação expedida pelo centro de treinamento ou pelo instrutor autônomo;
- Plaqueta de identificação com os dados exigidos, utilizada no pescoço do animal;
- Carteira de vacinação atualizada, com as comprovações previstas e assinatura de médico veterinário;
- Equipamento composto por coleira, guia e arreio com alça.
Como funciona o acesso aos ônibus e aos aviões?
A proteção alcança todos os meios de transporte e as diferentes modalidades do transporte coletivo de passageiros, inclusive serviços internacionais com origem no Brasil. Nos ônibus, a regulamentação estabelece preferência pelo assento mais amplo, com espaço livre ao redor ou próximo de uma passagem, conforme o veículo. Não pode haver cobrança adicional pela presença do cão-guia.
No transporte aéreo, a Resolução 280/2013 da Anac prevê o transporte gratuito no chão da cabine, próximo ao usuário, sob seu controle e com arreio. O animal não deve obstruir o corredor. A viagem exige identificação, comprovação do treinamento e cumprimento das exigências sanitárias nacionais e do destino, quando aplicáveis. A norma dispensa focinheira.
O que registrar quando o estabelecimento recusa atendimento?
Se houver impedimento, a pessoa pode informar a finalidade do animal e pedir que o responsável reveja a decisão à luz da legislação. Persistindo a recusa, reunir informações ajuda a encaminhar uma reclamação ao Procon e buscar orientação jurídica. Sem se expor a confronto ou perigo, procure guardar estes registros:
Informações que ajudam a registrar o atendimento, a justificativa apresentada e eventuais despesas
- 1Nome e endereço do estabelecimento ou identificação do serviço de transporte;
- 2Data e horário aproximado do atendimento;
- 3Justificativa apresentada para impedir o ingresso ou a permanência;
- 4Mensagens, protocolos e eventual resposta por escrito;
- 5Contatos de testemunhas que acompanharam a situação;
- 6Comprovantes de despesas relacionadas ao episódio, caso existam.
O direito de acesso exige atendimento sem discriminação
O artigo 3º da lei considera discriminatória qualquer tentativa de impedir ou dificultar o exercício desse direito, prevendo multa e interdição. A aplicação das consequências depende da apuração pelos órgãos competentes. Eventual pedido de reparação também exige análise das circunstâncias e das provas, sem que seja possível prometer uma indenização automática apenas pela descrição inicial do episódio.
Conhecer a função do animal evita que uma regra genérica se transforme em barreira de acesso. Restaurantes e empresas de transporte devem orientar suas equipes para reconhecer a proteção legal, conferir os requisitos pertinentes e atender a pessoa com deficiência visual. Na situação apresentada, a providência adequada é permitir o atendimento da cliente com seu cão-guia, respeitando as condições previstas na legislação.