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A psicologia afirma que os alunos que rabiscavam em seus cadernos durante as aulas desenvolviam uma vantagem significativa

Psicologia explica por que rabiscar ajuda o cérebro a não divagar

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A psicologia afirma que os alunos que rabiscavam em seus cadernos durante as aulas desenvolviam uma vantagem significativa
Aluno que rabisca pode lembrar mais do conteúdo ouvido em aula

Durante décadas, o professor que via um aluno enchendo as margens do caderno de desenhos e garatujas interpretava o gesto como desatenção. A psicologia cognitiva chegou a uma conclusão diferente. Um estudo publicado no periódico Applied Cognitive Psychology demonstrou que o doodling, nome técnico para o ato de rabiscar de forma automática enquanto se ouve algo, pode aumentar a retenção de informação em até 29% em comparação com quem simplesmente tenta prestar atenção sem nenhuma atividade paralela.

Qual foi o estudo que comprovou essa vantagem e o que ele mediu?

A pesquisa foi conduzida por Jackie Andrade, professora de psicologia da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, e publicada em 2009. O experimento envolveu 40 participantes que ouviram uma gravação de uma mensagem de voz monótona, com cerca de dois minutos e meio de duração, contendo nomes de pessoas que seriam convidadas para uma festa. Metade do grupo recebeu a instrução de sombrear formas geométricas impressas num papel enquanto ouvia. A outra metade ouviu sem nenhuma tarefa adicional.

Ao final, todos foram submetidos a um teste surpresa de memória que não havia sido anunciado previamente. O grupo que rabiscou as formas recordou uma média de 7,5 informações de um total de 16. O grupo que não rabiscou recordou em média 5,8. A diferença de 29% foi estatisticamente significativa e apontou numa direção contrária ao que o senso comum sobre atenção em sala de aula defendia há décadas.

A psicologia afirma que os alunos que rabiscavam em seus cadernos durante as aulas desenvolviam uma vantagem significativa
Aluno que rabisca pode lembrar mais do conteúdo ouvido em aula

Por que rabiscar ajuda a memória em vez de prejudicá-la?

A explicação proposta por Jackie Andrade parte de uma distinção importante dentro da psicologia cognitiva: o problema da atenção durante tarefas monótonas não é a falta de esforço, mas o excesso de capacidade mental disponível. Quando uma aula ou palestra é pouco estimulante, o cérebro não simplesmente “desliga”. Ele preenche o espaço mental com devaneio, viagens mentais involuntárias para pensamentos, preocupações e fantasias completamente desconectados do conteúdo que está sendo apresentado.

O devaneio é mais custoso para a memória do que parece. Ele consome recursos cognitivos que seriam necessários para processar e reter o que está sendo dito. O rabisco funciona como o que Andrade chamou de âncora atencional: uma atividade leve o suficiente para não competir com a tarefa principal de ouvir, mas presente o suficiente para ocupar o espaço mental que o devaneio usaria. O resultado é que a mente permanece parcialmente ancorada na situação presente em vez de viajar.

Qual é a diferença entre rabiscar e simplesmente distrair-se?

Nem toda atividade paralela durante uma aula funciona da mesma forma. A eficácia do doodling depende de uma condição específica: a atividade deve ser automática e cognitivamente leve a ponto de não competir com o processamento auditivo. Rabiscar padrões, sombrear formas ou fazer desenhos repetitivos se enquadra nessa categoria. Atividades que exigem mais atenção, como responder mensagens, escrever texto elaborado ou ler outro conteúdo, têm o efeito oposto: dividem os recursos cognitivos e prejudicam a retenção.

A distinção prática para o ambiente escolar é relevante. Os comportamentos que os professores geralmente identificam como distração total, como o uso de celular para conversar ou navegar em redes sociais, realmente comprometem a atenção. O rabisco das margens do caderno, por outro lado, opera em outro nível cognitivo e pode, segundo os dados disponíveis, estar contribuindo para o desempenho do aluno em vez de sabotá-lo.

Quem tende a se beneficiar mais do doodling durante explicações?

Pesquisas posteriores ao estudo de Andrade indicam que o efeito do rabisco na retenção não é uniforme para todos os perfis de aprendizagem. Algumas características que parecem aumentar o benefício do doodling:

O que esse estudo mudou na forma de entender atenção e aprendizagem?

Antes do trabalho de Andrade, a psicologia educacional tendia a tratar a atenção como um estado binário: ou o aluno estava prestando atenção, ou estava distraído. O experimento com doodling introduziu uma nuance importante: existem formas de engajamento parcial que sustentam a atenção de maneira mais eficaz do que a tentativa de manutenção de foco total e passivo durante longos períodos.

Pesquisas sobre atenção em palestras já indicavam que a capacidade de concentração se deteriora significativamente após dez a quinze minutos de escuta passiva contínua. O doodling surge nesse contexto como um mecanismo natural de compensação, algo que muitos alunos desenvolveram intuitivamente sem saber que estavam lidando com um limite real da arquitetura cognitiva humana.

O que os dados revelam sobre aprendizagem que vai além do comportamento visível

O estudo da Universidade de Plymouth é parte de um conjunto crescente de evidências que mostram como os sinais externos de atenção podem enganar. Um aluno sentado em silêncio com os olhos voltados para o quadro pode estar mentalmente em outro lugar. Outro, com o caderno cheio de garatujas nas margens, pode ter retido com mais precisão o que foi dito naquela aula.

Essa inversão de expectativa tem implicações práticas que vão além da tolerância ao rabisco em sala de aula. Ela aponta para uma revisão mais ampla de como a aprendizagem é avaliada pelo comportamento observável, e abre espaço para que estratégias que parecem inconvencionais por fora sejam reconhecidas pelo que produzem por dentro: retenção real do conteúdo ensinado.