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A psicologia aponta que pessoas que comem primeiro a parte de que menos gostam não fazem isso apenas por hábito, mas podem preferir adiar a recompensa e terminar a refeição com algo mais prazeroso
Comer o que menos gosta primeiro pode ter relação com um hábito aprendido na infância e mantido até a vida adulta
Começar a refeição justamente pelo alimento menos desejado pode parecer um hábito sem importância, mas a psicologia sugere que essa escolha também pode estar ligada à forma como algumas pessoas organizam prazer e recompensa. Em vez de consumir imediatamente aquilo de que mais gostam, elas preferem deixar a parte mais prazerosa para o final, transformando-a em uma espécie de recompensa depois de terminar o restante do prato.
Por que algumas pessoas deixam a melhor parte para o final?
Para algumas pessoas, terminar a refeição com o alimento favorito torna toda a experiência mais agradável. A lógica é simples: primeiro vem aquilo que precisa ser comido, depois aquilo que realmente desperta prazer.
Esse comportamento pode acontecer de maneira tão automática que a pessoa nem percebe que está fazendo uma escolha. Com o tempo, a sequência vira parte da rotina e passa a organizar a expectativa durante toda a refeição.
O que a recompensa adiada tem a ver com esse hábito?
Adiar uma recompensa significa resistir a uma satisfação imediata para aproveitá-la depois. No caso da alimentação, isso pode aparecer quando alguém evita começar pelo alimento preferido porque deseja guardar aquela sensação agradável para o final.
Essa lógica pode ser percebida em comportamentos como:
- Comer primeiro os vegetais e deixar a parte favorita do prato para depois;
- Guardar o pedaço mais crocante ou saboroso para o final;
- Deixar um acompanhamento preferido para as últimas garfadas;
- Evitar misturar tudo para preservar uma ordem específica;
- Planejar mentalmente qual será o último sabor da refeição.

Por que terminar com algo prazeroso pode ser tão satisfatório?
O final de uma experiência pode influenciar bastante a maneira como ela é lembrada. Por isso, algumas pessoas gostam de encerrar refeições, filmes ou tarefas com aquilo que consideram mais agradável.
No caso da comida, a última garfada pode funcionar como uma espécie de fechamento. Quando ela é justamente a parte favorita, a refeição termina com uma sensação positiva, o que pode reforçar o hábito de repetir essa sequência no futuro.
Esse comportamento significa que a pessoa tem mais autocontrole?
Não necessariamente. Comer primeiro aquilo de que menos gosta, sozinho, não permite concluir que alguém tenha mais disciplina, paciência ou autocontrole em outras áreas da vida. Preferências alimentares podem surgir por costume, educação familiar ou simplesmente gosto pessoal. Práticas familiares de alimentação têm papel importante na aprendizagem de preferências e rotinas alimentares, como mostra revisão da Annual Review of Nutrition.
A mesma pessoa pode adiar a parte favorita da refeição e ser impulsiva em outras situações. Por isso, o hábito funciona melhor como uma pista sobre a forma de organizar aquela experiência específica do que como uma definição de personalidade.

Como hábitos aprendidos na infância podem influenciar essa ordem?
Muitas pessoas cresceram ouvindo que deveriam comer primeiro determinados alimentos e deixar aquilo de que mais gostavam para depois. Frases como “coma a comida antes da sobremesa” ajudam a criar uma associação entre cumprir uma tarefa e receber uma recompensa.
Essa aprendizagem pode continuar na vida adulta:
- Alimentos menos desejados passam a ser vistos como obrigação;
- A parte favorita se transforma em recompensa;
- A pessoa sente prazer em completar uma sequência planejada;
- Terminar com o melhor sabor passa a fazer parte da rotina;
- A ordem pode continuar mesmo quando ninguém mais está cobrando.
A ordem do prato também pode revelar como buscamos prazer
Comer primeiro a parte menos apreciada pode ser apenas um costume, mas também pode mostrar uma preferência por organizar o prazer em etapas. Para algumas pessoas, a expectativa de chegar ao alimento favorito torna o restante da refeição mais fácil ou até mais interessante.
No fim, não existe uma ordem psicologicamente correta para comer. Algumas pessoas preferem aproveitar imediatamente aquilo de que gostam, enquanto outras guardam o melhor para o final. A diferença mostra apenas que até escolhas pequenas podem revelar maneiras distintas de lidar com expectativa, recompensa e prazer cotidiano.