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A psicologia aponta que pessoas que gostam de viajar sozinhas não são solitárias, mas costumam ter mais autonomia, segurança nas próprias escolhas e facilidade de se adaptar a imprevistos
A liberdade de escolher o roteiro atrai muitos viajantes solo, mas a pesquisa não define um perfil único para eles.
Escolher a cidade, a hora de sair e o tempo de ficar diante de uma paisagem sem negociar cada passo pode ser parte do prazer de viajar sozinho. Para algumas pessoas, a experiência também traz insegurança: é preciso resolver reservas, trajetos e imprevistos sem um companheiro constante. Essa mistura de liberdade e responsabilidade ajuda a entender o interesse pelas viagens solo, mas não revela, por si só, a personalidade de quem arruma a mala.
Viajar sozinho significa sentir solidão?
Estar sem companhia na viagem é uma situação; sentir-se solitário é uma experiência emocional. Uma pessoa pode gostar de momentos a sós e, no mesmo dia, conversar com moradores, guias ou outros viajantes. Também pode sentir falta de alguém conhecido em um destino novo. Não existe contradição nisso. O roteiro individual não prova ausência de vínculos nem garante que nunca haverá saudade.
Uma pesquisa qualitativa publicada no Journal of Tourism Sciences ouviu 13 viajantes solo na faixa dos 20 e 30 anos. Entre os temas relatados estavam reflexão sobre a própria vida e sensação de comunidade com outras pessoas encontradas no caminho. Os relatos mostram que viajar sem acompanhante não impede encontros. Como a amostra era pequena e específica, não permite afirmar que todos os viajantes solo tenham a mesma vivência.

Onde entra a autonomia nas escolhas?
Quem viaja sozinho decide se visita um museu, muda o horário do almoço ou passa a manhã descansando. Essa liberdade pode ser um motivo central para escolher o formato. Ao mesmo tempo, decidir tudo também dá trabalho: transporte, orçamento e segurança exigem atenção. Autonomia, nesse contexto, pode significar ter espaço para escolher e assumir as consequências práticas dessas escolhas.
Em um levantamento australiano com 944 participantes, pesquisadores examinaram motivações, obstáculos e intenção de viajar sozinho. Autorrealização, maneira de se perceber e sensação de controle apareceram como fatores ligados a essa intenção. O estudo não mediu se quem viaja só possui, em comparação com outras pessoas, um traço permanente de maior autonomia. Também não demonstrou que a viagem tenha produzido tal característica.
Imprevistos tornam alguém mais adaptável?
Um voo muda de horário, o restaurante escolhido está fechado ou chove no dia do passeio. Sem um acompanhante para dividir decisões, a pessoa precisa procurar alternativas, pedir informação ou simplesmente aceitar um plano menor. Isso pode dar a sensação de ter aprendido algo sobre si. Mas lidar com um imprevisto durante a viagem não equivale a provar maior capacidade de adaptação em todos os aspectos da vida.
Os estudos citados investigaram experiências e intenções, não testaram se viajantes solo reagem melhor a mudanças inesperadas do que viajantes acompanhados. Além disso, condições materiais fazem diferença. Ter dinheiro para trocar a passagem, acesso à internet e possibilidade de pedir ajuda pode tornar um contratempo mais fácil de administrar. Chamar tudo isso apenas de “segurança nas próprias escolhas” esconderia parte da situação.

Como a confiança se constrói sem virar obrigação?
Para quem tem vontade de experimentar, uma viagem curta a um lugar conhecido pode ser um começo. Pesquisar o trajeto, compartilhar o plano com alguém de confiança e reservar margem no orçamento diminuem algumas incertezas. Durante o passeio, escolher uma atividade por conta própria pode ser mais significativo que tentar cumprir uma lista inteira de atrações. A experiência não precisa servir como teste de coragem.
Também vale reconhecer limites. Há destinos e momentos em que contar com companhia é mais confortável, econômico ou seguro. Pedir orientação a uma pessoa local, participar de uma visita guiada ou telefonar para casa não diminui a autonomia. Saber quando recorrer a outros pode fazer parte de uma decisão bem pensada.
O que a escolha de viajar só realmente revela?
Ela revela, antes de tudo, uma preferência ou uma circunstância naquele período. Alguém pode desejar liberdade para montar o próprio roteiro; outra pessoa talvez não tenha encontrado companhia nas datas disponíveis. As razões mudam conforme a fase da vida, o destino e os recursos. Reduzir todos os viajantes solo a um perfil seguro e independente deixaria essas diferenças de fora.
A viagem pode oferecer oportunidades para decidir, encontrar pessoas e lidar com mudanças. Pode trazer cansaço ou vontade de compartilhar a próxima saída. O que a pesquisa permite dizer é mais modesto que o título sugere: autonomia e autorrealização aparecem entre as motivações estudadas, enquanto as experiências de companhia e solidão variam. O melhor roteiro continua sendo aquele que faz sentido para a pessoa, com os apoios de que ela precisa.