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Em Paris, pobres vivem em “favelas” com metrô, fibra óptica, hospital e infraestrutura superior a de muitas cidades pelo mundo
A chocante diferença entre a pobreza em Paris e a realidade de muitas cidades pelo mundo.
A dez minutos do Arco do Triunfo, o trem cruza o Boulevard Périphérique e chega às banlieues, o cinturão de Paris onde a pobreza divide rua com metrô, creche e fibra óptica. Prédios de concreto e placas com nomes de imigrantes anunciam outro mundo, colado à capital.
O cinturão que o Estado planejou no concreto
O nome banlieue vem do francês medieval: ban, jurisdição, e lieue, légua, o território a uma légua ao redor da cidade. Hoje designa as cidades vizinhas separadas da capital pelo anel viário.
Diferente da favela brasileira, a banlieue não nasceu de ocupação informal. Foi planejada pelo poder público, com prédios padronizados erguidos entre 1950 e 1980 para abrigar operários e imigrantes recém-chegados. As antigas habitações populares, as HBM, viraram habitações de aluguel moderado (HLM) por uma lei de 1949, conforme o turismo de Seine-Saint-Denis.

Por que chamam de favela um bairro com hospital e creche?
Porque o apelido é digital, não geográfico. O concreto repetido e a alta densidade lembram a periferia, mas a rede de serviços segue padrão de capital europeia.
As HLM somam 16% das moradias da França, cerca de 4 milhões de unidades que abrigam perto de 10 milhões de pessoas. Metrô, fibra óptica, hospital público e creche chegam às ruas mais simples com a mesma regularidade dos bairros nobres.
A cidade com mais moradia pública da Île-de-France
Em Dugny, no coração do 93, 69,2% das moradias eram HLM em 2021, o maior percentual da Île-de-France. L’Île-Saint-Denis aparece em segundo, com 61%.
O Seine-Saint-Denis reúne 39 cidades e cerca de 1,6 milhão de moradores ao norte de Paris, onde a habitação social tem mais de um século de história. Apesar do concreto e dos serviços, a banlieue popular ainda convive com desemprego, segregação e estigma. Foi o cenário das revoltas de 2005, após a morte de dois adolescentes em Clichy-sous-Bois, e dos protestos de 2023, depois da morte de Nahel M. em Nanterre.
O vídeo é do canal Mochilek, com mais de 1,5 mil inscritos, e detalha as origens migratórias, o custo de vida e a experiência real de morar nessas regiões da França:
O que visitar nas banlieues além do anel viário?
A região guarda monumentos que poucos turistas associam à periferia. Algumas atrações ficam a poucos minutos do centro da capital.
- Basílica de Saint-Denis: necrópole real onde repousam 43 reis e 32 rainhas da França, considerada o primeiro grande exemplar da arquitetura gótica.
- Stade de France: maior estádio do país, em Saint-Denis, palco de finais e shows, com visita aos bastidores.
- Mercado de Pulgas de Saint-Ouen: um dos maiores brechós do mundo, reunindo cerca de 12 mercados de identidades diferentes.
- Museu do Ar e do Espaço: em Le Bourget, o maior museu aeronáutico da França.
- Parque Georges-Valbon: área verde de La Courneuve, um respiro de natureza no meio do cinturão urbano.
Quando o clima ajuda a explorar a região?
O clima é temperado, com verões amenos e invernos frios e úmidos. A chuva se espalha pelo ano todo, o que pede sempre um casaco à mão.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições podem variar.
Como chegar às banlieues saindo do centro de Paris?
As cidades do cinturão ficam coladas à capital, separadas apenas pelo Boulevard Périphérique. De trem, o RER e o metrô levam ao 93 em cerca de 10 a 20 minutos a partir do centro, e Saint-Denis fica a menos de 10 km da Torre Eiffel.
Vá além do Périphérique
O cinturão de Paris mostra que infraestrutura de qualidade pode alcançar todas as faixas de renda quando existe planejamento público de longo prazo. Entre o concreto e a tensão social, as banlieues guardam reis góticos, estádios lendários e uma vida urbana que desafia o rótulo de favela.
Você precisa cruzar o anel viário e conhecer as banlieues, onde a periferia de Paris revela um lado que os cartões-postais nunca mostram.