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No meio do deserto do Atacama, uma montanha de roupas de 60 mil toneladas foi encontrada: ela veio da Europa e pode ser vista do espaço
deserto do Atacama abriga um gigantesco acúmulo de roupas descartadas.
Aquela camiseta comprada por vinte reais no site de moda rápida, usada duas vezes e esquecida no fundo do guarda-roupa, provavelmente vai parar em algum lugar depois de descartada. Muitas dessas peças, junto com milhões de outras vindas de armários europeus, terminam a jornada em um mesmo destino improvável: uma montanha colorida no meio do deserto do Atacama, no norte do Chile, que já chegou a 60 mil toneladas e pode ser identificada por satélites em órbita.
Como uma montanha de tecido surgiu no lugar mais seco do mundo?
A cena começa longe dali. Um consumidor europeu compra uma peça nova, usa poucas vezes, doa para uma caixa de reciclagem no shopping. Essa doação segue viagem em contêineres para portos da América do Sul, com a ideia de ganhar segunda vida em mercados de segunda mão. Muitas realmente ganham, mas o volume que chega é grande demais para o mercado local absorver.
O que sobra segue para depósitos irregulares nas periferias da cidade de Alto Hospício, perto da região portuária de Iquique. Ali, no meio do deserto de Atacama, o clima extremamente seco impede a decomposição natural dos tecidos, principalmente sintéticos, e a pilha só cresce. Ano após ano, a montanha ganha altura e cor.

Como esse volume chegou a ser visto do espaço?
É difícil dimensionar 60 mil toneladas até fazer a conta. É como se cada morador de uma cidade de médio porte descartasse dezenas de quilos de roupa naquele mesmo pedaço de deserto. As imagens de satélite disponíveis pelo aplicativo SkyFi mostram uma mancha colorida bem visível contra o solo árido. Os elementos que ajudam a entender a escala:
De onde vem tanta roupa que sobra?
A origem principal é a Europa. Segundo relatório publicado pela Organização das Nações Unidas em 2024, a União Europeia é a maior exportadora mundial de roupas descartadas, com 30% do total global. O Reino Unido aparece em seguida com 16%, e os Estados Unidos com 15%. O que torna o volume tão grande são hábitos de consumo específicos:
- Cada residente da União Europeia compra em média 26 quilos de têxteis por ano
- Do total comprado, cerca de 11 quilos por pessoa são descartados anualmente
- Boa parte desse descarte é feita achando que o destino é reciclagem ou reuso
- Na prática, uma parcela significativa viaja milhares de quilômetros até acabar no deserto
O que alimenta o ciclo é o modelo de negócio conhecido como fast fashion, ou moda rápida, com coleções novas a cada poucas semanas e peças pensadas para durar pouco. A ONU classificou a situação no Atacama como uma “emergência ambiental e social”, e o problema hoje é objeto de ação judicial.
Qual o impacto no ambiente e na saúde de quem vive por perto?
Vai muito além do visual desagradável. Grande parte das peças é feita de fibras sintéticas derivadas do petróleo, como poliéster e náilon, materiais que praticamente não se decompõem. Quando pegam fogo, seja por acidente ou de forma proposital para reduzir volume, liberam poluentes tóxicos no ar e microplásticos no solo. A tabela abaixo mostra os principais efeitos:
| Aspecto | Situação | Efeito |
|---|---|---|
| Ocupação do solo Terreno público | Pilhas cobrem áreas extensas do deserto. | Perda de solo por décadas |
| Queimadas Fumaça de fibras | Incêndios liberam microplásticos e poluentes. | Ar tóxico para moradores |
| Dispersão de resíduos Vento constante | Etiquetas e fragmentos se espalham pelo entorno. | Contamina outras áreas |
| Comunidades próximas Alto Hospício | Trabalhadores catam peças em meio ao entulho. | Risco à saúde local |
Existe alguma resposta em andamento?
Existe, e algumas ações começam a se organizar. Em decisão recente, o Primeiro Tribunal Ambiental de Antofagasta responsabilizou o Estado chileno por omissão, apontando falha em prevenir ou controlar o acúmulo ilegal de resíduos em terrenos públicos ao longo dos anos. A sentença determinou um plano de recuperação ambiental de dez anos, embora a decisão ainda esteja em recurso na Suprema Corte. No plano internacional, também há esforços novos: leis europeias buscam proibir a exportação de resíduos têxteis para países sem infraestrutura formal de reciclagem, e algumas iniciativas locais tentam transformar as roupas descartadas em painéis de isolamento térmico para construção civil.
O problema é a fiscalização nos portos de origem, que ainda não acompanha o volume produzido pela moda global. Enquanto isso, a montanha continua crescendo. Este texto é informativo e reúne dados de fontes públicas para explicar a situação de forma acessível.
O que essa história tem a ver com quem lê daqui?
Tem tudo. A camiseta do começo do texto pode ter começado numa fábrica asiática, passado por um armário europeu e terminado ali, entre milhões de outras. O ciclo é global, e todo consumidor faz parte dele, mesmo sem saber. Escolhas pequenas de compra e descarte fazem diferença ao longo do tempo, especialmente quando somadas a milhões de outras.
Aquela imagem improvável, de uma montanha colorida crescendo no lugar mais seco do planeta, se tornou um retrato do descompasso entre o quanto o mundo produz e o quanto o mundo consegue absorver depois. E se uma pilha de tecido chegou a ser visível do espaço, talvez seja porque o problema já não caiba mais só no chão.