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Peças de LEGO que caíram de um navio em 1997 ainda aparecem nas praias, e cientistas calculam que podem durar até 1.300 anos no mar
Uma onda gigante derrubou no Atlântico um contêiner com quase 4,8 milhões de blocos, entre eles polvos e dragões em miniatura cobiçados por colecionadores
Peças de LEGO continuam aparecendo nas praias da Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, quase 30 anos depois de um acidente no Atlântico. Em 1997, uma tempestade violenta jogou no mar um contêiner cheio de brinquedos. O que parecia só uma curiosidade acabou mostrando quanto tempo o plástico consegue sobreviver no ambiente.
O que aconteceu em 1997?
Em 13 de fevereiro de 1997, o porta-contêineres Tokio Express ia de Roterdã, nos Países Baixos, para Nova York quando uma onda gigante o atingiu a cerca de 30 quilômetros da costa da Cornualha. O capitão disse que era um fenômeno que se espera “uma vez por século”.
Com o impacto, o navio inclinou cerca de 60 graus e 62 contêineres caíram no oceano. Um deles levava 4.756.940 peças de LEGO. Dessas, 3.178.807 eram leves o bastante para boiar.
Boa parte da carga, por ironia, tinha tema marinho: polvos em miniatura, escafandros, nadadeiras de mergulho e dragões verdes. As correntes levaram os brinquedos até as praias inglesas e muito além delas.
Quanto tempo uma peça de LEGO dura no mar?
A resposta veio de uma equipe da Universidade de Plymouth, liderada pelo pesquisador Andrew Turner. O estudo, publicado em 2020 na revista científica Environmental Pollution, calcula que as peças recolhidas nas praias da Cornualha podem durar de 100 a 1.300 anos em água salgada. No limite máximo, isso dá mais de 40 gerações humanas.
Os blocos são feitos de ABS (acrilonitrila butadieno estireno), um plástico rígido feito para aguentar impactos. Os pesquisadores recolheram 50 peças desgastadas em praias do sudoeste da Inglaterra, pesaram cada uma e analisaram a composição com um espectrômetro de fluorescência de raios X.
A química ajudou a datar o material. A fabricante deixou de usar certos aditivos ao longo dos anos, então a presença deles mostrava a época de cada peça. A equipe comparou os blocos gastos pelo mar com exemplares comprados nos anos 1970 e 1980, mediu quanto peso eles perderam e, com esse número, estimou quanto tempo ainda vão durar.
No mar, o sal, o sol e o atrito arredondam as bordas, apagam as cores e racham as peças. Com o tempo, elas se partem em microplásticos, que entram na cadeia alimentar.
Quem ainda procura os LEGOS perdidos?
Na Cornualha, Tracey Williams procura peças na areia desde o acidente e registra o que encontra no projeto LEGO Lost at Sea. Com o tempo, passou a achar também peças que tinham afundado, e não só as que flutuavam. A busca virou o livro “Adrift” e um símbolo de uma poluição que não vai embora.
Entre colecionadores, as peças mais disputadas são os raros dragões verdes e os cerca de 4.200 polvos pretos que caíram no mar. Em 2017, um voluntário separou quase 6 milhões de fragmentos de plástico recolhidos em uma única praia. Entre eles havia 240 nadadeiras de mergulho da LEGO.
O caso é só uma amostra de um problema bem maior. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), pelo menos 14 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos todo ano. E as peças que caíram do Tokio Express em 1997 ainda têm séculos pela frente.