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A planta dourada brasileira que só pode ser colhida por 72 dias para garantir a próxima safra e sustentar comunidades inteiras do cerrado
A planta que transformou uma data do calendário.
Poucas plantas brasileiras têm data marcada em norma estadual para serem cortadas. O capim dourado do Jalapão tem, e a explicação é biológica: antes daquele dia, as sementes ainda não amadureceram, e colher significa impedir a próxima safra. Em torno dessa regra se organiza a economia de comunidades inteiras no leste do Tocantins.
Por que a colheita do capim dourado só pode começar em 20 de setembro?
Porque é o momento em que as sementes ficam prontas para se dispersar. A regra saiu da Portaria nº 362, de 2007, do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), que estabeleceu as normas de coleta, manejo e transporte da planta, conforme registra a Assembleia Legislativa do Tocantins.
A janela é curta e vai até 30 de novembro. Para garantir que ninguém antecipe o corte, o governo estadual mantém a Operação Capim-Dourado, força-tarefa que reúne Naturatins, Batalhão de Polícia Militar Ambiental, Grupo de Operações Aéreas, Corpo de Bombeiros e outras secretarias, com fiscalização nos municípios de Mateiros, Novo Acordo, Ponte Alta do Tocantins e São Félix do Tocantins, além de cidades das regiões central e sudeste do estado.

O que mais a legislação estadual proíbe?
Proíbe que a haste deixe o estado antes de virar peça pronta. Segundo o Governo do Tocantins, a Lei Estadual nº 3.594, de 2019, exige licença ambiental para o manejo e a coleta do capim dourado e do buriti e veta o transporte do material in natura para fora do Tocantins.
A intenção é impedir que a matéria-prima seja tecida em outro lugar, sem o conhecimento acumulado pelas comunidades locais, e que peças de qualidade inferior circulem com o nome da região. A única exceção prevista é para feiras e eventos de artesanato, limitada a um quilo por artesão licenciado. Quem descumpre pode perder a autorização de coleta, incentivos fiscais e o direito de contratar com a administração pública.

O capim dourado é mesmo um capim?
Não é. Trata-se do Syngonanthus nitens, uma sempre-viva da família Eriocaulaceae, e o que se colhe não é folha, e sim o escapo, a haste fina que sustenta uma florzinha branca no topo. De acordo com estudo publicado na Acta Botanica Brasilica, com participação da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, a espécie é comum no Brasil Central e ocorre em campos úmidos vizinhos a veredas e matas de galeria alagáveis.
Essa condição explica a fragilidade do sistema. A planta depende de solo úmido em faixas estreitas do Cerrado, e a mesma haste que dá o brilho dourado é a estrutura que carrega as sementes. Cortar cedo demais retira do campo justamente o material que garantiria a regeneração no ano seguinte, o que transforma uma data de calendário em condição de sobrevivência da espécie. Situação parecida vale para o cerrado de altitude reconhecido pela UNESCO, em Goiás.

Como a técnica chegou ao povoado de Mumbuca?
Chegou pelas mãos dos indígenas Xerente, que já usavam as hastes para fabricar utensílios domésticos e produtos de troca. A arte de tecer foi aprendida pelas famílias do povoado quilombola de Mumbuca, em Mateiros, e passou a ser transmitida entre gerações nas comunidades jalapoeiras.
O acabamento depende de uma segunda planta. As hastes são costuradas com a fibra fina retirada das folhas novas do buriti, palmeira típica das veredas, e é por isso que a lei estadual trata as duas espécies no mesmo texto. A Associação dos Artesãos do Povoado Mumbuca organiza a festa da colheita, realizada todos os anos no início do período liberado, e o lançamento da operação de fiscalização de 2025 aconteceu no próprio povoado.
A data que virou parte do ciclo do Cerrado
O capim dourado é um caso raro em que o calendário legal foi desenhado a partir da biologia de uma planta, e não do interesse do mercado. A janela de setembro a novembro existe porque é o intervalo em que a colheita não compromete a safra seguinte, e a proibição de exportar a haste crua garante que o valor agregado fique com quem domina a técnica.
Entre a fiscalização por helicóptero e a costura fio a fio dentro de casa, o Jalapão mantém em pé um arranjo incomum: uma economia inteira que só pode começar num dia específico do ano.